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Segunda-feira, 29 de Outubro de 2007

Cuidemos da água potável

Cuidemos da água potável

Alfredo Salibián, BUENOS AIRES, Argentina, Junho 5, 2005

Como não havia água para o povo, reuniram-se todos para protestar..
Talvez queiram que  morramos Taxi Heathrow Airport nós e o nosso gado? ...
Aqui não se pode semear nada...
Nem sequer há água para beber! [Números 20, 2-5].

A água é importante

Em março deste ano, foi dado início à Década Internacional para a Ação, fixado pela Assembléia Geral das Nações Unidas, que tem como lema "A água, fonte de vida".

Efetivamente, a água relaciona aspectos muito distintos, mas todos associados com a vida, como a saúde da humanidade e do ambiente, a biodiversidade, a produção e a segurança alimentar, a geração de energia ou o desenvolvimento industrial. O recurso água tem, ademais, um papel fundamental em muitas culturas e religiões.

Em determinadas circunstâncias, a água pode ser um fator de destruição, de desastres: é o caso dos tsunamis, das inundações ou dos furacões caribenhos; também atenta contra a vida quando é escassa ou não desaparece como nas secas que afetam vastas regiões do continente africano.

A isso devemos acrescentar outros fatores, como a contaminação, o crescimento das populações humanas e a mudança climática que está provocando tremendas mudanças negativas na qualidade e na quantidade de água disponível, que afetarão radicalmente o presente e o futuro de todas as formas vivas do planeta.

Um enorme número de seres humanos é vítima de doenças associadas à água ou transmitidas por ela (cólera, febre tifóide, meningite, hepatite A e E). Segundo Relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), aproximadamente 4,5 milhões de crianças menores de cinco anos de idade morrem a cada ano em decorrência das doenças transmitidas pela água contaminada.

Por que preocupar-nos com a água?

Cerca de 97% da água do planeta são salgadas. A água doce, a que é potável para os seres humanos, encontra-se em rios, lagos, lagoas, nos lençóis subterrâneos ou congelada; é a fração que se encontra em menor proporção (cerca de 0,02% do total), sendo que nem toda ela é acessível para os seres humanos (por exemplo, a das calotas polares ou a que se acha em grandes profundidades).

Em nossa região, estima-se que cerca de 1,5 bilhão de pessoas depende da água subterrânea como sua única fonte para consumo.

Globalmente, ao redor de 70% da água utilizada são destinados às atividades agrícolas, entre 15% a 20% às industriais e os 10% a 15% restantes à utilização doméstica em cidades e povos. Esses percentuais variam segundo o desenvolvimento social e econômico dos países.

A urbanização e a água

Na América assistimos a uma sustentada e forte tendência à urbanização. Estima-se que a população urbana em nossos países atingirá 90 % até o ano 2025. Essas aglomerações urbanas aumentarão a demanda de água potável (ou potabilizável), o que só poderá ser satisfeito por transferência em massa do recurso de uma bacia a outra, dentro de um mesmo país ou na interação com fontes de países vizinhos.

As aglomerações humanas têm outros impactos. À medida em que crescem reduz-se a quantidade disponível de água, de modo particular nos lençóis subterrâneos, e, ao mesmo tempo, em que se podem produzir importantes eventos de contaminação das mesmas e dos cursos de água superficiais.

Como contrapartida, os processos de urbanização particularmente graves na América Latina (em 50 anos quadruplicou a população de cidades como México, São Paulo e Manágua) liberam grandes superfícies por causa da migração de pessoas, as quais estão sendo ocupadas pelas corporações transnacionais para expandir as fronteiras agropecuárias, o que traz inerente outros graves problemas ambientais e sociais, também associados à água.

Na Argentina, estamos percebendo isto de forma dramática com o processo que se chama de “sojização”.

Em outro nível de complexidade estão os casos de contaminação da água por metais pesados, como conseqüência das atividades mineiras desenvolvidas pelas empresas multinacionais, às vezes radicadas fora dos limites de cada país, e que geram impactos ambientais e sociais sobre populações assentadas às vezes muito longe dos locais onde se estabeleceram as explorações.

Na Argentina, isso ocorre na bacia dos rios Bermejo-Pilcomayo, afetada pela atividade de empresas localizadas rio acima que atuam na Bolívia.

A maior parte da água potável que se consome no maior conglomerado humano e industrial de Buenos Aires, conhecido como Conurbano Bonaerense, provém de duas fontes: dos lençóis subterrâneos e do Rio da Prata que, por sua vez, é um corpo de água que verte aproximadamente 2.300.000 metros cúbicos diários de resíduo cloacal e 1.900.000 metros cúbicos de resíduos industriais, sem considerar os aportes de suas afluentes, além da contaminação internacional arrastada pelos rios Uruguai e Paraná, que desembocam nessa bacia.

Por último, deixemos claro que a contaminação da água não deve ser atribuída somente à atividade industrial ou aos conglomerados urbanos. Está suficientemente documentado que todas as guerras, por exemplo, sem exceção, tiveram e têm conseqüências adversas sobre o recurso.

Água e globalização

No momento de escrever estas linhas, uma garrafa de dois litros de água gaseificada custa na Argentina o mesmo que um litro de gasolina sem chumbo. A primeira contém um recurso natural renovável, enquanto a segunda é um recurso natural praticamente não-renovável.

