Voltar ao início

Sábado, 10 de Novembro de 2007

Embaixada dinamarquesa atacada por grupos radicais muçulmanos.
Embaixada dinamarquesa atacada por grupos radicais muçulmanos.

Caricaturas de Maomé revoltam mundo muçulmano

Manuel Quintero, GENEBRA, Suiza, Fevereiro 7, 2006

Em seu aprazível escritório em Harvard, longe dos violentos tumultos que estremecem o mundo muçulmano, Taxi Heathrow Airport o professor Samuel Huntington pode sentir-se satisfeito. Dez anos atrás, o surgimento de seu livro “Choque de civilizações” provocou debate e uma ampla rejeição na comunidade acadêmica. Hoje, os fatos parecem dar razão à tese fundamental daquele ensaio: “A última fase na evolução do conflito no mundo moderno será caracterizada pelo confronto entre civilizações”.

Na origem do último episódio na longa cadeia de choques entre Ocidente e a civilização islâmica está uma série de 12 caricaturas, publicadas no dia 30 de setembro do ano passado pelo diário dinamarquês Jyllands-Posten, o de maior tiragem no país. A série, intitulada “as caras de Maomé”, na qual 12 chargistas soltaram a imaginação e, provavelmente sem querer, puseram em marcha um conflito de civilizações de proporções alarmantes.

Da Faixa de Gaza à Nigéria, da Indonésia à Arábia Saudita, os muçulmanos protestaram com crescente beligerância e, em ocasiões, com desenfreada violência: incendiando as embaixadas da Dinamarca e da Noruega em Damasco, no sábado, 4, e no domingo, 5, em Beirute, onde também ocorreram ataques contra um templo maronita e ao bairro cristão da capital libanesa.

Na Arábia Saudita e no Egito as câmaras de comércio conclamaram a um boicote aos produtos escandinavos. A Dinamarca exporta produtos ao Oriente Médio num total de 675 milhões de euros por ano, a metade para a Arábia Saudita. Embora esse montante represente apenas 1% do conjunto das exportações dinamarquesas, companhias como o consórcio lacticínio sueco-dinamarquês Arla Foods estão sendo seriamente atingidas.

A proibição de ídolos é comum às três grandes religiões monoteístas. Por isso, Moisés, naquele extraordinário encontro com Deus narrado no capítulo 33 do Êxodo, só pôde ver as costas do Altíssimo, o que o impossibilitou de reproduzir o rosto divino. De modo igual, o Islamismo proíbe a representação gráfica de Maomé, para prevenir qualquer tentativa de idolatria.

As razões do Jyllands-Posten

O porquê esse diário conservador animou-se a publicar tais desenhos é matéria de debate. O diretor da seção cultural do Jyllands-Posten e responsável direto pela publicação, Fleming Rose, acompanhou as caricaturas com um artigo de fundo no qual alegava que “a sociedade moderna e secular é rechaçada por alguns muçulmanos”.

Segundo Rose, esses muçulmanos exigem consideração especial para os seus próprios sentimentos religiosos, “uma postura irreconciliável com uma democracia secular ou com a liberdade de expressão, onde é necessário aceitar que alguém seja criticado, objeto de burla, ridicularizado”.

A saída do Jyllands-Posten pode ser explicada, segundo outro editorialista dinamarquês, pelo clima político existente na Dinamarca, marcado pelo debate em torno do multiculturalismo.

“Eles buscaram ofender os muçulmanos e o conseguiram de um golpe. Existe a vontade de ofender porque isso é parte da lógica presente no ambiente político da Dinamarca. Porque o problema maior na Dinamarca é a integração das minorias, entre as quais o grupo maior é o de origem muçulmana”, declarou o diretor de redação do diário Politiken, Toger Seidenfaden.

Se, com efeito, a intenção era ofender o mundo muçulmano, o êxito não podia ser maior. Os muçulmanos de todas as latitudes sentiram na própria carne a ofensa ao seu profeta como uma nova humilhação que o Ocidente lhes infligia.

O Irã, protagonista de um tenso duelo com a União Européia e os Estados Unidos em torno do seu programa nuclear, qualificou a publicação das caricaturas de “ataque organizado ao mundo muçulmano”. Em Naplusa, na Cisjordânia, o imame Hassan Sharaf disse, num sermão: “Se querem uma guerra de religiões, estamos prontos”.


Reações no Ocidente

 
A escalada do conflito parece ter tomado de surpresa o governo da Dinamarca, que, em outubro passado, rejeitou solicitação dos embaixadores árabes acreditados no país para discutir o assunto.

O primeiro-ministro dinamarquês, Anders Fogh Rasmussen, disse que desaprova as caricaturas e qualquer ataque à religião. Mas reiterou que o seu governo não interferirá em um assunto que tem a ver com a imprensa e a liberdade de expressão.

Na Finlândia, o ministro de Assuntos Exteriores Erkki Tuomija afirmou que “não é esse realmente o momento de agravar deliberadamente a desconfiança entre as grandes culturas e religiões, e de provocar os extremistas de ambos os lados”. E, apartando-se da tradicional solidariedade nórdica, ele criticou a Dinamarca por não ter pedido desculpas diante da indignação causada pelas caricaturas.

Já a ministra austríaca de Assuntos Exteriores, Ursula Plassnik, condenou sem rodeios “as declarações e atividades que denigrem uma religião de maneira ofensiva”.

Também na Itália, o ministro do Interior, Giuseppe Pisanu, declarou que “os símbolos religiosos, de qualquer religião que se trate, devem ser respeitados e não podem ser objeto de sarcasmos, de sátiras ou de burlas”.

O porta-voz da Santa Sé, Joaquín Navarro-Valls, assinalou que “a liberdade de expressão não dá direito a ferir o sentimento religioso dos crentes”, e pediu “um clima de respeito mútuo para favorecer a paz entre os homens e as nações”.

Entrementes, os autores das infelizes caricaturas de Maomé deixaram de dar entrevista à imprensa e, pelo que se sabe, evitam qualquer contato com o público, temerosos de serem vítimas de algum extremista muçulmano. Provavelmente, escutaram que um imame já declarou diante de seus fiéis que os responsáveis pelas caricaturas devem ser decapitados.