
Lado certo da vida errada
Oneide Bobsin, SAO LEOPOLDO, Brasil
Lá estava ele novamente sobre a cama. Desta vez, a vida ficou por um fio. Taxi Heathrow Airport Sua potente moto virou sucata. Talvez lhe revelasse sua impotência diante da vida
Mais uma vez a mãe dedicava-se ao filho, procurando entendê-lo. Juares era dependente químico. Pedia-lhe que cuidasse da vida. O exemplo de longevidade dos avós era o conselho da mãe. Mas ele retrucava: “Mãe, com a droga de vida que levo se chegar até os trinta estará muito bom!”
Milhões de jovens e suas famílias vivem dramas semelhantes. Como bodes expiatórios assumem o peso de uma sociedade drogada. Drogados socialmente, não percebem os mecanismos que os elegem como vítimas de uma situação.
É de nosso conhecimento que casos assim são o elo frágil do crime organizado globalmente. Drogas, mulheres, crianças e órgãos humanos são- mercadorias transnacionalizadas no mercado da morte. Segundo relatórios da ONU, a “Cosa Nostra”, a máfia norte-americana, os cartéis da Colômbia, a Yakuza, entre outras , movimentam anualmente 500 bilhões de dólares. Parte do dinheiro é investido para subornar juizes, autoridades políticas, policiais, etc.
Estima-se, também, que o crime organizado joga 120 bilhões de dólares no mercado financeiro, envolvendo, de maneira indireta, a todos. Como disse apóstolo Paulo, todos pecamos, por isto carecemos da graça de Deus. O dinheiro do crime está na mesma rede bancária onde colocamos nossas poupanças ou pode circular em trabalhos solidários na periferia.
A ausência do Estado, fragilizado pelas política neoliberais, tem favorecido o crime organizado. Traficantes tornam-se modelos para jovens da periferia. Numa das maiores favelas do Brasil, grande parte dos adolescentes tem diante de si dois caminhos, disse um adolescente : “Ou vou para o crime ou viro pentecostal”. “Eu, relatou o jovem, escolhi o lado certo da vida errada”.
Sabemos como combater e erradicar a médio e longo prazo o crime organizado. Logo, abstenho-me de falar sobre programas de inclusão social. Também sabemos que os espaços de recuperação para dependentes químicos são tão importantes quanto o são a denúncia e a escolha de governantes cujas políticas públicas vão além de programas de repressão.
Contudo, as soluções são complexas. Mesmo assim, um exemplo pode mostrar caminhos ao nosso alcance Numa escola pública, um grupo de professoras resolveu agir, pois naquele bairro o desemprego e esfacelamento da estrutura familiar tornam a vida caótica. Mulheres abandonadas por seus maridos fazem da venda de drogas uma fonte de renda. Em tal contexto, as gangues identificam-se através de animais totêmicos.
Forçam a entrada de drogas no recinto escolar, praticam violência, picham os murros e paredes, enfim, são um “problema”. São chamados carinhosamente por quem se preocupa com elas de “Farc” – Forças armadas da C..;o “C” refere-se à inicial do bairro.
Com bom senso a direção da escola dialogou com as “Farc”. Negociou a limpeza dos muros e paredes , ignorando a pedagogia da exclusão. Foi criado espaço para cada gangue pintar. As canchas de esportes foram abertas para um lazer orientado. Assim, medidas sócio-educativas rompem estigmas que geram violência.
As “Farc” trazem à mente o homem possesso que se agredia e vivia entre túmulos, conforme o Evangelho de Marcos, capítulo 5. Sentia-se possuído por uma legião de espíritos maus. Aquela região era ocupada por legiões de soldados romanos. Integrado pela palavra libertadora de Jesus, dispôs-se, a segui-lo. No entanto, os que testemunham a libertação ficaram com medo. Por que? Talvez, porque perderam o bode expiatório sobre o qual jogavam os fracassos das estruturas excludentes que todos criaram.
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Oneide Bobsin. Pastor da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil e professor de Ciências das Religiões da Escola Superior de Teologia, São Leopoldo/Brasil

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