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Quinta-feira, 8 de Novembro de 2007

Nilson Fanini, pastor da Primeira Igreja Batista de Niterói. [Foto: Sociedad Bíblica]
Nilson Fanini, pastor da Primeira Igreja Batista de Niterói. [Foto: Sociedad Bíblica]

Fanini pede transferência e racha batistas no Rio

Edelberto Behs, RIO DE JANEIRO, Brasil, Junho 8, 2005

 Um dos pastores mais midiáticos do universo evangélico brasileiro, Nilson do Amaral Fanini, 73 anos, Taxi Heathrow Airport encaminhou à Primeira Igreja Batista de Niterói, que pastoreou durante 41 anos, pedido de transferência para a Igreja Batista na Ilha da Conceição, também no Rio de Janeiro. Outras 152 pessoas acompanham-no nesse movimento.

"Não vamos colocar empecilhos nas transferências", adiantou para a ALC o presidente em exercício da Primeira Igreja Batista de Niterói, engenheiro Délio Lima de Amaral. Ele admitiu, no entanto, que os pedidos configuram um racha na congregação.

Na origem do racha estão contas em suspeição, dívidas de 1 milhão de reais (cerca de 408 mil dólares) do Seminário Teológico Batista de Niterói e um rombo de 1,67 milhão de reais (cerca de 700 mil dólares), dinheiro recolhido em dízimos e doações e que seria empregado na construção da Catedral Batista, orçada em 12 milhões de reais (4,9 milhões de dólares), em terreno cedido pela prefeitura de Niterói.

Por autorização do pastor Fanini, o dinheiro destinado à construção da catedral foi depositado em conta de doleiros. "Ele não consultou a diretoria. Se tivesse consultado não teríamos esse prejuízo", assegurou Amaral, que assumiu a presidência em março depois do pedido de afastamento apresentado por Fanini, alegando razões de saúde.

"O pastor Fanini facilitou por confiar demais nas pessoas", encaminhando a elas aplicações de valores elevados e sem garantias, disse Amaral. O presidente queixa-se da falta de transparência do pastor na condução das contas da congregação.

Na tentativa de contatá-lo, Fanini avisou, na sexta-feira, 1. de junho, através da secretária da organização Reencontro Obras Sociais e Educacionais, que só falaria "na próxima semana". Novo contato da ALC na segunda-feira, 6, e na quarta-feira, 8, resultou frustrado.

Não existe qualquer prova de que Fanini tenha agido de má-fé, mostra reportagem de Marcelo Dutra, da revista Eclésia. O rombo de 1,67 milhão de reais, relata o repórter, foi descoberto pelo próprio pastor com a ajuda do desembargador Ademir Pimentel, membro da igreja.

Assembléia realizada no dia 3 de fevereiro decidiu que a dívida quanto ao projeto da catedral deveria ser perdoada. A decisão gerou indignação de parte da membresia, que moveu ação ordinária na Justiça.

A Primeira Igreja Batista de Niterói chamou nova assembléia, para o final de abril. Mas não conseguiu reunir metade dos seus membros, como prevêem os estatutos, para tratar da dívida. "Teríamos que reunir mais de quatro mil pessoas, o que não corresponde ao nosso quadro de membros", arrolou Amaral.

O presidente em exercício estima que a membresia total da Primeira Igreja Batista de Niterói esteja por volta de quatro mil fiéis. A congregação está empenhada, agora, no recadastramento do número de crentes e na reformulação estatutária. Até o julgamento do mérito da questão, a decisão da assembléia de perdoar a dívida, que alguns querem cobrar do pastor, está suspensa.

Com as contas sob a lupa, apareceram outros dados no mínimo constrangedores ao pastor Fanini. Assim, foi constatado que a igreja vinha pagando quatro apólices de seguro de vida diferentes para Fanini, uma delas no valor de 500 mil reais (cerca de 205 mil dólares) de indenização.

Fanini pediu à igreja que lhe concedesse uma aposentadoria vitalícia de 14,4 mil reais por mês (5,9 mil dólares), o mesmo que ganhava de salário enquanto pastor na ativa. A congregação congelou os pedidos de benefícios do pastor, entre elas a pensão vitalícia.

Comissão de verificação das contas da igreja constatou que ela gastou quantias consideráveis com passagens, estadias e refeições, que pararam na conta "despesas da Catedral". Nos últimos três anos, foram empregados neste tipo de despesa 75 mil reais, relata matéria da Eclésia.

A diretoria da igreja decidiu verificar todas as contas da igreja nos últimos cinco anos. "Está dando uma trabalheira imensa", disse Amaral, que justifica, contudo, medida que cancela a aprovação das contas do período verificado pelo Conselho Fiscal.

Os números do Seminário Batista de Niterói, agora sob a direção geral do pastor Enénezer Soares Ferreira, que substituiu Fanini no cargo, também são preocupantes. Até há pouco tempo, o Seminário, que amarga um déficit, tinha uma reserva de cerca de 300 mil reais (aproximadamente 123 mil dólares) em conta bancária, revelou Amaral.

O mal-estar na Primeira Igreja Batista de Niterói vem desde outubro de 2004, quando uma Comissão de Auditoria Interna pediu esclarecimentos ao pastor Fanini, então presidente da congregação, a respeito das aplicações de recursos e de negócios realizados. A comissão não obteve respostas.

A Primeira Igreja Batista de Niterói passa por grandes dificuldades. "Mas ela está viva e temos que nos equilibrar, com a ajuda do Senhor", disse Amaral. Ela continua com as pregações regulares. Otimista, Amaral espera que logo a igreja possa se recuperar desses baques.

A Primeira Igreja Batista de Niterói foi fundada em 1. de maio de 1892. Nos seus 41 anos de ministério, Fanini realizou 11 mil batismos, criou uma estrutura organizacional da igreja que congrega 13 ministérios auxiliares, entre eles a ONG Reencontro Obras Sociais e Educacionais, que no ano passado distribuiu cerca de 20 toneladas de alimentos.

Fanini realizou cruzadas em 109 países. Fundou o Seminário teológico, que já entregou à igreja mais de 600 pastores, ministros e educadores religiosos, atuantes em todo o Brasil. Ele integra o Conselho de ex-presidentes da Aliança Batista Mundial, organismo consultivo da organização internacional que congrega 100 milhões de batistas no mundo.