Alegria e humor no mapa dos caminhos de Deus na América Latina
Edelberto Behs, PORTO ALEGRE, Brasil, Fevereiro 20, 2006
Uma curiosa, sensível e ingênua menina de 15 anos, um velho índio, uma mulher índia, Taxi Heathrow Airport um cômico revolucionário com seus 55 anos de idade e um negro peregrino conduziram, ontem, os participantes da IX Assembléia do Conselho Mundial de Igrejas (CMI) pelas trilhas musicais e imaginárias do continente para descobrir "Por onde caminha Deus na América Latina?"
A guitarra e a música do cantor argentino Victor Heredia, seguida dos sons emitidos por cuíca, tambores, tamborins, atabaques, triângulo, xilofone e pandeiro abrem a busca dos caminhos de Deus pelo continente. "São as nossas canções e lutas que nos unem", explica o narrador.
O continente foi construído com base na dominação política colonial, do roubo das terras indígenas, do massacre dessas populações, do trabalho forçado no escravo negro, da imposição cultural européia. "Pedimos que venham a esta Assembléia com a mente aberta para mudar o que é preciso mudar", conclamou o presidente do Conselho Latino-Americano de Igrejas (CLAI), o bispo anglicano Júlio César Holguin.
O espetáculo multimídia, misturado à antiga arte de bonecos representando a menina, o índio, a índia, o revolucionário e o negro, mostra que o principal desafio do cristianismo no continente são as desigualdades e injustiças, dos quais ele foi parceiro e legitimador, por vezes denunciador e profético.
A perversão do sistema é que não há fronteira ou barreira para o plano econômico dos Estados Unidos, denunciou no seu pronunciamento gravado para esse momento, a representante do movimento das Mães da Praça de Maio, Nora de Cortiñas. "As igrejas têm que se meter nisso, na luta pela vida e pela justiça, senão não seguem o Evangelho", acrescentou Alba Lancillotto, também em depoimento gravado, representando as Avós da Praça de Maio.
Entre as falas dos bonecos, permeadas de músicas do continente, como "Volver a los 17", de Violeta Parra, ou "Cio da terra", de Chico Buarque de Holanda e Milton Nascimento, o bispo metodista Federico Pagura, presidente do CMI para a América Latina e o Caribe, relatou que sua experiência centro-americana fez sua trajetória tomar novo rumo e hoje, aos quase 83 anos de vida, vê que o Evangelho é a busca de liberdade. Por isso ele mantém acesa a esperança de que "um outro mundo é possível".
A teologia latino-americana, declarou a teóloga mexicana Elsa Tamez, alcança as ferramentas para a luta e resistência da mulher latina, porque essa teologia "não é abstrata, ela parte da realidade". A pobreza, arrolou, tem rosto de mulher, porque existe uma estreita relação entre o sistema patriarcal e o sistema econômico que gera miséria e injustiça.
No palco, o narrador negro irrompe no debate da menina e da velha índia. "Os homens não podem ver duas mulheres inteligentes conversando e eles sempre querem se intrometer", diz uma delas. Risos e aplausos na platéia. Delas, principalmente. No telão, a Prêmio Nobel da Paz 1992, Rigoberta Menchu, descendente dos maias, explicou que povos indígenas reivindicam uma memória histórica, o idioma e a busca de identidade para fortalecer a sua luta.
Onde há concentração de negros, ali também a pobreza está concentrada, destacou no seu depoimento o coordenador da Comissão Ecumênica de Combate ao Racismo (Cenacora), pastor Antônio Olimpio Sant'Ana.
Mas, então, por onde anda Deus na América Latina? Deus está caminhando com os povos excluídos, apontou o bispo Carlos Poma, da Igreja Metodista da Bolívia. Deus está entre os anônimos, os invisíveis, destacou a bispa metodista argentina Nelly Ritchie. Ele está entre os que têm fome e não têm trabalho, disse o pastor pentecostal Jorge Vaccaro. Deus está em todo o lugar, assinalou a jovem luterana Regina da Silva Ferreira.
Os caminhos de Deus só podem ser percebidos no encontro com o outro, proclamam as personagens representadas pelos bonecos. Deus caminha entre os recantos latino-americanos trazendo alegria ao povo. "A transformação do mundo está em nós", diz um boneco. A apresentação com bonecos procurou mostrar que alegria e humor fazem parte do jeito de ser latino-americano, e que são ingredientes da luta pela sobrevivência e amor pela vida.
O espetáculo, produzido pela Universidade Metodista de São Paulo, vai chegando ao fim com a montagem do logotipo da IX Assembléia. A apresentação deixou o recado de que o cristianismo tem uma grande contribuição a dar para a afirmação de uma espiritualidade e uma ação pastoral inserida na vida do povo.

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