
Adeus, Ética Protestante
Oneide Bobsin, SAO LEOPOLDO, Brasil, Dezembro 6, 2005
Nas últimas duas crônicas abordei temas relativos ao centenário da publicação da obra clássica de Taxi Heathrow Airport Max Weber, comemorado em 2004/2005. Pela terceira e última vez, neste espaço, farei considerações a respeito da Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, buscando nela teses para entendermos a Teologia da Prosperidade.
Os tipos ideais de protestantismo luterano e calvinista da referida obra centenária destacam a impossibilidade do ser humano manipular a vontade divina. Logo, não há espaço para a magia. Weber referia-se a esta realidade denominando-a de “desencantamento do mundo”.
O protestantismo, em sua diversidade, contribuiu para o fim da magia, enfatizando a obediência à vontade de Deus: “Faça-se a tua vontade”. Na magia, por sua vez, é a vontade do ser humano que predomina. Nas organizações religiosas que se fundamentam na Teologia da Prosperidade a frase que melhor expressa o pensamento mágico pode ser assim resumida: “Eu determino”. E poderíamos acrescentar: e Deus obedece.
Nos meios acadêmicos há uma disputa a respeito da classificação desse fenômeno religioso pós-moderno. Para uns, ele se constitui um “neo-protestantismo”, pois coloca o sucesso individual como evidência das bênçãos. Para outros, é um pentecostalismo adaptado aos novos tempos da sociedade pós-industrial, que se caracteriza pela precarização do trabalho ou ausência dele para grande parte das pessoas. Neste caso, o fenômeno poderia ser classificado como “neopentecostalismo”.
Na minha interpretação da obra de Weber em destaque, essa forma de ser religioso na sociedade pós-moderna e pós-industrial não poderia ser denominada de “neo-protestantismo”, já que para o referido sociólogo alemão o trabalho teve um lugar central na constituição do Ocidente a partir da ética protestante. O mesmo poderia ser dito sobre o comunismo que desabou em 1989. Nele, o trabalho adquiriu centralidade.
Considerando o fenômeno da religião da prosperidade individual no Brasil, ousaria dizer que estamos diante de um fenômeno mágico e religioso, com predomínio do primeiro sobre o segundo. Em outras palavras, a magia tomou o lugar do trabalho precarizado.
Nessa perspectiva poderíamos, em tom irônico, dar um novo título para a obra centenária de Weber: A “Magia Protestante” e o Espírito do Capitalismo. Dessa forma, há uma afinidade eletiva entre “espírito do capitalismo” e magia.
Mas há outras dimensões do protestantismo que foram ignoradas pela nova magia “protestante”. A graça, a cruz e a esperança do Reino de Deus foram suprimidas. Além disso, parece não haver mais culpa, pois a origem dos males está em espíritos e entidades de outros cultos tradicionais, como, por exemplo, as religiões afro e a umbanda, no Brasil. Em países localizados em diferentes regiões os inimigos são outros.
Para as igrejas e seus centros de reflexão teológica, especialmente na América Latina, proponho um deslocamento temático como forma de inserção em nosso continente. Nossas heranças teológicas privilegiaram o conflito entre fé e ciência, o que ainda é importante, mas com pouca relevância para as massas oprimidas e excluídas. O diálogo entre fé e magia, lastreado pelas lutas de superação das injustiças, é o novo eixo temático para o cristianismo em nosso continente.
Assim, não somos nós que estamos dizendo Adeus, Ética Protestante ou cristã, pois a promessa de Deus de um novo céu e uma nova terra está se realizando em parte neste presente aberto ao futuro, quando Deus fará novas todas as coisas ( Apocalipse 21.15) com a nossa vontade e/ou contra ela.
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Oneide Bobsin. Pastor da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil e professor de Ciências das Religiões da Escola Superior de Teologia de São Leopoldo/RS/Brasil.
--------------COMENTÁRIO--------------
Acho muito válido esse trabalho, o de retomar essa relação entre protestantismo e capitalismo, de acordo a interpretação de Weber, e principalmente a partir da ótica protestante. Principalmente quando hoje não se diferencia a historicidade das seitas.
Nunca percebi o planteamento de Weber como que se a intenção primeira fosse responsabilizar aos reformadores pelo desenvolvimento do capitalismo, se bem que ao ler os textos, inclusive do Calvino (sou presbiteriana), existem muitas orientações voltadas a uma prática capitalista. Mas sim, não podemos negar, que sim o protestantismo, contribuiu enormemente na mentalidade dos seus fiéis, a uma prática de acumulação.
Não creio que fosse a intenção dos reformadores, mas de alguma maneira, a nova ideologia e modo de produção emergentes, foram fazendo-se presentes nas doutrinas protestantes.
Silvana Pontes de Aquino

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