
O movimento ecumênico está vivo
Entrevista: Manuel López, MADRI, España, Janeiro 26, 2006
Entrevista de Manuel López, jornalista espanhol a Juan Michel, argentino, membro da Igreja Evangélica do Taxi Heathrow Airport Rio da Prata, é responsável pelo setor de imprensa do Conselho Mundial de Igrejas.
-Que grau de cobertura informativa em escala mundial você espera no Conselho Mundial de Igrejas da iminente IX Assembléia, em Porto Alegre?
Juan Michel – Confiamos que a cobertura será ampla. Trabalhamos duro para criar as condições para tanto e seguiremos fazendo-o. Estamos conscientes, certamente, de que a atenção midiática sobre as atividades do Conselho não é a mesma que há 20 anos, mas o leque de meios já acreditados assegura uma cobertura razoavelmente adequada.
- Que meios foram os mais madrugadores no credenciamento, e quais os mais lerdos?
Juan Michel – Os primeiros foram os alemães, que são também os mais numerosos, e ainda seguem chegando solicitações de credenciamento de distintos países. Não começamos ainda o credenciamento de meios brasileiros, e uma vez que nesse caso não há viagens internacionais, esperamos que se acreditem no último minuto e até mesmo quando a Assembléia já tiver começado.
- Quantas pessoas, e durante quanto tempo, estão implicadas nos preparativos da IX Assembléia?
Juan Michel – Esse é um dado difícil de se estimar. Para começar, ao redor de 200 voluntários no Brasil. Certamente, quase a totalidade do pessoal do Conselho, que somam outras 200 pessoas aproximadamente. Mas muita gente mais esteve e está envolvida de uma ou de outra maneira nas igrejas membros, nas organizações ecumênicas nacionais e regionais, e, não por último, nas organizações com as quais o Conselho colabora em diversas áreas.
- Qual será a manchete definitiva da IX Assembléia? E qual é que você gostaria de ver impressa nos jornais de todo o mundo?
Juan Michel – A manchete definitiva é impossível de predizer, tantas são as variáveis que podem influir. A que gostaria de ver diz: “O movimento ecumênico está vivo e goza de boa saúde. Novas perspectivas para a unidade cristã foram vislumbradas na Assembléia do CMI em Porto Alegre”.
- Que balanço o CMI faz das grandes linhas que a instituição prioriza no início do novo século e milênio?
Juan Michel – A busca da unidade dos cristãos é, hoje, tão ou mais relevante que o momento em que o Conselho foi criado. Em quase 60 anos, é muito o que se avançou, a ponto de alguns sustentarem que o movimento ecumênico estaria sofrendo hoje uma crise, fruto de seu próprio êxito, dado que algumas de suas grande conquistas já não chamam a atenção de gerações que não conheceram como se vivia a divisão entre as igrejas décadas atrás. Mas, apesar dos avanços, as divisões e suas lamentáveis conseqüências persistem.
Do mesmo modo, os esforços em prol de uma presença unida dos cristãos nas lutas por justiça e paz no mundo, que na compreensão do Conselho sempre acompanham a busca da unidade, seguem sendo necessárias e urgentes.
Uma comunidade de igrejas, com cerca de 350 igrejas cristãs presentes em mais de 110 países, com uma membresia estimada em 560 milhões de pessoas, encontra-se para dar expressão, ainda que, por certo, de maneira imperfeita, ao seu compromisso com a busca da unidade cristã e com a defesa da vida, tem, sem dúvida, um significativo papel a cumprir no mundo atual.
- Protestantes, ortodoxos e anglicanos por uma lado, e, de outra parte, batistas, evangélicos livres e pentecostais. O primeiro, um grande bloco de igrejas de “primeira divisão”, e, o segundo, de minoritárias que o compõem, de “segunda divisão”, com o tema do batismo de crianças ou de crentes, e a aceitação ou rechaço do financiamento do culto e clero com fundos públicos são linhas divisórias. Esse é o retrato robô do CMI?
Juan Michel – Isso acontece com quase todos os “retratos robôs”: não reconhecerias nem a tua própria esposa num deles, ainda que suponhas a quem o retrato pretende representar, e começarias a ver feições mais ou menos parecidas. Hoje, parece-me que a eucaristia ou a questão do clero homossexual divida mais que o batismo. Também me ocorre que as diferenças na compreensão de qual é a natureza da Igreja podem ser mais duras de arrancar do que os diferentes posicionamentos quanto a fundos públicos.
- Como caminham as relações com a Igreja Católica?
