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Segunda-feira, 29 de Outubro de 2007

Thiago Machado, da Igreja Presbiteriana Unida (IPU), representa o meio evangélico no Conselho Nacional de Juventude.
Thiago Machado, da Igreja Presbiteriana Unida (IPU), representa o meio evangélico no Conselho Nacional de Juventude.

O medo de sobrar

Entrevista: Edelberto Behs, BRASÍLIA, Brasil, Agosto 23, 2005

A juventude brasileira tem medo. Medo de sobrar no mercado de trabalho, medo de morrer Taxi Heathrow Airport por causa da violência urbana, no trânsito, medo de não se conectar na sociedade da informação.

No Brasil, os jovens somam, segundo dados do Censo de 2000, mais de 34 milhões de pessoas. A parte desse contingentes que é contemplada com algum tipo de políticas públicas é mínima. E são poucos os jovens que se interessam e participam dessa discussão. 

Dois jovens presbiterianos, Alexandre Brasil Fonseca, vinculado à Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB), e Thiago Machado, da Igreja Presbiteriana Unida (IPU), representam o meio evangélico no recém criado Conselho Nacional de Juventude, organismo vinculado à Secretaria Geral da Presidência da República. Professor adjunto da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ),

Alexandre é o titular no Conselho e Thiago, estudante de Jornalismo, morador em Belo Horizonte, é o suplente.

Alexandre Brasil foi uma indicação da Aliança Bíblica Universitária Brasileira (ABUB), organismo no qual iniciou sua participação ainda nos anos 80 do século passado. Foi membro da diretoria da ABUB por oito anos, trabalhou no antigo Centro Ecumênico de Documentação e Informação (CEDI) de 1991 a 1995 e participou de pesquisas realizadas pelo Instituto de Estudos da Religião.

Hoje, com 33 anos, Alexandre Brasil tem doutorado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (USP) e atua no Laboratório de Ciências, na UFRJ. Foi fundador do Movimento Evangélico Progressista (MEP) e é assessor do Programa Fé, Economia e Sociedade, do Conselho Latino-Americano de Igrejas (CLAI), e do Processo Ágape, do Conselho Mundial de Igrejas (CMI).

O representante titular dos jovens evangélicos também está à frente do ministério Fale, uma rede de defesa dos direitos humanos que reúne milhares de pessoas de diferentes tradições religiosas e que têm incentivado o debate de temas pouco abordados nas igrejas, como racismo e comércio internacional.

“Creio que minha indicação ao Conselho está relacionada ao amplo trânsito que possuo em diferentes setores evangélicos, ao lado da minha formação e conhecimento do mundo evangélico”, define.

Thiago Machado, 22 anos, é suplente no Conselho. Ele é estudante de Jornalismo, integra o Movimento Evangélico Progressista e o Programa de Pastoral da Juventude do Conselho Latino-Americano de Igrejas (CLAI-Brasil).

Thiago Machado tem atuado na discussão junto a jovens nos movimentos populares e diversos grupos evangélicos. Os dois concederam entrevista à ALC, na qual expõem expectativas e falam das tarefas que os esperam na representação do meio evangélico no Conselho.

ALC - O que foi tratado na primeira reunião do Conselho, no início de agosto?

Alexandre Brasil - Inicialmente houve a apresentação e discussão do ProJovem, programa em fase piloto desenvolvido pela Secretaria Nacional de Juventude. Em seguida, discutimos o referendo (do desarmamento, marcado para outubro).

Isso tomou o período da manhã. À tarde, aconteceu a eleição de duas cadeiras da direção do Conselho, sendo eleita presidente a profa. Regina Novaes. Encaminhamentos e discussões sobre o regimento interno e funcionamento do Conselho foram iniciados e também definimos uma moção em favor do SIM na campanha do desarmamento.

Representantes do Conselho entregarão essa moção ao senador Renan Calheiros, presidente do Congresso Nacional.

ALC - Uma reunião extraordinária está agendada para setembro. Qual será a pauta? Por que a urgência de uma reunião extraordinária?

Alexandre Brasil - O Conselho atuaria, inicialmente, durante dois anos, 2005 e 2006. Uma série de motivos fez com que a posse só ocorresse em agosto e por isso busca-se avançar nas possíveis ações que serão desenvolvidas.

