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Quinta-feira, 8 de Novembro de 2007

Na área imobiliária mais nobre de Porto Alegre a família Silva resiste e aguarda o título definitivo do quilombo.
Na área imobiliária mais nobre de Porto Alegre a família Silva resiste e aguarda o título definitivo do quilombo.

Família Silva espera a boa nova neste Natal

Edelberto Behs, PORTO ALEGRE, Brasil, Dezembro 15, 2005

Neste Natal, os Silva aguardam, ansiosos, a boa notícia da posse definitiva de 4,4 mil Taxi Heathrow Airport metros quadrados localizados no bairro Três Figueiras, uma área nobre e das mais valorizadas de Porto Alegre. As terras da Comunidade Remanescente de Quilombo da Família Silva foram avaliadas em 7 milhões de reais (cerca de 2,9 milhões de dólares).

Na época de Advento, os Silva costumam ficar nervosos. Não é para menos. “Em Natais passados, os que se intitulam donos dos terrenos vêm aqui dizendo que temos que sair. Mas vamos para onde?” – pergunta-se o jardineiro Lori Ovaldino da Silva, 47 anos, presidente da Associação do Quilombo Silva. “Todos nós nascemos aqui e nos criamos aqui”, acrescenta Lígia Maria da Silva, de 49 anos de idade.

O último susto os Silva tiveram no dia 2 de junho passado, quando um oficial de justiça, acompanhado da polícia, apareceu com uma ordem de despejo da área. “Em 2002, apanhamos da polícia. Até os policiais Ninja (encapuzados, para operações especiais) apareceram”, relembra Rita de Cássia da Silva, 27 anos, mãe de três filhos. Ela é a vice-presidente da Associação e porta-voz do grupo.

Os Silva sabem de onde buscar forças para o dia-a-dia e também agradecem toda graça alcançada. No primeiro dia do ano novo eclesiástico de 2006, no primeiro domingo do Advento, eles convidaram o padre católico Benedito Chaves Santos, também negro, para rezar  uma missa.

Ao chegar no local da celebração da missa, o padre Santos encontrou um humilde altar improvisado com imagens de Nossa Senhora Aparecida, a santa Josefina Bakhita e uma preta velha, preparado no quilombo sob a sombra de duas enormes seringueiras. O padre lembrou o primeiro domingo do Advento, e convidou o branco e o seguidor de candomblé a se aproximarem da mesa do Senhor como irmãos.

“Nós, negros e negras, não devemos abaixar a cabeça. Temos o axé, temos uma força muito grande”, prega o padre. Os Silva tiveram que aprender a manter a cabeça em pé nos 60 anos de resistência na terra em que os avós e tataravós se estabeleceram. “Eles não sabiam ler, nem escrever, e por causa disso foram passando a perna na gente”, admite Rita de Cássia, orgulhosa de suas cunhadas e genros que aprenderam as letras no Colégio Anchieta, dos jesuítas, um dos mais conceituados da capital.

Hoje, os Silva não se deixam enrolar e mesmo na presença da polícia e de oficiais de justiça discutem os seus direitos. Em 30 de abril de 2004, a Fundação Cultural Palmares, ligada ao Ministério da Cultura, alcançou aos Silva a Certidão de Auto-Reconhecimento da área que ocupam e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) assinou, no próprio Quilombo, localizado na Rua João Caetano, 170, o termo de Reconhecimento de Posse.

O documento, ainda provisório, assegura que o INCRA desenvolve as etapas necessárias ao reconhecimento daquela área como de remanescentes de quilombos. “O laudo antropológico, o poço instalado e boletins de posse da família comprovam que os Silva vivem aqui há mais de 60 anos e são os legítimos donos desse quilombo”, diz o deputado Edson Portilho, do Partido dos Trabalhadores, e que participou da missa celebrada pelo padre Santos, no primeiro domingo de Advento.

As duas enormes seringueiras são ladeadas pelas moradias, muito simples, em madeira, das 12 famílias que moram no quilombo dos Silva. No total, são 60 pessoas, negras a maioria, que repartem o solo coletivo ladeado por luxuosos condomínios horizontais e área murada descampada, cujo dono certamente espera os resultados da especulação imobiliária.

É uma imagem do contraste que separa ricos de pobres. O condomínio logo acima do quilombo tem piscina. No quilombo, o esgoto é a céu aberto. “Temos luz, mas é gato (energia clandestina). A companhia de energia elétrica disse que nossa área era irregular e por isso não poderia atender o pedido de puxar a luz até o quilombo”, conta Rita de Cássia, apontando para o emaranhado de fios que cruzam os postes do quilombo.

A porta-voz do grupo lembra histórias da família, enquanto embala o filho menor no colo, sentada à sombra dos seringais, aguardando a chegada do padre para a celebração do Advento. “Alimento a gente quase não precisa comprar. Tem tudo ai, desde aipim, batata doce, milho, banana, goiaba. Temos até algumas galinhas. O Lori é jardineiro, ele cultiva muitas ervas, assim que nem no médico a gente vai”, relata.

Com alguns minutos de atraso, mas sem que isso fizesse alguma diferença aos Silva e convidados para a celebração da missa no quilombo, o padre chegou e logo reuniu as mais de 20 crianças e as mulheres do quilombo, vestidas com suas túnicas coloridas. Os homens, mais reticentes e retraídos, ficaram à distância, observando tudo. São as mulheres que tomam a frente na luta pela resistência na terra. “Os homens vão de arrasto”, diz Rita de Cássia.

No final da celebração, o padre convida para a bênção das primícias do quilombo. As mulheres e as crianças, em procissão, trazem até o altar pipoca, bolos, quindins, cocadas, banana, laranja e melancia. O povo canta: “Quanta comida na mesa, abençoa Senhor, que beleza”. O relógio marca um pouco além do meio-dia. Abençoados os alimentos, e terminada a cerimônia o povo se farta comendo das oferendas.

As terras dos Silva no elegante bairro de Três Figueiras, em Porto Alegre, é o primeiro e o maior quilombo urbano do país reconhecido oficialmente pela Fundação Cultural Palmares. Das 2.228 comunidades remanescentes de quilombos no país, apenas 70 estão com sua situação fundiária regularizada. Se a boa nova se concretizar para os Silva neste Natal, até o final do ano serão 71 áreas regularizadas e o afastamento definitivo do temor do despejo.