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Segunda-feira, 29 de Outubro de 2007

Conceito de missão em mudança

Entrevista: Edelberto Behs, SAO LEOPOLDO, Brasil, Junho 25, 2005

A Conferência Mundial sobre Missão e Evangelização mostrou que a reflexão teológica está se afastando Taxi Heathrow Airport da idéia de que missão é conseguir batizar e converter mais gente, concepção que dá lugar a outro ideal de missão, que coloca cristãos como sal e luz do mundo.

A percepção é do pastor Hans Trein, coordenador adjunto do Conselho de Missão entre Índios (Comin), que participou da Conferência, em Atenas, representando a Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB).

A Conferência sobre Missão e Evangelização, que o Conselho Mundial de Igrejas realizou de 9 a 15 de maio, foi, como definiu Trein, um aperitivo à IX Assembléia do organismo ecumênico, agendada para fevereiro de 2006, em Porto Alegre.

Em Atenas, cristãos ortodoxos, evangélicos, pentecostais, protestantes e anglicanos deram um acento teológico ao Espírito Santo como uma das figuras da Trindade, e mostraram que tentam superar limitações culturais para se compreenderem mutuamente.

As igrejas, entende o pastor luterano, estão vivendo um certo marasmo num mundo globalizado, pois não têm um projeto propositivo claro, num ambiente em que os governos não sabem como sair da enrascada do projeto neoliberal. Cabe às igrejas proclamarem, em alto e bom som, que existe uma outra maneira de organizar o mundo.

ALC: Pela primeira vez uma Conferência sobre Missão e Evangelização do Conselho Mundial de Igrejas termina sem a aprovação de um documento final, que acabou saindo dias depois do término do evento. A que se deveu esse fato?

Hans Trein: Houve uma tentativa de aprovar o texto de uma carta, a chamada Carta de Atenas, na plenária de encerramento da Conferência, mas muitas pessoas tiveram dificuldades com algumas reformulações já no primeiro parágrafo do texto.

Eu tenho a impressão de que no geral a gente deve dizer que a composição da Conferência é que motivou esse fato. Pela primeira vez tivemos pessoas muito diferentes reunidas e também pela primeira vez a Conferência ocorreu em solo ortodoxo, com a Igreja Ortodoxa Grega sendo hospedeira e, naturalmente, também se sentindo no direito de influir de maneira mais pontual no texto da carta.

Além disso, pela primeira vez tivemos uma participação mais expressiva de pentecostais, que tiveram suas dificuldades com algumas formulações de cunho mais politizante. Então, uma série de razões fez com que uma comissão de redação final fosse constituída e que ficou encarregada de fazer contatos com as diferentes pessoas que tinham sugestões de alterações, e que se propuseram a editar essa carta alguns dias depois da conclusão da Conferência.

Mas deve-se dizer que a carta recebeu aprovação no seu conteúdo principal da plenária final.     

ALC: A Carta de Atenas é uma espécie de confissão de culpa pela separação da Igreja. Quantos documentos com tal grau de frustração ainda terão que ser emitidos, uma vez que o preceito de que todos sejam um está longe disso?

Hans Trein: Eu acho que o fato de a gente não conseguir emitir numa plenária final, que durou duas horas, um documento final é um indício do quanto estamos distantes uns dos outros.

No entanto, a arte na formulação de documentos conjuntos também consiste em admitir as diferenças, que muitas vezes são de cunho cultural. Mas a impressão geral dessa Assembléia é que nos conteúdos essenciais e básicos não há tanta diferença quanto na forma como esses conteúdos são vividos e encarnados culturalmente.

Ali as diferenças são maiores. Eu acredito que nós vivenciamos, no mundo todo, o início de uma fase em que estamos tentando superar as limitações culturais para compreendermos a alteridade do outro. 

ALC: O documento reconhece a centralidade do cristianismo, que se concentra no hemisfério Sul e em países do Terceiro Mundo. No entanto, as grandes decisões ainda acontecem no hemisfério Norte e em países industrializados. Um dia será diferente?

Hans Trein: É uma pergunta difícil de responder porque ela mexe com quem tem poder e o poder está associado, muitas vezes, também a quem tem o dinheiro para financiar tais conferências.

Mas eu acredito que isso pode mudar na medida em que as igrejas do hemisfério Norte perceberem o seu esvaziamento e olharem com certo desejo, para não dizer com uma certa inveja, como as igrejas no Leste e no Sul desse planeta crescem e se multiplicam.