Esta reunião tem como objetivo definir a dinâmica de funcionamento do Conselho: como atuarão as câmaras temáticas, apresentação do regimento interno e será escolhida a vice-presidência.

Com esses elementos definidos, o trabalho do Conselho acontecerá de forma mais fluida e eficiente. Quanto mais rápido forem feitas essas definições, mais rápido poderemos discutir, refletir e propor questões relacionadas às políticas públicas de juventude (PPJ).

Afora isso, também teremos um período de discussão sobre a compreensão do que são PPJ e quais são as atribuições e objetivos do Conselho.

ALC - Uma das tarefas do Conselho seria a construção de políticas públicas para a juventude. Já existe algum tipo de política ou terá que se começar do zero?

Alexandre Brasil - O Conselho não é deliberativo e por isso o seu papel é indicativo. Ele é uma tentativa de estabelecimento de diálogo com diferentes e variados setores da sociedade civil e o governo.

O Conselho deverá atuar buscando elementos que deverão caracterizar as PPJ, numa direção que estabeleça na prática do governo algo como uma "perspectiva geracional" no mesmo sentido que se tem hoje uma perspectiva de gênero, por exemplo.

Existem diferentes iniciativas em vários Ministérios que contemplam os jovens, além da ação do ProJovem, que está sediado especificamente na Secretaria Nacional de Juventude e que conta com a ação concomitante de vários Ministérios.

Potencializar essa ação e fomentar ações efetivamente conjuntas será papel do Conselho. A discussão sobre as PPJ é algo recente na sociedade e é a partir desta perspectiva que vem sendo construída essa proposta.

Thiago Machado - Já existem alguns programas, como o Prouni e o ProJovem, que são iniciativas do governo. Cabe ao Conselho Nacional de Juventude propor novos programas e contribuir no processo.

ALC – O que será preciso considerar na construção de políticas públicas para a juventude?

Alexandre Brasil - Buscar pontos de contato que atendam as diversas realidades que são englobadas dentro do que se chama juventude. Nesse ponto, a contribuição do Conselho é grande.

Essa sensibilidade, essa disposição de perceber as especificidades de cada realidade, ao mesmo tempo em que se busca estabelecer uma política de Estado, é algo extremamente complexo, mas ao mesmo tempo representa um rico processo de exercício democrático.

Thiago Machado - Quando se fala em políticas públicas espera-se que elas atendam toda a juventude. Mas isso não acontece porque cada segmento jovem responde às políticas de uma forma específica.

É importante observar as características dos jovens que estão na zona rural, dos que estão na zona urbana e são de classe média, e os que moram na periferia. A localidade, instrução escolar, gostos, tudo isso faz parte de critérios que devem ser considerados.

ALC - Que outras tarefas o Conselho tem ou terá?

Thiago Machado - O CNJ tem um caráter consultivo, e não deliberativo. A ele caberá as críticas, as sugestões, ou seja, alertar o governo sobre o melhor caminho a seguir. Poderemos, também, levar propostas ao governo e ajudar na avaliação dos impactos das políticas públicas para a juventude.

Alexandre Brasil – Há também a intenção de se desenvolver pesquisas e levantamentos nesse processo de levar propostas.

ALC - Qual a contribuição que o meio evangélico pode dar para tais políticas? E no Conselho?

Thiago Machado - A igreja evangélica, indubitavelmente, pode trazer um outro olhar e uma proposta que foge de um ciclo individualista e mercantilista, que não vê no ser humano as várias diversas dimensões, inclusive a espiritual.

No meio evangélico temos muita gente capacitada que já vem exercendo papel de transformação social na vida de muitas comunidades.

Alexandre Brasil - A contribuição das igrejas evangélicas é a sua vivência no dia-a-dia e na realidade de amplo leque de pessoas. As igrejas possuem tremenda capilaridade social e possuem especificidades que precisam ser consideradas ao pensarmos na elaboração de políticas públicas que considerem esses grupos.

ALC - O meio evangélico é multisegmentado, com diferentes teologias, da prosperidade à da libertação? Como vocês se vêem nesse espectro? O que representam?

Alexandre Brasil – Pessoalmente, me coloco no que se convencionou denominar de evangelicalismo. Tenho convivido de perto com grupos ligados à teologia da libertação, como também ao que se convencionou chamar de pentecostalismo clássico.

