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Segunda-feira, 29 de Outubro de 2007

Edelberto Behs, jornalista luterano brasileiro analisa críticamente a participação política dos evangélicos.
Edelberto Behs, jornalista luterano brasileiro analisa críticamente a participação política dos evangélicos.

Katrina mostra os pobres a Bush

Edelberto Behs, SAO LEOPOLDO, Brasil, Setembro 21, 2005

O xerife George Walker Bush é rápido no gatilho, como deu para perceber na guerra Taxi Heathrow Airport do Iraque, mas lento na concessão de ajuda humanitária, o que lhe valeu uma saraivada de críticas, tanto que visitou mais de uma vez a área atingida pelo furacão Katrina. O governo Bush levou cinco dias para enviar alimentos e ônibus aos flagelados de Nova Orleans depois da passagem do furacão.

O pastor negro Jesse Jackson acusou o governo de “racista”, uma vez que boa parte da população de Nova Orleans que ficou retida em suas casas por causa das águas era negra. “Ele (Bush) reagiu tarde e mal”, disse Jackson. “George Bush doesn’t care about black people” (George Bush não se importa com o povo negro), declarou para a televisão o rapper e ídolo da juventude norte-americana, Kanye West.

Mesmo que a patriótica televisão norte-americana não tenha mostrado toda a extensão da catástrofe deixada pelo Katrina, ela colocou a nu a pobreza nos Estados Unidos. A pobreza deixou de ser estatística e ganhou rosto.

São “pessoas que têm fome, que choram, que estão encolerizadas, que são obesas, que são velhas, mães solteiras, com seus filhos que não têm nenhuma assistência médica, nem seguro para as suas casas”, escreveu o diretor de pesquisas urbanas da Universidade de Fordham, Mark Naison.

Segundo estimativas, 44 milhões de norte-americanos não contam com assistência médica. Quando as autoridades de Nova Orleans deram ordem para que a população deixasse a cidade, poucos se moveram. E por uma razão muito simples: a maioria não tinha carro, e sequer saberia para onde ir.

“Apesar das cifras que mostram a pobreza nos Estados Unidos, o país vive uma tal segregação que os ricos e as classes médias não têm nenhum contato com os pobres. Eles não os vêem. Por isso é que os pobres ficaram ilhados na cidade”, escreveu Naison. O choque, para os americanos, foi ver que os pobres são tão numerosos, e reais, acrescentou o professor.

A pergunta é básica: Como pode o país mais rico do mundo ter tantos pobres? Para o economista Jeremy Rifkin, “o sonho americano, individualista e orientado unicamente pelo lucro, foi derrotado. Nos Estados Unidos, somente 11% do PIB é empregado em despesas sociais, enquanto na Europa é de 26%”, anotou.

Jackson lamentou que os Estados Unidos tenham enviado tantos recursos a Bagdá, “investido tanto no Iraque e reduzido tanto os impostos dos ricos e não tenhamos, agora, recursos para uma crise de tal grandeza no nosso país”.

Em entrevista publicada no jornal italiano La Repubblica, em 4 de setembro, Rifkin sustentou que os Estados Unidos “foram golpeados pelo efeito estufa e não por um simples furacão. A relação entre o aquecimento e o aumento de furacões é claro. E nessas horas a Casa Branca esconde para a opinião pública mundial aquilo que a comunidade científica previu há anos, ou seja, o aquecimento do planeta se deve ao desenvolvimento neoliberal sem controle. Este é o único aspecto positivo desta dramática tragédia”.

Não tem como deixar de traçar paralelos do governo Bush, os acontecimentos de 11 de setembro de 2001 e o Katrina. “Os ataques de 11 de setembro tornaram os Estados Unidos mais patrióticos, mais militaristas e mais conservadores. Agora, é o contrário. O horror de Nova Orleans nos forçará a olhar face-a-face os nossos problemas internos de pobreza e desigualdade. E a fazer algo”, previu o professor Naison.

O jornalista norte-americano Thomas L. Friedman desenhou o escopo da situação em artigo para o La Repubblica, de 9 de setembro: “Se o 11 de setembro colocou asas em Bush, o Katrina as cortou”.