Voltar ao início

Quinta-feira, 24 de Maio de 2007

Dr. Gottfried Brakemeier falou “Missão cristã num contexto de diálogo inter-religioso [Foto: LWI]
Dr. Gottfried Brakemeier falou “Missão cristã num contexto de diálogo inter-religioso [Foto: LWI]

IECLB deve aprender mutirão eclesial, defende Brakemeier

SAO LEOPOLDO, Brasil, Agosto 11, 2005

Para ser viável, a Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) precisa crescer, e Taxi Heathrow Airport para crescer ela precisa mudar. Sob as condições atuais ela não tem futuro, admoestou o professor Dr. Gottfried Brakemeier no retiro de professores da Escola Superior de Teologia (EST), reunido no final de julho. "A temida divisão da IECLB é um processo em pleno andamento", alertou.

Brakemeier parte da convicção de que a IECLB faria falta na ecumene brasileira, se ela fechasse as portas. Por isso, entende, vale a pena investir na sua manutenção, o que implica eliminar barreiras internas que lhe entravam o crescimento. Ela deve aprender "o mutirão eclesial", controlar as forças centrífugas e unir-se em torno de um projeto comum.

As forças centrífugas às quais o ex-presidente da Federação Luterana Mundial (FLM) e ex-presidente da denominação brasileira se refere são as várias igrejas que existem na mesma estrutura: Pastoral Popular Luterana, Movimento Encontrão, Missão Evangélica União Cristã, Comunhão Martim Lutero, Renovação Carismática. Ele ressalva, contudo, que variedade não é prejuízo enquanto integrada e "puxando a mesma carroça".

Não é o caso da IECLB. Brakemeier lembra que ela tem três faculdades de Teologia, centros de formação de obreiros com referencial bibliográfico e orientação teológica distintos. Os movimentos (igrejas dentro da igreja) têm os seus devocionários, cancioneiros, editoras e até mesmo algum aparato administrativo, e realizam os seus próprios encontros.

"Movimentos são valiosos enquanto acrescentam, são perigosos quando pretendem substituir", adverte. Brakemeier destaca que as grandes vítimas dos dissensos na igreja são as comunidades e paróquias, mas deposita à "teimosia" delas a unidade que resta à igreja. "Se elas tivessem optado a favor de uma das 'linhas' na IECLB, a ruptura já há tempo estaria consumada", afirma.

Ao que tudo indica, a IECLB ainda não descobriu como lidar com a pluralidade. Brakemeier reportou-se ao estudo do ex-secretário geral da igreja, pastor Gerd Uwe Kliewer, que compilou e avaliou dados estatísticos fornecidos pelas paróquias de 1998 a 2002. O levantamento aponta um total de membros por volta de 715 mil pessoas, o que significa nem 0,5% da população brasileira.

Segundo aquele estudo, de 1997 a 2002 a IECLB cresceu apenas 0,34%. As famílias evangélicas luteranas, hoje, têm menos filhos do que no passado. O seu número absoluto, porém, não decresceu porque aumentou o índice de expectativa de vida. Mas isso significa que seus membros são, em média, mais idosos. A igreja não acompanha o ritmo de crescimento da população brasileira.

Tímida no passado, sem ter desenvolvido um projeto de missão porque limitou-se a pastorear os de etnia alemã, a IECLB terá que definir, com urgência, a sua identidade "em termos rigorosamente confessionais". A mera força da tradição não vai segurar os membros na IECLB. Ela contará com a pertença, no futuro, dos que a ela se filiaram de modo consciente.

Descontando alguns avanços, a IECLB ainda está longe de ser uma igreja missionária. Igreja missionária não pode ficar escondida, diz Brakemeier, que recomenda o uso da mídia como instrumento imprescindível na tarefa evangelizadora. Sem querer imitá-los, o ex-presidente da FLM sugere que luteranos se deixem ensinar a respeito por católicos e pentecostais.

Nos "Apontamentos críticos sobre a viabilidade da IECLB" Brakemeier desrecomenda copiar estilo alheio. "Se quisermos imitar os pentecostais, saibamos que eles fazem melhor", admoesta. Ele não nega, contudo, a necessidade da "aprendizagem ecumênica", mesmo porque a igreja luterana "está impedida de cultuar um estéril confessionalismo que passa ao largo dos anseios das multidões no século XXI".

A IECLB deveria conscientizar-se, de forma enérgica, a respeito do seu talento. O problema na época de Lutero e dos reformadores, como nos dias atuais, não era a falta de religiosidade. "Mas era uma religiosidade 'ignorante', ingênua, até mesmo estúpida, desorientada. O mesmo vale hoje: Fé e religião não são sinônimos. Existem, isto sim, afinidades", compara. Se a religiosidade está muito viva na atualidade, a fé está em profunda crise.

Brakemeier convida, pois, a (re)descobrir o encanto da fé luterana. "Seu charme não se limita a alguns dogmas e axiomas de fé. Diz respeito a uma maneira de ser. Residem numa hermenêutica bíblica que sabe distinguir entre letra e espírito; num realismo antropológico que se recusa a divinizar como também a demonizar o ser humano; numa liberdade comprometida que se distancia tanto do legalismo quanto da permissividade".

A confissão luterana convida à fé sem proibir o raciocínio crítico. "Ela quer 'crentes pensantes', gente que sabe julgar as coisas, diz. E conclui:"Subdividir o mundo em bandidos e mocinhos, em ganhadores e perdedores, em crédulos e incrédulos, em justos e pecadores, ora, isto é construção de hipócritas ou de ingênuos. É estupidez a que a sabedoria do evangelho se opõe".