Minha comunidade local é ligada à Igreja Presbiteriana do Brasil e me situo numa tradição religiosa em que se salienta a importância da oração e das disciplinas espirituais na prática cristã ao lado de um engajamento social comprometido com o Reino de Deus e a justiça social com o objetivo de se promover uma sociedade mais igualitária e justa.

Thiago Machado - Eu venho de uma igreja que historicamente surgiu de um inconformismo e que não quis se calar diante das injustiças sociais no período da ditadura militar. Chegaram a acorrentar os portões da minha igreja local e muitos pastores foram rotulados de comunistas e foram buscar exílio em outros países.

Nesse tempo surgia a teologia da libertação, que continua a influenciar ainda hoje nosso modelo de igreja. Respeitamos todas as tradições cristãs, mas não perdemos de vista a nossa história aliada ao estilo presbiteriano e reformado de ser.

ALC - É difícil generalizar, mas como definiriam a situação da juventude brasileira nos dias atuais?

Alexandre Brasil - A Regina Novaes, presidente do Conselho, aponta que um elemento que caracteriza a juventude brasileira na atualidade, independente de sua cor, gênero, classe, religião ou local de moradia, por exemplo, é o medo.

É possível identificar de maneira geral a presença de três medos entre os jovens: medo de sobrar, onde temos a questão do desemprego e a exigência cada vez mais de qualificação; medo de morrer, marcadamente pela violência urbana, seja pelas mortes por arma de fogo ou mesmo como conseqüência da violência do trânsito.

A presença dos jovens nos presídios é significativa; medo de não se conectar, o que se expressa em todo o mundo relacionado à internet ou mesmo na presença disseminada de aparelhos celulares nas camadas populares.

Thiago Machado - Segundo dados do Censo 2000, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a população de 15 a 24 anos, residente no território brasileiro, é de 34, 1 milhões de jovens.

Em face dessa imensidão, a parte que é contemplada pelas políticas públicas é mínima. E é menor, ainda, o número de jovens que participam e se interessam por essas discussões.

ALC - Quais seriam questões urgentes para a juventude?

Thiago Machado - Eu diria que o que mais preocupa a juventude é a questão do emprego.

Alexandre Brasil - Além do emprego acrescentaria a questão da violência.

ALC - Olhando para o panorama da juventude em nível continental, existem problemas idênticos para jovens de diferentes países ou há situações mais complicadas do que outras?

 Thiago Machado - Participei de um evento da ONU "Encontro Latino-Americano e Caribenho de Lideranças Juvenis" e percebi que os mesmos problemas - educação, esporte, trabalho, lazer, etc -, que acometem a juventude brasileira acontecem em outros países.

É claro que alguns problemas são mais presentes em outros países, como a questão agrária. Por exemplo, na Guatemala só tem seguridade social quem trabalha no Estado.No Brasil já é diferente, até mesmo pelo tamanho de nosso país.

ALC - Como pretendem trabalhar e se integrar na representação do meio evangélico, um na qualidade de titular e outro como suplente no Conselho?

Thiago Machado - Penso que se representamos a juventude evangélica temos que, obrigatoriamente, dialogar com todas as tradições.

Alexandre Brasil - Dialogar, dialogar, dialogar. Penso que essa presença no Conselho pode ser algo extremamente rico e espero que possamos aglutinar diferentes denominações evangélicas em prol de uma posição dos evangélicos em relação às PPJ.

Alexandre Brasil - Penso que a cada dia mais a igreja evangélica precisa ter consciência de sua presença social e ir além das suas quatro paredes.

Precisamos adotar postura ativa e participativa na sociedade, buscando contribuir efetivamente nas diferentes instâncias. Realidade que pode se dar nos diferentes conselhos nacionais, mas que precisa acontecer necessariamente no contexto das realidades locais e comunitárias, como as associações de moradores.

Hoje, os evangélicos representam parcela significativa da sociedade e neste governo sua presença vai além de um uso eleitoreiro, fato que se deve tanto devido a uma preocupação do poder público como também devido a uma maior articulação e presença dos evangélicos, fruto da caminhada de movimentos como o MEP.

Thiago Machado - É uma oportunidade sem igual na história do Brasil o que o atual governo federal está realizando, que é chamar para o debate os grupos sociais que sempre foram alijados do processo, e os que já têm experiências democráticas de participação coletiva e que podem contribuir propositivamente. É o caso de muitas igrejas evangélicas.