Um tributo a Paul Ricoeur
Leopoldo Cervantes-Ortiz, CIDADE DO MÉXICO, México, Junho 1, 2005
Paul Ricoeur, um dos mais renomados filósofos do século XX, faleceu na sexta-feira, 20 de Taxi Heathrow Airport maio, aos 92 anos, nas proximidades de Paris. Membro da minoria protestante francesa (como Oscar Cullmann, Jacques Ellul, Georges Casalis e Pierre Chaunu, para citar somente alguns nomes), foi um dos pensadores mais notáveis do século XX.
Sua obra conciliou o estudo profundo de campos diversos, como a fenomenologia e a hermenêutica, disciplina a partir da qual ele realizou análises singulares de textos bíblicos.
Com um estilo comedido, englobou amplamente aspectos tão diversos como a psicanálise, a história, a literatura, a semiótica e o direito.
Foi um homem apaixonado pelo conhecimento e se opôs à tão mencionada "morte do sujeito", assinalando a necessidade de resgatá-lo, sobretudo no âmbito moral.
Como assinala Mónica Cragnolini: "A filosofia se faz de muitas maneiras: o modo que Paul Ricoeur fez filosofia talvez represente um dos modos mais amplos e dialogais do pensar contemporâneo.
Quando se recorre às páginas da obra de Ricoeur, parece que não existe linha filosófica que não tenha sido considerada no momento de propor uma questão problemática.
E isso, feito com um estilo de tal clareza expositiva que sempre gera o assombro: como é possível, se pergunta o leitor, confrontar posições tão diversas, expô-las tão claramente, e recolher 'o melhor' de cada uma delas para sugerir a sempre continuada vitalidade dos problemas filosóficos?"
Samuel Arriarán resumiu muito bem sua trajetória filosófica: a) seu início a partir da fenomenologia, o existencialismo, a história das religiões e a teoria política; b) o encontro com a psicanálise; c) com o estruturalismo; e d) com o pós-estruturalismo e a pós-modernidade.
Esse autor observa que a obra de Ricoeur poderia caracterizar-se como "uma verdadeira revolução filosófica".
Nascido em Valence, em 1913, Ricoeur perdeu cedo os seus pais e foi educado por seus avôs paternos, que lhe ensinaram a fé protestante. No livro de entrevistas "Crítica e convicção" (1995), ele dá testemunho da sua formação religiosa, assim como de seu apego à leitura da Bíblia: "Pelo lado do meu avô, tive uma evolução para o protestantismo liberal, enquanto que pelo de minha avó, a direção era o protestantismo pietista [...] De fato, meu ambiente paroquial era certamente mais aberto que o familiar, e chegou a ser um refúgio seguro para mim. [...] Se a leitura da Bíblia foi central neste ambiente [...] o qual, não sendo intelectual, era pouco dogmático e outorgou preferência à leitura, à oração e ao exame de consciência.
Sempre me movi entre esses dois pólos: o bíblico e o racional ou crítico, uma dualidade que, finalmente, me acompanhou toda a vida".
Ricoeur começou seus estudos de filosofia e mais tarde foi recrutado para a Segunda Guerra Mundial. Passou cinco anos num campo de concentração nazista, do qual foi libertado na primavera de 1945.
Ricoeur aproximou-se do existencialismo cristão e colaborou com Emmanuel Mounier na revista "Esprit".
Foi ignorado em seu país até os anos 80. Quando publicou seu livro sobre Freud (Freud: uma interpretação da cultura, 1965) não foi bem, devido, sobretudo, ao fato de não citar Lacan, de quem havia se distanciado.
Esse livro tornou-se famoso porque caracteriza, além de Freud, Marx e Nietzsche, como "professores da suspeita", retomando a idéia nietzscheana de que a dor é um professor que nos faz suspeitar.
Como explica Cragnolini: "Os três 'professores' deram um golpe de graça ao eu moderno, que desde Descartes se postulava como autofundado e transparente a si mesmo: as feridas infligidas a esse eu o colocam na posição de um eu quebrado, que chega a ser declarado 'morto' em algumas posições filosóficas dos anos 60 e 70.
Entre o eu cartesiano e o eu criticado por Freud e Nietzsche localiza-se Ricoeur, reconhecendo a importância da crítica à subjetividade, mas também a necessidade do sujeito".
Dessa época surgiu o seu profundo interesse pelo símbolo e suas manifestações. Para ele, "o símbolo dá o que pensar", dado que sempre parece dizer algo mais e impulsiona o pensamento numa tarefa interpretativa infinita. Sublinha novamente
Cragnolini: "O eu encontra-se entre o inconsciente e o sagrado, nesse lugar intermediário".
Como professor da Sourbone, Ricoeur dirigiu com Jacques Derrida um seminário de fenomenologia. Em 1967, transferiu-se para Nanterre, para iniciar um novo projeto universitário.
Ali foi decano da Faculdade de Letras e se viu envolvido na voragem do movimento estudantil de 1968. Renunciou em 1970, para encaminhar-se à Universidade de Louvaine. Regressou à França em 1973, onde permaneceu até 1981. Mais tarde trabalhou em Chicago e em Yale.
Um episódio muito doloroso foi o suicídio de seu filho Olivier, em 1986, que evoca (em sua "Autobiografia intelectual", 1995) como uma "Sexta-Feira Santa da vida e do pensamento", e explica o que significou para ele "a infelicidade que franqueou uma linha de separação que só posso traçar no papel".
Ali mesmo agrega como a reflexão e a escrita de "O mal: um desafio à filosofia e à teologia" (1986) lhe ajudaram a superar esse momento tão difícil.
