![Carlos Emilio Ham, pastor presbiteriano cubano, trabalha no CMI [Foto: José A. Paz]](/picture/Ham_Carlos_Emilio_254b46.jpg)
Coordenadas para Porto Alegre
Entrevista: José Aurelio Paz, HAVANA, Cuba, Setembro 14, 2005
O diretor do Programa de Evangelização do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), Carlos Emilio Ham Taxi Heathrow Airport , analisa como a Conferência Mundial sobre Missão e Evangelização serviu de bússola aos temas que serão debatidos na Assembléia Geral do organismo internacional, agendada para Porto Alegre, em fevereiro de 2006.
A caminho de Porto Alegre, quando faltam menos de seis meses para a Assembléia, conversamos com Carlos Emílio Ham para saber dele se a Conferência Mundial sobre Missão e Evangelização, reunida em maio, em Atenas, Grécia, serviu para aplanar, de algum modo, a trajetória para o encontro de Porto Alegre, que se reunirá sob um lema tão sugestivo e que encerra uma petição muito humana e atual: “Deus, em tua graça, transforma o mundo”.
ALC: As pessoas ficaram desconcertadas quando meios de imprensa, concluída a reunião de Atenas, afirmaram que não se chegara a um consenso tal que possibilitasse uma declaração final em torno do tema tratado.
CEH: Falando de modo estrito, isso não é correto. A comissão mundial que estava encarregada de organizar a Conferência reuniu-se dois dias depois e tirou a declaração que, inicialmente, havia redigido e na qual apenas foram feitas algumas mudanças. Claro, não foi uma declaração submetida ao plenário por falta de tempo.
Numa análise retrospectiva nos demos conta de que é muito difícil submeter uma declaração a um conclave de apenas cinco dias, trabalhando de segunda a sábado, participando no domingo nas igrejas e concluindo com o culto de envio que foi celebrado no Areópago, onde o apóstolo Paulo fez o seu discurso. E isso nos levou a ver que é preciso dedicar mais tempo nos próximos encontros.
ALC: Você ficou satisfeito como organizador do evento?
CEH: Ficamos muito contentes com os resultados. Para ser honesto, antecipávamos muitos problemas. Não é segredo que as igrejas históricas protestantes se encontram, um pouco, no meio de dois extremos. De um lado, os ortodoxos e, do outro, os movimentos pentecostais. E o tema da Missão – dá pena dizê-lo, mas é preciso reconhecer – é um tema que ainda nos divide muito, produto do proselitismo.
Muitos ortodoxos sentem-se ameaçados pelos evangelicais, os pentecostais, que, segundo eles, roubam seus membros. E essa problemática nos antecipava um clima de controvérsias e confrontos que levou a preparar-nos duplamente. Mas é preciso levar em conta que não só a Conferência Mundial, mas também o Conselho Mundial de Igrejas se reunia pela primeira vez num contexto predominantemente ortodoxo, como é a Grécia.
Por isso saímos reconfortados e agradecidos de que não existiram grandes choques entre essas duas famílias de igrejas.
ALC: Que leitura você faz dos grupos que protestavam à entrada dos pontos de reunião?
CEH: Eram grupos fundamentalistas dentro da tradição ortodoxa. Basicamente, não haviam chegado até ali para protestar contra o Conselho Mundial de Igrejas nem contra a Conferência, mas contra os cristãos dessa própria família. O discurso deles era que seus participantes haviam traído a tradição ortodoxa e haviam vendido a Igreja ao ecumenismo.
Mas sempre se mantiveram fora. Inclusive, em várias ocasiões, avaliamos a possibilidade de sair e dialogar, mas os próprios hierarcas da Igreja Ortodoxa opuseram-se porque alegaram que não se alcançaria nada e, portanto, o diálogo não se deu, embora te confesso que eram apenas umas 15 ou 20 pessoas.
Sou sincero e te digo que esse era um ponto triste da reunião porque, precisamente, o tema que defendíamos era a reconciliação e a cura. E nós dizíamos: “Bom, como vamos discutir isso sabendo que lá for há um grupo que, com razão ou sem razão, protesta”. Sem dúvida, foi uma nota discordante.
ALC: Como a Igreja Ortodoxa acolheu vocês?
CEH: A Igreja recebeu-nos de braços abertos. Não podemos dizer outra coisa. E não podemos esquecer que na Grécia não existe apenas esta, mas lá também estão as evangélicas que pertencem ao CMI, a Católica e até uma Igreja Ortodoxa da Armênia e, sem dúvida, aconteceu um espírito de prática ecumênica muito espontâneo.
ALC: O Congresso serviu para aplanar o caminho para a Assembléia Geral quanto às temáticas?
CEH: Definitivamente. O tema “Vem, Espírito Santo, cura e reconcilia-nos. Chamados em Cristo para ser comunidade de reconciliação e cura” amolda-se perfeitamente ao tema de Porto Alegre: “Deus, em tua graça, transforma o mundo”.
Nós estamos convencidos de que a maneira mais efetiva de alcançar essa transformação, essa mudança, é convocando a reconciliação, primeiro, com Deus e sua Criação – entendida como um todo que engloba, de modo principal, o fator humano – e entre todas as igrejas, para depois dar um segundo passo, que seria trabalhar num espaço muito mais amplo como é o mundo, a criação de Deus. Mas se não estivermos reconciliados entre nós, de nada servirá.
Atenas também foi um caminho para Porto Alegre porque a Missão e a Evangelização são temas de perfil baixo para muitas pessoas no CMI, algo que é uma aparente contradição.
Tradicionalmente, a agenda que se percebe é a que chamamos de caráter social e político, e isso criou certa dicotomia. Vimos a missão só como uma questão de justiça social e não de modo que inclua, como aspecto importante, a evangelização, de maneira que falemos de algo mais integral. E nosso desejo é que a Assembléia Geral se aprofunde no que é a essência da nossa razão de ser como Igreja e de modo mais amplo como um conselho que agrupa diversos ramos e que trata de alcançar a sua “unidade visível”.
Também considero que o fato de que tenha escolhido, dentro de um enorme e diverso país como o Brasil, a região de Porto Alegre aproxima-se desse espírito. Será um cenário propício para continuar com o tema. Ali se celebra o Fórum Social Mundial sob o lema “Outro mundo é possível”. Nós cremos, e queremos, que outra Igreja, integrada a esse mundo para servir e evangelizar – ou seja, queremos proclamar ecumenicamente que as “boas novas” do evangelho também são possíveis.

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