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Segunda-feira, 29 de Outubro de 2007

Igrejas são "reservas éticas"?

Jonathán Pimentel, SAN JOSÉ, , Agosto 28, 2005

Essas linhas procuram discutir, de forma introdutória, a idéia-conceito eclesiológico que busca identificar as igrejas Taxi Heathrow Airport como "reservas éticas". A discussão do tema deve ser entendida como parte do esforço organizativo do Conselho Latino-Americano de Igrejas (CLAI). O tema das igrejas como "reservas éticas" foi adotado pelo CLAI como eixo central de discussão prévia à assembléia geral.

Introdução

As igrejas não são, sem mais, reservas éticas - o que seja que isso signifique. Unicamente podem sê-lo em tramas sócio-históricas específicas. É no meio de redes vitais onde a igreja realiza opções éticas. Por isso é necessário um maior esforço analítico-conceitual por delimitar o que procuramos comunicar com a frase "as igrejas como reserva ética".

É mister explicitar a aproximação que tal avaliação pode ter ou não com alguma visão vanguardista–redentorista. Do mesmo modo, é preciso localizar tal avaliação no cenário amplo da pluralidade de lutas e resistências de diversos grupos na Mesoamérica. Em suma, trata-se de pensar as igrejas em tramas específicas e a partir dessa localização definir o que entendemos e como se tornará possível que igrejas sejam reservas éticas.

Mais uma precisão: quando falamos de “igrejas” referimo-nos concretamente a seres humanos. E os seres humanos não são. Eles produzem-se ou autoproduzem e o fazem mediante tramas sociais que podem materializar relações, instituições e lógicas de discriminação cuja reprodução realiza-se mediante dominações.

Contextualização

Nessas tramas sócio-históricas se constroem e reconstroem algumas lutas transversais. Ou seja, não estão limitadas a um país. Por certo, desenvolvem-se mais facilmente e com maior extensão em alguns países do que em outros; mas não estão confinadas a uma particular forma de governo político ou econômico.

O objeto dessas lutas é o caráter e os efeitos do poder. Por exemplo, não se critica a existência de centros educativos, mas porque eles exercem um poder descontrolado sobre os corpos e as mentes das pessoas, sua saúde e sua vida.

Muitas delas são lutas imediatas por duas razões. Nessas lutas, as pessoas criticam instâncias de poder que estão fechadas para elas, as quais exercem sua ação sobre os seres humanos e a natureza. Não vão atrás de algum “inimigo principal”, mas do inimigo imediato. Não esperam encontrar uma solução para os seus problemas numa data futura (isto é, por exemplo, fim da luta de classes, embora não se deva perdê-la de vista).

É preciso dizer, não obstante, que essas lutas possuem importante alcance revolucionário, por exemplo, em mulheres e povos originários meso-americanos. Os traços mais específicos dessas lutas, a meu parecer, são os seguintes:

a)    São lutas que questionam o status da pessoa: por um lado, afirmam o direito a ser diferente ou destacam cada coisa que não nos permite ser autenticamente humanos. Por outro lado, atacam cada coisa que separa a pessoa, rompem seus vínculos com os demais, quebra a vida da comunidade, forçam a pessoa a fechar-se nela mesma e o atam à sua própria identidade de forma obrigatória.

Essas lutas sustentam de modo heróico a seguinte tese: uma existência humana satisfatória é possível em relações de mútuo reconhecimento entre seres humanos e o cosmo.

b)    Existe uma oposição aos efeitos e caráter do poder que está ligado a discriminações e dominações. Ou seja, uma oposição para as representações mistificadoras impostas a pessoas, a imposição de identificações. Finalmente, todas essas lutas giram em torno – ao menos – de uma questão “quem somos?”

Trata-se de uma rejeição do estado de violência ideológica e econômica que ignora que somos pessoas. Trata-se de questionar – e isso é o mais importante – a forma ou o caráter do poder. E, em última instância, de procurar a autodeterminação de cada qual, incluindo a capacidade dos seres humanos para pensar-se a si mesmos, embora em condições que a organização humana não determina inteiramente.

Uma palavra esclarecedora:

A manifestação, o grito, o protesto, a irritação, a luta de rua, a organização incipiente ou desenvolvida, constituem já a alternativa, se a olharmos como processo. O protesto, inclusive sob suas formas mais espontâneas, é proposta. Para os setores populares não existe protesto, sim proposta. A proposta é o Não, insuficiente para construir, mas necessário para combater, aglutinar, convocar e organizar radicalmente. [1]

As igrejas, reservas éticas?

A partir dessa contextualização mínima, sugiro a seguinte tese, que estimo uma “condição de possibilidade” para que as igrejas sejam “reservas éticas”: as igrejas devem procurar rechaçar identificações e construir identidades, e lutar por construir temas sociais libertadores.

Suas práticas devem ligar-se, então, não à adaptação ou à melhoria do que existe (embora isso possa ser parte de sua estruturação programática), mas a transformação radical – em muitos casos, com certeza, das próprias igrejas.

A atitude das igrejas – que se desejam reservas éticas – associa-se, assim, com a origem, com a possibilidade de gestar e administrar o inteiramente novo (Isaías 66), com a esperança de que pode ser possível e necessário construir socialmente o inteiramente novo. Parece-me que, só na medida em que as igrejas tiverem essa espiritualidade, elas poderão constituir-se em “reservas éticas”.

Outro desafio para as igrejas – ao qual pouco a pouco se faz frente a isso – ou seja, dizer para as pessoas que as constituem, é: 1) teorizar e pensar as violências ou dominações; 2) organizar-se contra isso e as situações que as expressam; 3) subverter as culturas da violência e dominação constituindo-se, enquanto igrejas, como espaços de encontro, reconhecimento e reintegração (pessoal, social).

Conclusão

Penso que na América Central é preciso aspirar ao radicalmente novo. Por isso, todas as igrejas devem considerar o acompanhamento ou não dessa aspiração.

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[1] Helio Gallardo, Siglo XXI. Militar en la izquierda. San José: Arlekin, 2005, 343.