Juan Michel – Em novembro passado, celebramos quatro décadas de colaboração por meio do Grupo Misto de Trabalho, criado depois do Concílio Vaticano II e integrado por representantes designados por partes iguais pelo Conselho Mundial e pelo Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos. A Igreja Católica é membro pleno da Comissão de Fé e Constituição do Conselho e, em maio passado, uma delegação oficial católica participou da Conferência sobre Missão Mundial e Evangelização, realizada em Atenas. Caritas e Ação Conjunta das Igrejas (ACT, a sigla em inglês), organização de ajuda de emergência da qual o Conselho é membro fundador, trabalham juntas no Sudão desde o começo do ano passado. Ou seja, as relações caminham bem, embora haja muito por fazer e em algumas áreas os resultados alcançados sejam menos satisfatórios do que se poderia desejar.
- Que diferenças percebem no CMI quanto ao papado de Bento XVI em relação ao de João Paulo II?
Juan Michel – É muito cedo para avaliar diferenças entre o papado presente e o anterior. Uma coisa interessante é que o novo papa conhece bastante bem o Conselho, porque, entre outras coisas, ele foi membro da nossa Comissão de Fé e Constituição entre 1968 e 1975.
- Quantos séculos mais a unidade visível dos cristãos continuará sento uma utopia?
Juan Michel – A unidade visível dos cristãos é uma vocação e um desafio cuja vigência permanecerá enquanto durar o escândalo da divisão. Sua realização está, em definitivo, nas mãos de Deus.
- Como se encara de Genebra o escasso “entusiasmo” ecumênico na Espanha?
Juan Michel – Não conheço a realidade espanhola tanto assim para falar dela, mas o relativo desaquecimento do entusiasmo ecumênico em muitas partes do mundo é um desafio central para o trabalho do Conselho e de outras expressões do movimento ecumênico. Nesse sentido, a formação ecumênica será quase, por seguro, uma das prioridades do Conselho no período posterior à Assembléia.
- O que é que uma denominação evangélica tem de fazer para ser admitida no CMI na qualidade de membro pleno de direito ou como observadora?
Juan Michel – Solicitar admissão como membro, para o qual normalmente tem que estar organizada em nível nacional no país, e ter um mínimo de 25 mil membros (que a Assembléia provavelmente elevará para 50 mil). Além disso, deve estar trabalhando, já, de maneira ecumênica no país e região onde se encontra. E, certamente, aceitar a base do Conselho, que estabelece que ele “é uma comunidade fraternal de igrejas que confessam o Senhor Jesus Cristo como Deus e Salvador, segundo o testemunho das Escrituras, e procuram responder juntas à sua vocação comum, para a glória do Deus único, Pai, Filho e Espírito Santo.”
- Que é que você diz do crescente fenômeno dos crentes sem igreja? Não poderia haver algum lugar para esses coletivos em alguns dos múltiplos entornos do CMI?
Juan Michel – O Conselho não é uma igreja, de modo que não tem membros pessoais. Tampouco é uma superigreja, de modo que não pode dispor a ninguém algo que essa pessoa não encontrar em alguma de suas igrejas membros.
- Em que percentagem você pôde cumprir o programa de atuação em Comunicação ao qual se incorporou em 2003 ao CMI ou, dito em outras palavras, que meios, recursos fazem falta a curto, médio e longo prazo para situar uma instituição no clube mundial das entidades com maior nível de conhecimento por parte do público?
Juan Michel – Eu cheguei ao Conselho a partir do trabalho de comunicação na Igreja Evangélica do Rio da Prata, de modo que em meu “programa” a aprendizagem figurava em um posto muito alto. Nesse sentido, estou bastante satisfeito. Agora, não é um segredo que o Conselho, como em muitas organizações cristãs, trabalha com recursos reduzidos. Mas não estou seguro de que tenha sentido perguntar-se que meios fariam falta para conseguir um objetivo ideal e teórico que possa ser inalcançável. Prefiro estabelecer-me o problema de qual é o melhor uso dos recursos disponíveis em função de uma estratégia realista.
- Qual é, então, sua estratégia como encarregado do setor de imprensa para que as igrejas cristãs continuem presentes nas agendas dos meios?
Juan Michel – O Conselho vai mudar depois da Assembléia e a estratégia de mídia deverá acompanhar esse câmbio. Muito em rascunho, diria que a estratégia de mídia posterior a Porto Alegre terá quatro eixos: 1) reforçará o estabelecimento e desenvolvimento de relações com um espectro de jornalistas e meios escolhidos estrategicamente; 2) concentrará o trabalho de imprensa a um reduzido número de temas também estrategicamente selecionados; 3) promoverá intensamente a capacitação do pessoal do Conselho em matéria de mídia; 4) intensificará o emprego da sala de imprensa em linha, colocando mais recursos ao alcance direto dos jornalistas.
- A comunicação não está na moda nas igrejas cristãs. A “cuidadosística” – “temos que ser muito cuidadosos com a informação que damos, irmãos”- prima sobre a transparência informativa. Qual é sua receita para os responsáveis pela comunicação do mundo religioso para vencer as reticências das instituições de informar?
