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Segunda-feira, 29 de Outubro de 2007

Um novo perfume para as comunidades

Entrevista: Edelberto Behs, SAO LEOPOLDO, Brasil, Junho 3, 2005

Ela lembra dos momentos que antecederam a ordenação na sua cidade natal, Santana do Livramento, Taxi Heathrow Airport na fronteira com o Uruguai e a 498 km de Porto Alegre, como se fosse hoje. “Eu queria ficar sozinha, caminhar, refletir se esse era realmente um chamado de Deus. Eu senti muito temor”, confessa.

Vinte anos depois, a reverenda Carmen Etel Alves Gomes, a primeira mulher ordenada ao ministério feminino na Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB), festeja a data e vê a ordenação feminina como uma grande conquista das igrejas históricas, que está trazendo “alma nova” e um “novo perfume” às congregações.

Os 20 anos de ministério feminino serão lembrados na IEAB no decorrer do ano. Anglicanos têm outro motivo para comemorar: os 115 anos de atuação em terras brasileiras.

No dia 1. de junho de 1890, foi oficiado o primeiro culto anglicano no país, em Porto Alegre, na casa de Gervásio Sarmento, residente à rua Voluntários da Pátria. Ele veio a se tornar anglicano depois. Por isso, junho é o “Mês da Missão” na IEAB.

Leia, a seguir, a entrevista da reverenda Carmen Etel Alves Gomes, deã da Catedral do Mediador, de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, e participantes do Movimento Pela Paz e da Fraternidade de Igrejas Cristãs (FEIC).

ALC: Como foi a festa dos 20 anos de ministérios na congregação que você está pastoreando, em Santa Maria?

Revda. Carmen Etel: A festa dos 20 anos de ordenação feminina na Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB) vai transcorrer todo este ano, em três momentos. Ela começou em março, na cidade de Santa Maria, com a ordenação de mais três mulheres na Diocese de Santa Maria.

O segundo momento, a comemoração da minha ordenação, foi mais singelo. Estiveram presentes algumas colegas daqui e a diretora de Missão da IEAB, revda. Lilian Conceição. Realizamos uma celebração com os paroquianos e depois reunimo-nos num coquetel, no dia 5 de maio. Algumas pessoas testemunharam esse evento, solidarizando-se com todas as mulheres ordenadas. Entre os que sempre apoiaram as mulheres ordenadas está o bispo desta diocese, amigo e companheiro dom Jubal Pereira Neves.

A terceira celebração pelos 20 anos será realizada em setembro, dias 6 a 9, quando teremos um grande encontro com todas as reverendas ordenadas. Queremos compartilhar as pastorais em que estamos envolvidas, as diferentes teologias que trabalhamos, os desafios e as perspectivas para o futuro. Estarão conosco reverendas dos Estados Unidos.

ALC: Como você se sente ao alcançar esse marco?

Revda. Carmen Etel: Eu me sinto feliz, mas sei que há muito por fazer. A missão é de toda a Igreja e precisamos avançar ainda mais nos projetos pelo reino de Deus. Creio que temos muito por realizar nesta sociedade de uma cultura da morte!

ALC: O que você se recorda da sua ordenação, há 20 anos?

Revda. Carmen Etel: Eu lembro da minha ordenação em Santana do Livramento, onde eu nasci, que queria ficar sozinha, caminhar, refletir se esse era realmente um chamado de Deus. Eu senti muito temor, estava um pouco alarmada por ver a mídia dar tanta ênfase para a ordenação de uma mulher! Lembro que a revista Veja me entrevistou, também outros jornais importantes do país. Mas eu queria era sossego, meditar, trabalhar em paz.

ALC: Você teve que vencer resistências na sua igreja para ser ordenada?

Revda. Carmen Etel: Venci algumas resistências, mas valeu a pena. Foi a Igreja que aprovou a ordenação. Então, são todos cooperadores neste ministério em que a missão é de Deus.

ALC: Como foi sua chegada na primeira congregação que pastoreou como ministra ordenada?

 Revda. Carmen Etel: Fui designada para trabalhar em Jaguarão (no Rio Grande do Sul), numa das paróquias mais tradicionais da diocese, e também atender uma instituição de crianças órfãs, fazer missões e trabalhos com grupos diversificado.

A chegada foi uma novidade para a cidade. Foi uma experiência muito agradável. Lá encontrei amigos de outras denominações e criamos a educação popular. Trabalhamos com teatro na cidade e nos engajamos numa fé política. Rapidamente eu fui rotulada de "padre vermelho", mas isso não me assustou.

ALC: Em que campos de trabalho você atuou nesses 20 anos?

Revda. Carmen Etel: Nesses 20 anos eu trabalhei nas paróquias de Jaguarão, Bagé, Dom Pedrito e Pinheiro Machado, todas no Rio Grande do Sul. Também ocupei o cargo de diretora de Missão na IEAB, fui professora do Seminário em Porto Alegre. Trabalhei no apoio ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), às pastorais sociais da Igreja e ao ecumenismo.

Retornei ao Brasil há um ano. Nos últimos quatro anos trabalhei com imigrantes nos Estados Unidos, na Diocese de Los Angeles e San Diego. Acho que esse trabalho com os imigrantes foi muito importante na minha vocação.

Conheci de perto a discriminação e como realmente é difícil ser missionária numa terra estrangeira, sob um poder demoníaco, que é o poder do governo dos Estados Unidos, principalmente no tratamento com os imigrantes.

ALC: Como vê a ordenação feminina nos dias de hoje? Houve evolução? Em quê?

Revda. Carmen Etel: Hoje eu vejo a ordenação feminina como uma das grandes conquistas das igrejas históricas, não só a minha, mas também a Luterana, a Metodista e outras.

Acredito que está trazendo alma nova para as igrejas tradicionais, muita criatividade e um novo perfume para as comunidades.

ALC: Na atualidade, o tema da ordenação feminina não parece mais ser tão relevante quanto o foi há 20 anos. Hoje, o grande tema é o da ordenação ao ministério sacerdotal de homossexuais. Você concorda com essa abertura?

Revda. Carmen Etel: O assunto hoje é homossexuais, mas ainda temos igrejas que descriminam as mulheres. A Católica Romana não ordena mulheres e não está discutindo esse tema. O sagrado continua sendo ocupado somente por homens na Igreja Romana. Isso é injusto com tantas mulheres vocacionadas!

Eu sou amiga de homossexuais, sou uma mulher que assumo uma teologia da Libertação, não me preocupo com a vida pessoal de ninguém. Acho que os gays têm o direito de lutar por seus direitos, são imagens e semelhanças de Deus!

ALC: Você acha que mulheres conseguem galgar cargos na igreja assim como os homens?

Revda. Carmen Etel: A maioria dos cargos ainda está nas mãos de homens. Mas na ordenação feminina nós estamos conquistando muitos espaços. Já temos bispas em algumas Igrejas dos Estados Unidos, do Canadá.

Também em outras igrejas há mulheres bispas. Encontrei no Fórum Social Mundial uma amiga de Buenos Aires, que é um perfil excelente de mulher bispa, que assume sua opção pelos pequenos e marginalizados, que caminha ao lado do povo em sua necessidade!

ALC: O que foi importante para você nesses 20 anos de ministério?

Revda Carmen Etel: Tudo foi importante para mim, e está sendo. Viver em Santa Maria, trabalhar nesta catedral, neste contexto da cidade com tantos desafios de pobreza, crianças de rua, indígenas, projetos ecumênicos. Isso é o mais importante para mim neste momento!