Tenho a impressão de que muito ligeiro, em nível de conferências mundiais, essa situação não vai se alterar. Inclusive, uma das críticas externada por ouvidores encarregados de avaliar a Conferência foi de que as línguas utilizadas no encontro foram todas centradas na Europa, ou, poderíamos dizer, foram línguas americano-européias. Essa questão lingüística também é um indicativo de que no nível de conferências o cristianismo ainda encontra-se dominado pela Europa, e isso eu acho que não vai mudar tão cedo.

Agora, em se tratando de vida das igrejas, vitalidade, aí a gente precisa dizer que os irmãos e as irmãs do hemisfério Norte estão olhando com muita atenção para o Leste e para o Sul. 

ALC: Como o senhor avalia a Conferência e o que traz dela para a realidade brasileira e latino-americana?

Hans Trein: É um pouco difícil para mim avaliar de um modo geral a Conferência, porque isso demandaria tempo para re-trabalhar algumas das considerações levantadas, palestras, conteúdos e oficinas.

Mas eu poderia dizer que houve um acento teológico no Espírito Santo como uma das figuras da Trindade, que, na teologia missionária, esteve um tanto quanto esquecida devido à superacentuação cristológica da teologia de missão.

Por isso, essa Conferência teve a virtude de restabelecer, por assim dizer, um certo equilíbrio dentro da Trindade.

Outro ponto é a ênfase do encontro na cura, não apenas a cura física, mas a cura no sentido de encontrar-se a si mesmo e encontrar-se com o outro e encontrar-se com Deus como um processo de cura que leva praticamente uma vida inteira.

Também foi abordado o aspecto da reconciliação e ambos, cura e reconciliação, tanto em nível do indivíduo como também em nível social como elementos imprescindíveis da missão.

Não se pode pensar missão cristã sem ter em mira essas dimensões de cura e de reconciliação. Eu acho que essa Conferência, a exemplo da anterior, que tratou de Evangelho e Culturas, mostrou que a reflexão teológico-missionária está se afastando da idéia de que missão é conseguir batizar mais gente, conseguir trazer mais fiéis para as igrejas cristãs e converter pessoas de outras religiões para o cristianismo.

Esse conceito de missão vem cedendo cada vez mais espaço a outro ideal de missão, que coloca os cristãos como sal da terra e luz do mundo, cristãos que operam neste mundo a partir de sua fé e a partir de um mandato de Deus para melhorar as condições de sobrevida deste mundo nas suas diferentes dimensões sociais, ecológicas, e de sustentabilidade das futuras gerações.       

ALC: Como descreveria o clima da Conferência de Atenas?

Hans Trein: Foi um clima muito amistoso e muito cordial, um clima de ouvir uns aos outros, um clima de não insistir em seus pontos de vista. Prevaleceu em Atenas um clima pastoral, onde houve espaço para depoimentos de cunho pessoal, individual, depoimentos de vida que foram recebidos com muita disposição.

O reverso disso é que alguns assuntos não foram aprofundados. Mas eu acredito que o encontro também sinalizou alguns avanços importantes. Considerando a conjuntura do movimento ecumênico em nível mundial, Atenas não foi motivo para se frustrar, mas representou novos impulsos para continuarmos em frente.

ALC: No culto de encerramento da Conferência, o secretário geral do Conselho Mundial de Igrejas, Dr. Samuel Kobia, conclamou os participantes do evento a imitarem o apóstolo Paulo e proclamar "com audácia as boas novas”, mesmo que isso signifique enfrentar os poderes e principados dos tempos atuais. O senhor acha que a Igreja tem hoje suficiente coragem para fazer isso?

Hans Trein: Coragem não falta, apesar de também ver que, na medida em que as igrejas estão entrelaçadas com o poder e participando do poder, ainda lhes falta coragem para dizer algumas coisas. Mas hoje já está sendo dito muita coisa às claras e com muita liberdade.

Mas penso que um outro fenômeno está se instalando, que consiste nas autoridades e governos fazerem ouvidos surdos. A palavra falada já não vale muita coisa. O que vale são movimentos, são as pessoas nas ruas e as ações de caráter testemunhal, que demonstram firmeza em relação a determinadas políticas governamentais.

Muitos governos neoliberais estão num beco sem saída e começam a ouvir o que outros grupos pensantes dentro da sociedade estão propondo. Estamos vivendo um certo marasmo, em que nem as igrejas têm um projeto propositivo muito claro, nem os governos sabem como sair da enrascada do projeto neoliberal.   


ALC: O encontro de Atenas terá repercussões na Assembléia de Porto Alegre? Em que sentido?