Juan Michel – Não estou seguro de que o diagnóstico se possa generalizar assim sem mais nem menos. Mas creio, sim, que todos os que trabalham em comunicação no âmbito eclesial compartilham o desafio de atuar como uma espécie de advogados da imprensa frente às igrejas e das igrejas frente à imprensa, buscando superar mútuas desconfianças e estabelecer vínculos produtivos. Uma receita? Pergunto-me se não deveria tratar de levar para almoçarem juntos líderes de igrejas e jornalistas.
- Desafortunadamente, o exemplo da Igreja Evangélica do Rio da Prata, da qual você procede e onde era responsável pela Comunicação, não é freqüente. Como animar as igrejas para que criem departamentos de Comunicação?
Juan Michel – Ficaria encantado em sabê-lo! Uma estratégia de comunicação dinâmica e inclusive audaz deveria ser parte da missão de uma comunidade cuja razão de ser se encontra no anúncio da boa notícia do amor incondicional de Deus aos seres humanos.
- Que percentual de recursos as igrejas, organizações e entidades cristãs deveriam destinar à Comunicação?
Juan Michel – O maior possível, claro!
- Você foi afetado pelos cortes orçamentários do CMI. De quanto foi o corte para a IX Assembléia?
Juan Michel – O orçamento da Assembléia de Harare, em 1988, foi de aproximadamente 8,3 milhões de euros (cerca de 23 milhões de reais), dos quais 2,5 milhões (7 milhões de reais) foram para a comunicação. O orçamento da Assembléia de Porto Alegre é de 4,4 milhões de euros (cerca de 12 milhões de reais), dos quais um pouco mais de meio milhão cabe à comunicação. Poderia ter sido pior.
- Desde sua incorporação ao CMI é evidente o impulso que o espanhol experimentou nas comunicações da instituição. Quanto ainda falta para que o peso do espanhol nos entornos do CMI se equipare ao inglês?
Juan Michel – Não houve tanto um impulso especial ao idioma espanhol como um incremento do número de notícias produzidas, o que proporcionalmente deu lugar a uma maior produção de material em espanhol (assim como nos demais idiomas). É muito difícil que o espanhol seja equiparado ao inglês, por diversas razões. Além disso, gostemos ou não, o inglês é a “língua franca” da nossa época, um fator de peso é que a membresia de fala espanhola do Conselho deve rondar apenas 1% do total. Em nossa lista de imprensa apenas 7% dos assinantes elegeram o espanhol como idioma preferido. Entre os assinantes do nosso serviço de notícias eletrônicas apenas 5% preferem esse idioma. Leitores de teológica.org podem incrementar essa última percentagem assinando gratuitamente a versão em espanhol do serviço de notícias eletrônicas do Conselho em https://wcc-coe.org/e-news
- O CMI sofre de contínuos ataques coléricos de setores ultrafundamentalistas, mas jamais contesta as provocações. A instituição não corre, desse modo, o risco de baixar a guarda na prática da sadia prática da autocrítica?
Juan Michel – Há setores e críticas às quais não faz sentido respondê-las, porque não há ninguém disposto a escutar do outro lado.
Embora sempre se possa desejar uma dose maior, há muita e boa autocrítica institucional em marcha dentro do Conselho. Um bom exemplo recente é a avaliação programática realizada como preparação para a Assembléia, da qual se pode ver um resumo no informe “De Harare a Porto Alegre (1998-2006)”. Ali pode-se ler que o Conselho “tem que fazer menos e fazê-lo bem, e que é necessária, entre outras coisas, uma transformação da cultura da organização”.
O informe está disponível no formato PDF no sítio web da Assembléia
(www.wcc-assembly.info > Esp) na seção Temas e Assuntos, subseção Documentos da Assembléia. A conexão direta é: https://www.wcc-assembly.info/fileadmin/files/wccassembly/documents/spanish/harare_a_porto_alegre_s.pdf
- A hipotética proposta de realizar a X Assembléia do CMI, por exemplo, nas Ilhas Canárias, território ultraperiférico da União Européia, em frente à costa africana, com forte vínculo com a América e com população de origem também asiática, te parece...
Juan Michel - ... estupenda! No primeiro dia do ano vi na TVE um informe sobre Canárias: a temperatura era de 25 graus centígrados e pessoas tomavam banho de mar, assim que me anotei para ir às Canárias quando possível. Brincadeira à parte, penso que a Ásia, mais precisamente a Coréia do Sul, pode ser um sério competidor das Canárias.
-Enquanto isso, quando vamos ver o secretário geral do CMI, Samuel Kobia, pela Espanha?
Juan Michel – Seria pouco prudente da minha parte arriscar uma data, mas prometo advogar pela visita em toda oportunidade que tiver.

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