Os usuários são pressionados com o argumento de que a água  disponível para o consumo doméstico está contaminada e que a única forma de assegurar a ingestão de água limpa é comprá-la envasada em garrafas (de plástico) ou garrafas recicláveis.

O que na realidade está ocorrendo é a privatização de um recurso natural de propriedade social. A água não escapou ao apetite da globalização. Assistimos a uma estratégia global, cujo objetivo é adonar-se do recurso, dos sistemas para sua extração, distribuição e administração.

Hoje, a água potável é um recurso estratégico que será a base de um importante negócio e também de verdadeiras batalhas econômicas e/ou bélicas, nas quais estará em jogo, entre outras coisas, a soberania dos Estados.

Dois exemplos bastam para entende-lo: a Coca-Cola e a Pepsi Cola estabeleceram-se na Índia. Cada uma delas extrai entre 1 milhão e 1,5 milhão de litros de água subterrânea por dia. Esse volume de água é literalmente “extraído” do país que, obviamente, não tem qualquer benefício em converter sua água subterrânea potável limpa em bebida gasosa, nem está interessado em consumir a produção da empresa, que desfruta de um enorme benefício econômico pela mão-de-obra barata de que dispõe no país.

Este mesmo exemplo ilustra como pode ocorrer a transferência do recurso de um lugar a outro: a produção dessas empresas, obviamente, está destinada principalmente a outros mercados, que consumirão a água potável da Índia.

E isso sem considerar os efeitos ambientais e sociais adversos, secundários à atividade dessas empresas, que só os habitantes da Índia “desfrutarão”.

O outro exemplo é o caso de um magnata britânico, dono de uma estância de 14 mil hectares entre Bariloche e El Bolsón, na Argentina, que pretendia comprar uma superfície adicional de terras que impediria os vizinhos de utilizar arroios para irrigação, além de limitar o acesso a três lagos de propriedade da Província de Rio Negro.

Mas há mais: como paliativo à crescente demanda por água, foram construídas no mundo cerca de 45 mil represas. Atualmente, quase 60% dos rios mais importantes do mundo estão fragmentados por represas, desvios ou canais.

O Banco Mundial, que por cinco décadas impulsionou e financiou a construção dessas obras, acaba de reconhecer suas conseqüências negativas: sobrefaturamento, degradação ambiental e deslocamento de comunidades.

Um recente estudo científico mostrou a existência de uma conexão subterrânea entre a represa de Yaciretá, localizada na fronteira paraguaia-argentina, e os estuários de Iberá (na mesopotamia argentina), um dos reservatórios de água mais limpos do planeta, o que se agravaria caso fosse colocado em vigor a recente decisão de aumentar o nível de água na represa.

É curioso que o mesmo Banco tenha criado fundos para financiar ações com o intuito de preservar um dos enormes depósitos de água subterrânea de nosso continente, compartilhado por Brasil, Paraguai, Argentina e Uruguai, numa região ocupada por aproximadamente 15 milhões de pessoas.

A disponibilidade de água doce na natureza não é uniforme

A disponibilidade geográfica de água doce é diferente. Vejamos alguns dados correspondentes à nossa região. Estimada em quilômetros cúbicos totais, a maior quantidade corresponde ao Brasil (5.420), seguido do Chile (930) e Argentina (360); muito atrás estão Paraguai (95) e Uruguai (59). A partir desses números podemos efetuar outro cálculo: se determinarmos a disponibilidade em metros cúbicos por pessoa, o país mais beneficiado é o Chile (61.000), seguido pelo Brasil, Paraguai, Uruguai e, por último, a Argentina (9.720).

Esses números indicam a disparidade na distribuição da água em nossa região. Mas em todo o mundo a situação se repete. Num extremo está o Canadá, com 92.000 metros cúbicos de água por pessoa/ano, e no outro Israel, com 120. A Ásia tem 60% da população mundial e 36% dos recursos hídricos, enquanto que na América do Sul esses percentuais são de 6% e 26% respectivamente.

Levando em conta que a disponibilidade de água considerada adequada é de aproximadamente 1.700 metros cúbicos por pessoa, pode-se prever que o recurso água em nossa região é candidata a ser explorada por outros.

Paradoxalmente, dispor de água potável por rede era, em 1999, um verdadeiro “luxo” para 80 milhões de latino-americanos.

Considerações finais

Preservar a água potável é preservar a vida. A água será um dos recursos críticos no futuro próximo de nossas comunidades; o risco espreita os nossos países que, por sua precariedade política, social e econômica, podem ser os mais prejudicados diante do avanço do processo de apropriação que se espera.

A água é um recurso cuja administração e cuidado deve estar nas mãos de cada Estado, explorando-o conforme as suas necessidades. Caso contrário, o que estará em jogo, em muitos casos, é a própria sobrevivência das pessoas.

Mas também afirmamos que as comunidades eclesiais podem ser reconhecidas como espaços a partir dos quais se enfatiza a responsabilidade que cabe aos cristãos no cuidado e na preservação da integridade de toda a Criação.

Precisamente a problemática da água é um dos âmbitos particulares nos quais a Igreja pode incidir para dentro e para fora. Fará-o gerando ações de conscientização e propondo ações concretas a favor do cuidado e preservação do recurso.

Para fora, estimulando os irmãos e as irmãs a compartilharem o compromisso com a comunidade da qual fazem parte, começando pelo entorno imediato e, por extensão, expandindo sua ação aos diferentes níveis de governo.

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Alfredo Salibián.