Hans Trein: Eu acho que o encontro de Atenas foi um aperitivo para a Assembléia Geral de Porto Alegre, sobretudo no seu aspecto referente à maneira de como os diferentes vão lidar uns com os outros.

E nesse aspecto eu tenho a impressão de que Atenas foi uma boa experiência, uma parada no meio do caminho na tentativa de ver quem está caminhando com a gente e como estão caminhando. Em Atenas houve uma disposição de todas as partes em não ficar defendendo com unhas e dentes os seus pontos de vistas, mas ouvir o que os outros estão dizendo e tentando compreender o que sentem.

Por isso, eu acredito que se o clima da Conferência na Grécia for conduzido para Porto Alegre teremos um efeito muito agradável e positivo.    

ALC: O que representantes das igrejas da América Latina esperam ver na pauta da IX Assembléia?

Hans Trein: Não posso falar pelos representantes latinos, mas posso dar uma idéia do que me parece ser uma expectativa. A América Latina vem sendo considerada o segundo continente em termos de desenvolvimento, e na verdade, se comparado com a África e algumas situações na Ásia, de fato demonstra maior estabilidade com suas organizações sociais, com seus movimentos e com suas propostas de democracia.

A expectativa é de que alguns temas latino-americanos ganhem um pouco mais de atenção por parte da Assembléia. Uma das temáticas que eu acredito estar na pauta da Assembléia de Porto Alegre é toda a crítica a esse modelo de globalização neoliberal que vem sendo praticado no mundo e o resgate de alguns elementos da Teologia da Libertação, que não se restringem ao âmbito social e político, mas que incluem todas essas outras dimensões individuais.

ALC: Como o senhor encara o momento ecumênico da atualidade?

Hans Trein: Eu acho que o momento ecumênico atual representa uma parada no meio do caminho, uma tentativa de ver quem é que está aí, como está, como se sente, e de tentar ver se a gente consegue caminhar juntos.

A partir da Assembléia do Conselho Mundial de Igrejas (CMI) em Harare, em 1998, houve um confronto entre as igrejas ortodoxas e as igrejas protestantes. Os ortodoxos sentindo-se atropelados pelos protestantes dentro do CMI e ameaçando rachar fora do CMI.

Como reação, houve uma tentativa de diminuir o ritmo da marcha por parte das igrejas protestantes, e também a reivindicação de progredir no estabelecimento de alguns reconhecimentos, a exemplo do reconhecimento mais generalizado do ministério feminino, que dentro das igrejas protestantes já é quase uma normalidade e que entre os ortodoxos ainda é um tabu, como também em outras áreas, a exemplo da sexualidade humana, na qual as igrejas ortodoxas têm muitas dificuldades.

Os ortodoxos se sentiam como uma minoria, e, sentindo-se perdedores nas votações, estavam com a idéia de constituir a sua própria agremiação mundial. Em reação a isso o Conselho Mundial de Igrejas decidiu diminuir o ritmo da marcha para tentar caminhar em conjunto nos próximos tempos. Mas isso tem um custo, e o custo é que alguns avanços, que do ponto de vista das igrejas protestantes deveriam ser feitos, vão demandar mais tempo.   

ALC: Qual é a mensagem que a Igreja tem para um mundo globalizado, unipolarizado em torno do poder hegemônico dos Estados Unidos e envolto em medos de ameaças de guerra e do terrorismo?

Hans Trein: O Conselho Mundial de Igrejas fez uma avaliação intermediária durante essa Conferência sobre o meio termo da Década para a Superação da Violência. Eu acredito que a mensagem fundamental pode ser expressa nessa década ao afirmar que qualquer atividade humana que esteja baseada em atitudes violentas, seja contra a natureza, seja nas relações sociais, seja nas relações internacionais, onde uma nação busca um ponto privilegiado em relação às outras nações, demonstra que esse mundo não tem condições de prosperar dignamente.

Esta é uma mensagem que cabe às igrejas proclamar em alto e bom som: existe uma alternativa, existe outra maneira de organizar o mundo, existe um outro jeito para se pensar o mundo.

De certa forma, a globalização da comunicação e da informação nos permite também imaginar um mundo diferente, que é o mundo concebido como aldeia global, onde todas as ações, sobretudo as ações violentas contra a natureza, contra as outras pessoas, terão em última análise efeito sobre a gente a médio e longo prazo.

Isso quer dizer que o apelo para a mudança de atitude nem é mais tanto um apelo moral que as igrejas devem dirigir aos “grandes” deste mundo, mas é a tentativa de mostrar a eles que machucando os pobres, os fracos, no final das contas essa agressão irá recair sobre os próprios agressores.