![Aram I, moderador do CMI, defendeu o "aggiornamento", a renovação do movimento ecumênico. [Foto: Peter Williams/CMI]](/picture/Aram_I_2be459.jpg)
Aram I defende "aggiornamento" do ecumenismo para fazer frente ao século XXI
Edelberto Behs, PORTO ALEGRE, Brasil, Fevereiro 15, 2006
O moderador do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), sua santidade Aram I, da Igreja Apostólica Taxi Heathrow Airport Armênia, do Líbano, defendeu o "aggiornamento", a renovação e a transformação do movimento ecumênico, se ele quiser atuar de maneira responsável e eficaz no século XXI.
"Ser Igreja é ser ecumênico, ser ecumênico é ser Igreja", declarou Aram I na entrevista coletiva que concedeu, no início da tarde de hoje, antes de apresentar o seu relatório à IX Assembléia do CMI, reunida nesta capital de 14 a 23 de fevereiro. A unidade visível deve ser o centro de tudo o que se faz no movimento ecumênico, frisou.
Esta é a primeira vez que uma Assembléia do CMI se reúne em terras latino-americanas, contexto destacado no relatório do moderador. Ele mencionou a crise econômica e política que se abateu sobre a região nos últimos dez anos e a luta dos povos do continente, ao longo do período, em favor da vida, da dignidade e dos direitos humanos.
Com o impacto provocado pela mundialização na América Latina, “os povos da região perderam o controle dos seus recursos naturais e de suas atividades econômicas, e o fosso entre ricos e pobres se aprofundou”, relatou Aram I. Muitas igrejas estiveram atentas a essas transformações, pois acreditam que o seu papel pastoral e profético é de participar ativamente na construção das nações.
“Esse envolvimento das igrejas na construção da nação as têm ajudado a entender a missão de Deus num contexto novo e de uma maneira nova”, onde “espiritualidade, zelo evangelizador e engajamento ecumênico são fortemente presente nas igrejas”, apontou. O moderador também citou o crescimento de igrejas não-institucionais e do movimento carismático na região.
Na entrevista coletiva, Aram I frisou que o diálogo inter-religioso deve ser tratado no encontro de Porto Alegre. É um tema que vai além da publicação das caricaturas do profeta Maomé, afirmou, e não deve ficar restrito a um conceito. "Não devemos mais falar de diálogo, mas ele deve fazer parte da nossa vida", definiu.
No relatório apresentado à plenária, que congrega 691 delegados, representando 347 igrejas de 110 países, o moderador do CMI destacou a pluralidade religiosa, que constitui hoje o contexto do "ser Igreja". Ela sempre dialogou com o seu meio ambiente, mas a mundialização "tornou o diálogo ainda mais existencial e mais inerente à vida cotidiana da Igreja", assinalou.
Tanto na entrevista coletiva como no relatório Aram I afirmou que o movimento ecumênico está em crise. Ele defendeu um ecumenismo centralizado no povo, que responda às realidades mutantes.
A crise, definiu, diz mais respeito às instituições ecumênicas, pois estão defasadas em relação ao contexto mundial dos dias de hoje. O processo de "reconfiguração", que poderá trazer novos ventos ao ecumenismo e que o CMI iniciou recentemente, deverá ocupar lugar importante na agenda ecumênica, arrolou.
No relatório, o moderador destacou o papel da juventude no "ser Igreja" e no "ser ecumênico". "Se nós não capacitarmos a juventude, ela buscará outros espaços, fora das igrejas e do movimento ecumênico", escreveu. Aram I também defendeu o fortalecimento da parceria do CMI com a Igreja Católica e uma Igreja que vai além dos seus muros.
Ir além dos muros, na visão do moderador, significa conceber a Igreja como uma realidade missionária, que trabalha as questões da esfera da ética e da moral, como os temas relacionados à bioética, biotecnologia, sexualidade humana, e que "empodera os marginalizados".
Aram I também tocou, no relatório, nas relações dos ortodoxos com o organismo ecumênico. O CMI, disse, não tem compreendido corretamente as expectativas ortodoxas de recuperar e redescobrir sua identidade e posição na sociedade pós-comunista, e as igrejas ortodoxas têm exagerado nas críticas ao CMI, "a ponto de ignorar suas valiosas realizações ecumênicas".
A introdução do sistema de consenso nas votações do organismo, propostas pela Comissão Especial sobre a Participação dos Ortodoxos no CMI, apresentado em setembro de 2002, é um estágio do processo, que deve continuar. O CMI precisa passar por uma mudança de mentalidade, não apenas de regras, frisou o líder ecumênico.
Na posição de moderador do CMI desde 1991 e integrado no ecumenismo desde 1970, Aram I destacou que o movimento ecumênico "é uma peregrinação de fé e de esperança", e que ele deve procurar servir "a sua causa sagrada em vez de se deixar paralisar por estruturas esclerosadas".
O que o movimento ecumênico precisa é de modelos que desafiem as igrejas sem cessar, "não simplesmente coabitar, mas a crescerem juntas e a passar de uma existência auto-suficiente para uma existência interdependente, de um testemunho unilateral para um testemunho multilateral".

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