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Segunda-feira, 29 de Outubro de 2007

Carmelo Alvarez, pastor da Igreja Cristã (Discípulos de Cristo). [Foto: CLAI]
Carmelo Alvarez, pastor da Igreja Cristã (Discípulos de Cristo). [Foto: CLAI]

Joseph Ratzinger, na rota de São Bento?

Carmelo Alvarez, CHICAGO, Estados Unidos, Maio 9, 2005

Agora que Bento XVI foi entronizado no ofício petrino como papa, gostaria de fazer algumas Taxi Heathrow Airport considerações sobre esse teólogo e cardeal, e sua trajetória como prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, sob o pontificado de João Paulo II (1981-2005).

Desejo sinceramente que a gestão de Bento XVI como pontífice seja acertada e capaz pelo bem da própria Igreja. Por isso a pergunta pela rota de São Bento não é tangencial nem caprichosa. Ela busca retroceder à riqueza de uma herança que no seio do catolicismo marcou uma rota de renovação espiritual valiosa.

A Congregação da Doutrina da Fé é, talvez, a mais influente na gestão de qualquer papado e incide em todas as demais congregações e prelaturas do Vaticano.

Como historiador eclesiástico alguém poderia voltar os olhos ao passado e ver algumas conexões com a Santa Inquisição, de não muito grata recordação no catolicismo medieval e moderno.

Alguém poderia estar tentado a comparar atuações do cardeal Ratzinger, que tem mais de um vestígio daquela nefasta instituição repressora e opressora. Mas não é exatamente o que me motiva a escrever essas linhas. Desejo seguir outra linha, menos óbvia, mas provavelmente mais interessante.

Se Ratzinger escolheu o nome Bento não é para redimir a São Bento, nem a qualquer dos pontífices anteriores que escolheram esse nome. O fato de que Bento XV (1914-1922) tenha sido um papa honesto, embora débil e em certa medida fracassado na sua tentativa de mediação para evitar a guerra na Europa, e de passagem tornar mais relevante um papado que seguia em franca hostilidade com a modernidade, não creio que ser esta a razão por trás da escolha do nome.

Se o fez para seguir na rota de São Bento (como especulam alguns), para recuperar essa espiritualidade tão bela e coerente, então aguardemos um pouco para ver que mudança substancial de enfoque, atitude e conduta se refletirão nos próximos meses.

O Ratzinger dos últimos 20 anos foi um agente bastante intransigente e autoritário. Basta mencionar aquelas situações nas quais eu mesmo me vi envolto enquanto secretário geral (1992-1996) da Associação de Teólogos e Teólogas do Terceiro Mundo (EATWOT).

Nossa organização é bem reconhecida no Vaticano. O fato de ter agrupado desde 1976 os teólogos e teólogas da libertação mais destacados de todos os continentes, e ter a organização essa mesma trajetória em sua reflexão e solidariedade com os pobres, os marginalizados, as mulheres, os índios e os aborígenes e os afro-descendentes, já pode dar uma pista das suspeitas vaticanas sobre a heterodoxia de tal organização.

Não é segredo que a Congregação para a Propagação da Fé investigou - e fez advertências e admoestações - a Gustavo Gutiérrez, do Peru, um dos fundadores de EATWOT, Jon Sobrino, de El Salvador, e ao lembrado Juan Luis Segundo, do Uruguai.

A Leonardo Boff e Ivone Gebara, do Brasil, e Tissa Balasuriya, do Sri Lanka, submetendo-a praticamente a julgamentos inquisitoriais. Leonardo Boff foi levado ao silêncio, ao atropelo, à humilhação, que finalmente provocou sua renúncia oficial da Igreja, não à sua vocação franciscana e sua tarefa ecumênica e pastoral.

Ivone Gebara foi sentenciada a um ano de "reeducação", depois de um processo penoso de escrutínio e exame, no qual não foi permitido a ela defender-se pessoalmente, mas através de um intermediário.

Tissa Balasuriya foi injuriada e torturada mentalmente, levando-a até a excomunhão (para ser reabilitada posteriormente). Todos esses casos foram dirigidos pelo departamento de Ratzinger. Todos são membros da EATWOT.

Eu poderia estender-me e compartilhar dados precisos da forma como meus colegas foram tratados. Só queria que não esquecêssemos quem é o novo papa e algo de sua trajetória recente.

Se Ratzinger escolheu a rota de São Bento, ele tem em vista vários desafios claros. Bento de Nursia (480-547) é figura alta do monaquismo ocidental. De fato, alguns eruditos concedem-lhe o reconhecimento como o papa que salvou o catolicismo na Europa.

Bento era uma pessoa de oração, meditação, disciplina, trabalho e reflexão. Sua espiritualidade resume-se nesta bela frase: ora et labora (ora e trabalha). Sua tenacidade e diligência provieram da famosa Regla, que junto aos exercícios espirituais de Santo Inácio de Loyola e as Florecillas do campo de São Francisco de Assis constituem pilares da espiritualidade cristã de todos os tempos.

O espírito beneditino contagiou todos os continentes e hoje tanto a formação educativa na tradição beneditina como a leitura divina constituem pedras angulares de um acervo ecumênico e espiritual que pertence a todo o cristianismo, e é admirado por outras tradições religiosas.

A rota de São Bento é uma fonte de inspiração que entre outras coisas oferece a humildade, o dom de escutar, meditar e refletir antes de julgar. Oferece a oportunidade de entender o poder como serviço em clara adesão ao evangelho.

