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Quarta-feira, 17 de Agosto de 2005

Índios cegos reforçam auto-estima

José Aurelio Paz, RIOBAMBA, Ecuador, Agosto 20, 2002

"Não tenho olhos, mas Deus me deu visão", testemunhou um dos 30 participantes equatorianos, guatemaltecos Taxi Heathrow Airport e cubanos do I Encontro Latino-americano de Cegos e Cegas Indígenas, reunido no Colégio da Igreja de Deus, Riobamba, Equador, de 7 a 10 de agosto. 

O reverendo cubano Noel Fernández foi um dos organizadores do encontro. "Aos poucos observa-se uma pequena luz no trabalho das igrejas, como instituição, com os cegos", disse o pastor, que coordena a pastoral voltada a pessoas portadoras de deficiência do Conselho de Igrejas de Cuba (CIC) e o trabalho com esse público do Conselho Mundial de Igrejas (CMI) para a América Latina.

O encontro de Riobamba foi organizado pela Rede de Trabalho em Defesa de Pessoas Portadoras de Deficiência (Edan), CMI e pelo Conselho Latino-Americano de Igrejas (Clai). Fernández agradeceu o apoio do Clai a esse importante trabalho "regenerador do espírito cristão".

Três temas perpassaram a agenda do encontro de indígenas cegos: a auto-estima, sua atual situaçãoe a inserção na igreja e na sociedade. Eles estudaram conceitos bíblicos sobre a deficiência, os direitos e deveres dos cegos, os projetos produtivos para cegos, as igrejas indígenas e a pastoral com cegos.

Os testemunhos que trouxeram foram emocionantes. Etelvina Sánchez passou por cirurgia da vesícula sem que lhe tivessem solicitado algum exame de sangue. Ela sofreu choque anestésico durante a cirurgia em conseqüência de uma hepatite que sofria sem o saber. Ficou cega. Etelvina é médica missionária. O acidente significou um golpe tremendo na sua atividade.

Ángel Guamán tinha 12 anos quando acreditou que ficara cego por ter lido demais exposto ao sol. Na verdade, seu nervo ótico fora afetado por um vírus. Ele poderia ter sido vacinado, o que não aconteceu por causa da falta de esclarecimento de seus pais, que moravam distantes de qualquer recurso médico e eram muito pobres. Uma explosão de dinamite em mina de pedra onde trabalhava cegou o índio César Yumi.

Guamán contraiu cegueira ao terminar o curso primário. Sentiu-se um traste, atirado que ficou pela casa. Para Yumi, um homem acostumado a trabalhar, estar vivo depois da explosão foi um milagre de Deus. Mas um meio milagre, porque seus olhos eram dois pedaços de espelho quebrado. Parentes de sua mulher recomendaram-na que o deixasse, pois viver com um homem nessas condições significaria a condenação à miséria absoluta.

Etelvina conheceu César Yumi, que não se conformou com a situação. Ele batalha contra a passividade e a discriminação que a sociedade os condena. Passaram a estudar Braille e ela retomou seu antigo hobby de tecelã. "Para mim, a lição ficou clara", acrescentando: "Cada dia é uma escola".

Foi pelo rádio que Guamán ouviu Yumi motivar, em quechua, cegos da região para que saíssem da passividade. Hoje, Guamán cursa o quarto ano de Direito na Universidade Central do Equador. "Deus sempre foi minha fortaleza e meu auxílio imediato", declarou Yumi, que jamais desistiu de lutar pela sua auto-estima, trabalhar e sentir-se útil depois de perder a visão.

Yumi foi o grande incentivador de um centro de capacitação para cegos, que iniciou em 1986, com quatro pessoas. Seis anos depois, passou a ter 16 alunos, quando fecharam parceria com a Christopher Blindermission para a reabilitação comunitária. Hoje, eles têm cadastrados mais de 150 cegos na região de Riobamba, que vão receber capacitação.

O diretor do Instituto Superior de Estudos Andinos e da Fundação Indígena para o Desenvolvimento (Feide), Jerônimo Yantelma, disse, na condição de convidado, que esse encontro era um grito de rebeldia dos indígenas cegos na tentativa de ocuparem seu verdadeiro papel na igreja e na comunidade.

A auto-estima do cego, disse o advogado Róger Cusme, que também perdeu a visão, tem que partir do reconhecimento próprio que cada indivíduo tem de suas potencialidades criativas e as possibilidades de contribuição à sociedade.


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