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Domingo, 7 de Novembro de 2004

Doutor Oneide Bobsin
Doutor Oneide Bobsin

Lado certo da vida errada

Oneide Bobsin, SAO LEOPOLDO, Brasil

Lá estava ele novamente sobre a cama. Desta vez, a vida ficou por um fio. Taxi Heathrow Airport   Sua potente moto virou sucata. Talvez lhe revelasse sua impotência diante da vida

Mais uma vez a mãe  dedicava-se ao filho, procurando entendê-lo. Juares era dependente químico. Pedia-lhe que cuidasse da vida. O exemplo de longevidade dos avós era o conselho da mãe. Mas ele retrucava: “Mãe, com a droga de vida que levo se chegar até os trinta estará muito bom!”

Milhões de jovens e suas famílias vivem dramas semelhantes.  Como bodes expiatórios assumem o peso de uma sociedade drogada. Drogados socialmente, não percebem os mecanismos  que os elegem como vítimas de uma situação.

É de nosso conhecimento que casos assim são o elo frágil do crime  organizado globalmente. Drogas,   mulheres,  crianças e órgãos humanos  são- mercadorias transnacionalizadas no mercado da morte. Segundo relatórios da ONU, a “Cosa Nostra”,  a máfia norte-americana, os cartéis  da Colômbia, a Yakuza, entre outras , movimentam anualmente 500 bilhões de dólares. Parte do dinheiro é investido para subornar juizes, autoridades políticas, policiais, etc.

Estima-se, também, que o crime organizado  joga 120 bilhões de  dólares no mercado financeiro, envolvendo, de maneira indireta, a todos.  Como disse apóstolo Paulo, todos pecamos, por isto   carecemos da graça de Deus. O dinheiro do crime está  na mesma rede bancária onde colocamos nossas poupanças ou pode  circular em trabalhos solidários na periferia.

A ausência  do Estado, fragilizado pelas política neoliberais, tem favorecido o crime organizado. Traficantes tornam-se modelos para jovens da periferia. Numa das maiores favelas do Brasil, grande parte dos adolescentes tem diante de si dois caminhos, disse um adolescente : “Ou vou para o crime ou viro  pentecostal”. “Eu, relatou o jovem, escolhi o lado certo da vida errada”.

Sabemos como combater e erradicar a médio e longo prazo o crime organizado. Logo, abstenho-me  de falar sobre programas de inclusão social. Também sabemos que  os espaços de recuperação para  dependentes químicos são tão importantes quanto  o são a denúncia e a escolha de governantes cujas políticas públicas vão além de programas de repressão.

Contudo,  as soluções são complexas. Mesmo assim, um exemplo pode mostrar caminhos ao nosso alcance Numa escola pública, um grupo de professoras  resolveu agir, pois naquele bairro o desemprego e  esfacelamento da estrutura familiar tornam a vida  caótica. Mulheres abandonadas  por seus maridos fazem da venda de drogas uma  fonte de renda. Em tal contexto, as gangues identificam-se através de animais totêmicos.

Forçam a entrada de drogas no recinto escolar, praticam violência, picham os murros e paredes, enfim, são um “problema”. São chamados carinhosamente por quem se preocupa com elas de “Farc” – Forças armadas da C..;o  “C” refere-se à inicial  do bairro.

Com bom senso a direção da escola dialogou com as “Farc”. Negociou a limpeza dos muros e paredes , ignorando a pedagogia da exclusão. Foi criado espaço para cada  gangue pintar.  As canchas de esportes foram abertas para um lazer orientado. Assim, medidas sócio-educativas rompem estigmas que geram violência.

As “Farc” trazem à mente  o homem possesso que se agredia e vivia entre túmulos, conforme o Evangelho  de Marcos, capítulo 5.  Sentia-se possuído por uma legião de espíritos maus. Aquela região era ocupada por legiões de soldados romanos. Integrado pela palavra  libertadora de Jesus, dispôs-se, a segui-lo. No entanto, os que testemunham a libertação ficaram com medo. Por que? Talvez, porque  perderam o bode expiatório sobre o qual jogavam os fracassos das estruturas  excludentes que todos criaram.

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Oneide Bobsin. Pastor da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil e professor de Ciências das Religiões da Escola Superior de Teologia, São Leopoldo/Brasil