Ele dedica ao seu filho o interlúdio "O trágico da ação" em "Si mesmo como outros" (1990), livro no qual também respondeu às críticas sobre seu interesse quieto na religião devido a sua fé cristã: "Se defendo meus escritos filosóficos da acusação de criptoteología, me guardo, com igual zelo, de atribuir à fé bíblica uma função criptofilosófica".
"A metáfora viva" (1975) é uma investigação sobre a criatividade da linguagem e sua capacidade para incidir na realidade. A metáfora viva inova sentidos por sua "impertinência semântica". Frente à referência habitual de um termo, a metáfora gera uma nova referência, e frente ao sentido literal, uma nova pertinência semântica, que se torna "impertinente" com respeito ao sentido literal.
A linguagem poética não é só um "outro modo" de dizer, mas é uma forma de "dizer mais", pois existe uma "mais-valia" de sentido gerada pelo trabalho semântico da metáfora.
Essa obra foi concebida simultaneamente com a trilogia "Tempo e narração" (1983-1985), na qual analisou a forma como a consciência humana maneja o tempo e o representa nas diferentes formas do relato.
Em "Pensar a Bíblia" (Herder, 2001), escrito em conjunto com André LaCocque (professor, como ele, da Universidade de Chicago), os dois autores abordam seis textos representativos do Antigo Testamento em uma espécie de diálogo interdisciplinar atento e rigoroso.
A contribuição de Ricoeur, segundo Juan José Tamayo, "chama a atenção sobre a especificidade dos textos religiosos e a originalidade do pensamento hebreu, o que o leva a considerar inadequado o conceito de 'metafísica bíblica', que estabelecera Étienne Gilson.
A relação entre os textos bíblicos e as comunidades históricas de leitura e interpretação exige o recurso ao círculo hermenêutico - que não tem porque ser 'vicioso'. A comunidade interpreta a si mesma quando interpreta a Bíblia".
Anos atrás, o trabalho de Ricoeur neste campo (um grande número de ensaios, conferências e colaborações em livros) foi muito difundido na América Latina graças aos esforços da professora uruguaia Beatriz Melano, especialista em sua obra.
Além dela, a editorial Megápolis publicou em três volumes uma ampla seleção de "O conflito das interpretações" (1969). De particular interesse foi o intitulado "Introdução à simbólica do mal" (1976), que estuda a problemática do pecado original, um tema que aparece amplamente desenvolvido em "Finitude e culpabilidade" (1960), continuação de sua tese de dourado, centrada na análise da vontade.
Outro tomo que circulou amplamente foi "Exegese", uma publicação coletiva na qual foi possível ler alguns dos ensaios hermenêuticos mais emblemáticos do filósofo francês, que apareceriam reunidos em "Do texto à ação" (1986).
Recentemente, o Fundo de Cultura Econômica pôs em circulação novas traduções dessas obras.
Como escreve Marcelino Agís no "Dicionário de hermenêutica": "A hermenêutica, tal como é entendida por Ricoeur, é herdeira da tradição reflexiva em seu conjunto e de sua variante fenomenológica em particular.
Por conseguinte, à contribuição de Schleiermacher, Dilthey, Heidegger e Gadamer, há que adicionar a impressão deixada pela filosofia reflexiva de Nabert, Fichte, Kant e Descartes.
A hermenêutica adiciona à fenomenología a necessidade de um grande rodeio (dètour) através dos signos, símbolos e normas de nossa cultura; a finitude da compreensão e o conflito das interpretações que resulta dessa finitude; o caráter aberto das mediações".
Nesse sentido, Ricoeur defendeu a idéia de que entre as hermenêuticas bíblica e filosófica existe uma relação complexa de implicação mútua. Por isso, a bíblica deve ser entendida como uma hermenêutica "regional" com respeito à filosófica, que proporcionaria o marco geral, com o todo e que os textos bíblicos constituem um caso único.
Pensando nisso, Hans de Wit esboçou o conceito de "arco hermenêutico", proposto por Ricoeur, em três fases: primeira, a leitura ingênua (momento em que o leitor constrói uma pré-compreensão do significado do texto); segunda, a exegese (prática teórica que trata de reconstruir controladamente o significado histórico do texto); e terceira, o saber compreensivo (leitura produtiva que desemboca numa nova percepção do mundo e uma nova práxis).
"A memória, a história, o esquecimento" (2000), testamento intelectual e moral de Ricoeur, mostra uma grande preocupação pelas representações do passado e a memória e o esquecimento. Assinalando os excessos de memória e os abusos do esquecimento, Ricoeur assume uma postura "intermediadora" marcada por uma política de "justa memória", mediante uma análise das possibilidades do perdão, um ato difícil que reconhece como o "tormento" em seu pensamento em torno dessa temática. A lista cristã aparece na necessidade de respeitar a regra de ouro (que Ricoeur estudou admiravelmente num ensaio recolhido em "Amor e justiça", 1991). Ao respeitar o outro, cada juízo moral atende as necessidades de cada caso concreto.
"Parcours de la reconnaissance" ("Percurso do reconhecimento", 2004) é uma das últimas obras de Ricoeur. Nela, ele sublinha o valor da alteridade e que nenhuma subjetividade pode realizar-se sem o reconhecimento do outro. Como assinala Cragnolini: "Este reconhecimento necessita da distância, mais que da fusão que confunde, e por isso este livro finaliza com uma citação de Montaigne, na qual responde por seu amor de amizade para La Boétie, assinalando que o único que pode dizer é que o amava porque 'ele era ele e eu era eu'".
A obra de Ricoeur, para crentes e não-crentes, é um modelo de rigor apaixonado pela verdade e a busca de sentido.

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