
Anjos da História
Oneide Bobsin, SAO LEOPOLDO, Brasil, Janeiro 10, 2006
Ainda estamos sob o impacto dos rituais religiosos e profanos da passagem de ano. Através Taxi Heathrow Airport deles demarcamos o tempo: um antes e um depois. Mais do que passagem, é um momento que pretendemos traçar uma linha divisória, na esperança de que o novo se faça presente em 2006.
Foi neste contexto de virada de ano que me veio à mente um texto que descreve o Anjo da História, segundo Walter Benjamin. Baseado num desenho de um artista, o referido pensador alemão fala de um anjo que está de costas para o futuro. Ele não consegue fechar as suas asas, porque sopra um forte vento do paraíso. Com os olhos voltados para trás, ele vê muitos eventos, todos carregados de desgraças. Aos seus pés amontoam-se mortos, guerras e violência. É uma destruição total, cujos escombros chegam até o céu. Ele gostaria de parar para acordar os mortos, mas do paraíso continua a tempestade que o impede de fechar as suas asas.
Diz o pensador alemão que o Anjo da História é mantido em movimento pela repulsa e pelo desgosto do que vê.
A visão realista e desesperadora do Anjo da História reportou-me à caminhada do povo de Deus no deserto. Diante do povo ia um anjo do Senhor, protegendo-o, rumo à Canaã, terra preparada por Deus (Êxodo 23.20-33).
Contudo, esta mensagem da Velha Aliança ainda não conseguiu superar a visão angustiante produzida pelo Anjo da História. Ela é profundamente realista e vivencial, e me perturba profundamente, pois os desejos de um Novo Ano com sucesso e felicidade assemelham-se a um andar de costas para o futuro, como o Anjo da História.
Assim, diante da perplexidade do passado e do desespero de quem está de costas para o futuro lembrei do apóstolo Paulo: “Pois foi por meio da esperança que fomos salvos. Mas, se já estamos vendo aquilo que esperamos, então isso não é mais esperança. Pois quem é que fica esperando por alguma coisa que está vendo?” (Romanos 8.24).
Esse texto bíblico oferece uma outra visão do presente e do futuro. Jesus está de costas para o futuro, como o Anjo da História, mas caminhando em nossa direção, pois ele conhece o futuro, de onde vem.
Logo, por ter vindo do futuro a encarnação de Jesus celebrada no Natal é testemunha de que uma outra História é possível, porque os Anjos de Deus são diferentes do Anjo da História. Quando Maria ficou grávida o temor lhe sobreveio, pois não havia coabitado com José. Uma gravidez assim a levaria à morte, bem como a sua criança. Mas o Anjo do Senhor apareceu de forma protetora, mudando a cabeça de José. Ainda segundo o Evangelho de Mateus, o Anjo protegeu o menino Jesus ao pedir que fugissem para o Egito, pois Herodes queria matá-lo.
Também os pastores ficaram cheios de temor quando receberam a notícia do nascimento do Salvador (Lucas 2). Novamente o Anjo do Senhor apresentou-se, transformando o medo em alegria.
Com certeza esta deve ser a contribuição cristã diante do Ano Novo para o qual desejamos, muitas vezes, coisas que já vimos no passado. Não podemos esperar o que vemos ou já vimos, pois eternizaríamos o presente como o fazem os adivinhos e futurólogos, cujas vozes tomaram conta dos espaços na mídia. Logo, o que esperamos, pela fé, nada tem a ver com o que vemos no momento, porque o Anjo do Senhor anuncia alegria em vez de medo, afugentando, assim, o Anjo da História.
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Oneide Bobsin. Pastor da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil e professor de Ciências das Religiões da Escola Superior de Teologia de São Leopoldo/RS/Brasil.

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