Para mim, o ethos beneditino tem nome e sobrenome, rosto e imagem. É Killian McDonnell, de Minnesota, que, como teólogo carismático, deu-nos o melhor de sua herança beneditina e o carisma da sabedoria, da humildade e da amizade.

Conheci Killian em 1985, no contexto de uma consulta entre igrejas históricas, pentecostais, ortodoxas e católicas. Sua serenidade e pausa no diálogo, o acervo do seu conhecimento sobre teologia do Espírito Santo e a experiência transformadora do Espírito experimentada em sua própria vida, o fazem um ser humano extraordinário.

Sua contribuição à Sociedade de Estudos Pentecostais, na qual compartilhamos há mais de duas décadas, é testemunho de sua ecumenicidade e mente ampla.

Killian tem sido uma ponte de compreensão e tolerância entre católicos e pentecostais, em tempos em que a desinformação e os preconceitos tornavam o diálogo difícil.

Sua herança beneditina ajudou-o a discernir e ponderar com equanimidade e acerto. Basta apenas ler sua impressionante produção literária para vislumbrar e adentrar nesse teólogo carismático beneditino.

Aos seus 84 anos, frágil mas cheio de sabedoria, Killian ainda continua demonstrando a solidez dessa herança beneditina, que, ao final de contas, é a essência do cristão.

Eu também tenho vivo na memória a hospitalidade ofertada por minhas irmãs e irmãos beneditinos. Os rostos cheios de ternura nas Filipinas, Holanda, Sri Lanka, Guatemala, Peru, Equador e tantos outros lugares, ficam como imagens lúcidas de uma autenticidade evangélica de valor incalculável.

A tenacidade e a dedicação de professores e professoras em colégios que formaram líderes nacionais em diferentes países fica como testemunho eloqüente do valor da herança beneditina.

Seguirá Ratzinger pela rota de São Bento? Se é assim, as opções são claras. Esse caminho de espiritualidade está cheio de valores profundos e cristalinos, com maiores desafios éticos, teológicos e eclesiais.

Uma atitude transparente e diáfana em que a humildade, a honestidade e a integridade sejam eixos do acionar, será mais do que suficiente para que Bento XVI honre a São Bento de Nursia, e em boa teologia católica, peça ao santo que interceda em seu favor na gestão que tem pela frente.

Quais são os desafios que Bento XVI deverá enfrentar e para os quais a herança beneditina possa iluminá-lo? Há vozes dentro do catolicismo que clamam por maior democracia na Igreja.

Para ninguém é segredo que o binômio João Paulo II - e sua mão direita Ratzinger centralizaram, e em ocasiões obstaculizaram, espaços de participação e diálogo.

Hoje, a imprensa e setores conservadores do catolicismo internacional querem fazer ver que João Paulo II e seu pontificado foram somente graça e boa condução pastoral. Ninguém nega o carisma de João Paulo. Seu conservadorismo honesto e a inconsistência em muitos campos tampouco.

Bento XVI terá que fazer um chamado à unidade interna na Igreja, não com medidas repressivas, mas com atitudes tolerantes. Deverá de uma vez por todas abrir o catolicismo (sobretudo o europeu) à realidade global que assinala para o futuro da Igreja na África, Ásia e América Latina.

Roma e o eurocentrismo não são a alternativa para um catolicismo vigoroso no século XXI. Pretender re-evangelizar a Europa esquecendo-se do lugar proeminente que aquelas regiões devem ocupar, em grande parte empobrecidas, é optar pelo cativeiro e a decadência.

Deveria estar num ponto muito elevado na agenda de Bento XVI a participação das mulheres na Igreja. E não falo apenas da ordenação. É mister que os leigos (homens e mulheres) sejam recebidos na Igreja como povo pleno de Deus, com seus dons e contribuições.

As mulheres foram marginalizadas na estrutura eclesiástica católica e não há razões nem teológicas, nem biológicas, morais nem espirituais que o justifiquem.

Não há dúvida que o sacerdócio está em crise na base da Igreja. Isso inclui a condução sexual, a realização humana e vocacional. Por essa razão há uma diminuição tão evidente de vocações sacerdotais.

Viajando pela América Latina e o Caribe compartilho com amigos sacerdotes em conversações que só refletem a grande frustração em que vivem silenciosamente. Esperar que cheguem os escândalos sexuais para atendê-los e finalmente deixá-los à própria sorte é cruel, e me parece pouco cristão. A Igreja tem que ser mais conseqüente e além das suas conveniências e acomodações.

Escutei detidamente as homilias recentes de Bento XVI. Sua intenção de refugiar-se sob o pontificado de João Paulo II é uma rota pouco saudável. Na sua idade, seria mais conveniente confiar mais no Espírito Santo do que no poder que pode emanar do ofício petrino.

Nesse esforço, imitar São Bento e atualizar uma herança tão rica em graça e verdade pode ser um grande acerto. Como pessoa que optou pela rota ecumênica eu lhe ofereço sinceramente minhas orações. Afinal de contas, todos e todas somos responsáveis em sermos fiéis à herança maior, a que emana da própria vida de Jesus Cristo.

Pedir que a Igreja seja fiel ao Evangelho do Reino é tarefa de todos os cristãos e cristãs, não importa em qual tenda eclesiástica nos encontremos. Como sempre me dizia aquele grande pastor e amigos, monsenhor Sergio Méndez Arceo, bispo de Cuernavaca, México: "Oxalá sejamos menos religiosos e mais cristãos."