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Segunda-feira, 29 de Outubro de 2007

Espírito do capitalismo e autojustificação

Oneide Bobsin, SAO LEOPOLDO, Brasil, Julho 28, 2005

No biênio 2004/2005 está sendo comemorado o centenário de publicação de Ética Protestante e o Taxi Heathrow Airport Espírito do Capitalismo, obra  do sociólogo alemão Max Weber, que viveu entre 1864 e 1920.

Ela pode ser considerada um clássico, porque o seu núcleo central sobrevive às gerações de estudiosos e, ao mesmo tempo, continua sendo uma importante chave explicativa de fenômenos sócio-religiosos da atualidade. Mas também porque resiste a simplificações.

E as simplificações não nasceram apenas no mundo acadêmico. Da esfera de conflitos eclesiásticos de tempos já superados surgiu uma popularização da teoria de Weber. Setores do catolicismo conservador colocavam na conta do protestantismo o surgimento do capitalismo.

Hoje já é consenso a irrelevância de se buscar no protestantismo a única causa do surgimento do capitalismo. Aliás, a própria obra pressupõe outras leituras a respeito do nascimento e avanço do capitalismo, que constituiu e constitui a nossa sociedade ocidental; sociedade esta que trouxe, desde a sua origem, uma tendência à globalização,  hoje aprofundada pelo sistema financeiro internacional e as novas tecnologias.

Uma leitura que faz justiça não deixa de considerar dois aspectos básicos da tese de Weber. De acordo com Weber, os reformadores do século XVI não tinham como intenção colocar as bases de um sistema capitalista de produção, circulação e consumo. Lutero, Calvino, Muenzer, Zwinglio e outros estavam preocupados com um problema religioso fundamental: a salvação. Se daí decorreu uma ética afim ao capitalismo comercial primitivo, a discussão é bem outra. Nesta perspectiva deve ser dito que não está ao alcance de reformadores religiosos o controle das decorrências éticas de sua pregação.

O outro aspecto refere-se a uma explicação marginalizada por parte de intérpretes que não entenderam que as pessoas do século XVI estavam submersas num mundo mágico e religioso.  Max Weber veio em defesa de sua tese ao dizer que as pessoas de seu mundo secularizado não conseguiam compreender o século XVI. 

Os impactos da separação entre mundo religioso e secular eram uma possibilidade teológica, mas que levou quase três séculos para se configurar numa prática pública. A revolução francesa, ou burguesa, do final do século XVIII sela, por meio de uma prática revolucionária, o que era uma possibilidade teológica no século XVI.

Em outras palavras, não podemos responsabilizar os reformadores do século XVI pelo desenvolvimento do capitalismo. Contudo, eles foram protagonistas religiosos do novo mundo chamado tardiamente de moderno, tão bem caracterizado por Weber, que jamais aceitaria a pecha de profeta: “Neste caso, os ‘últimos homens’ desse desenvolvimento cultural poderiam ser designados como ‘especialistas sem espírito, sensualistas sem coração, nulidades que imaginam ter atingindo um nível de civilização nunca antes alcançado”’.

E na mesma página  parece se contradizer: “(... ) ou se, no fim desse tremendo desenvolvimento, não surgirão profetas inteiramente novos, ou um vigoroso renascimento de velhos pensamentos e idéias, ou ainda se nenhuma dessas duas – a eventualidade de uma petrificação mecanizada caracterizada por esta convulsiva espécie de autojustificação.”

E acrescentaríamos, atualizando: pela compulsiva autoajuda e pelo renascimento de velhos deuses.

Nas próximas crônicas continuaremos com a interpretação da Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo e sua relevância para a compreensão de igrejas que se dizem evangélicas ou protestantes, mas que adotam o espírito do capitalismo sem a ética protestante.

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Oneide Bobsin. Pastor da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil e professor de Ciências das Religiões da Escola Superior de Teologia de São Leopoldo/RS/Brasil