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Quinta-feira, 8 de Novembro de 2007

Economista defende revisão do conceito de progresso

Edelberto Behs, SAO LEOPOLDO, Brasil, Maio 17, 2005

 É preciso rever profundamente o conceito de progresso e o tipo de sociedade que se Taxi Heathrow Airport pretende construir, defendeu o economista e professor Gilberto Dupas na abertura, ontem à noite, do Simpósio Internacional "Terra habitável: um desafio para a humanidade", que a Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) abriga de 16 a 19 de maio.

Numa análise lúgubre dos efeitos da lógica do capitalismo global e da trajetória humana no campo do saber científico, Dupas lamenta que os rumos da ciência não sejam controlados pela sociedade. Ele conclamou os jovens para se fazerem agentes do processo de transformação, imprescindível ao futuro do planeta Terra que sofre as conseqüências da ação tecnológica desenfreada dos humanos.

"Nós agimos como se a espécie humana estivesse garantida. Cada avanço tecnológico é uma prótese artificial que introduz riscos de longo prazo", destacou o professor de Política Econômica na Universidade de São Paulo (USP).

Ele propôs o desenvolvimento de novas formas que legitimem as dimensões do progresso com vistas à garantia da sobrevivência da humanidade e para que os humanos se mantenham radicalmente humanos. E sublinhou: "Nós somos os únicos atores!"

A fragilidade de sociedades que usufruem os resultados proporcionados pela tecnologia é tão grande que se for cortada a energia elétrica de uma grande cidade norte-americana por um período mais longo de tempo o sistema entra em colapso e provavelmente centenas de pessoas morrerão. Já esse mesmo colapso não traz repercussão alguma para uma tribo aborígene da Austrália, comparou.

Em uma hora e meia de conferência, o professor da USP atacou o neoliberalismo que se aproveita da globalização para livrar o capitalismo de responsabilidades trabalhistas e sociais. "O capital é cosmopolita, os grandes jogadores de futebol e os astros são cosmopolitas, mas os trabalhadores, a mão de obra barata fica no seu local de origem. Eles não têm ingresso na globalização", disse Dupas.

Nos últimos 20 anos, o percentual de pobres na América Latina passou de 41% para 44%. Em números absolutos isso significa que há duas décadas existiam 136 milhões de latino-americanos que viviam abaixo da linha de pobreza e hoje são 230 milhões de pobres.

Analisando os dados mundiais, esse número é mais impressionante ainda. O contingente de pessoas que vivem com menos de dois dólares por dia passou de 11% para 23% de 1987 a 2001.

A situação precária de emprego gera grande ansiedade em trabalhadores de todas as latitudes. Metade da população latino-americana está na informalidade e cresce a sensação de que o Estado não tem mais responsabilidade sobre a oferta. As pessoas têm que "inventar" o seu emprego.

A degradação da lógica do capitalismo internacional se torna evidente até mesmo num país como os Estados Unidos. A maior empresa norte-americana é a Wal Mart, que fatura a metade do PIB brasileiro, emprega 280 mil funcionários, e paga um salário médio de 19 mil dólares/ano, quando a linha de pobreza no país está demarcada em 18 mil dólares/ano.

O Estado se mostra incapaz de resolver o problema da pobreza e as empresas trabalham no espaço da responsabilidade social, sem expectativa de resolver a questão da exclusão. O Estado, disse Dupas, é incompetente até mesmo para cortar a grama de praças e passeios, e permite que empresas cuidem dos espaços públicos em troca de uma placa fincada nos jardins anunciando a adoção daquele local.

A mídia não ficou de fora do panorama desenhado pelo professor da USP para mostrar o dilema no qual a humanidade está mergulhada. Há um controle oligopolizado da produção de bens culturais. A cultura virou publicidade e as corporações ocuparam o espaço público e o transformaram em espaço publicitário, com centenas de outdoors, placas, anúncios e logomarcas destacando-se nas ruas, rodovias e avenidas.

A tecnologia também acabou com o espaço privado. A vida privada e a vida profissional se confundem. "Há 15 anos, não tínhamos o telefone celular e vivíamos muito bem", lembrou. A tecnologia da informação encolhe o espaço de manifestação das pessoas. Os jovens vão desempenhar, então, sua performance na marginalidade, pichando o muro ou invadindo sistemas de computadores.

A técnica a serviço do capital é uma grande devoradora de postos de trabalho. No mundo globalizado, disse, a ciência é o centro e o cientista o sumo sacerdote. "Só importa o fazer, por quê fazer não interessa", arrolou.

Dupas reportou-se ao pensador alemão Hans Jonas (1903-1993), autor do livro "Técnica e responsabilidade: reflexões sobre as novas tarefas da ética".

Para Jonas, "as premissas técnicas até hoje conhecidas já não são mais válidas". Mas é preciso saber, definiu Jonas, como a técnica moderna afeta a humanidade no seu agir. Nenhuma ética anterior tinha que levar em conta a condição global da vida humana ou a existência da espécie.

O professor da USP propôs uma nova teoria da responsabilidade para formular uma nova ética. A humanidade não está apenas sob o poder de extermínio da bomba atômica. A engenharia genética pode acabar com as características da própria espécie humana. É preciso, então, revisar o conceito de progresso e construir uma nova ética, definiu.

Dupas confessou o fracasso da sua geração. "Estamos entregando aos nossos filhos e netos um mundo mais injusto e mais pobre", admitiu. Ele colocou a tolerância e a hospitalidade como temas centrais do mundo contemporâneo. "Como é difícil suportar-nos uns aos outros, os diferentes, na Terra que vem a ser a nossa única morada", afirmou. Mas aquela é a alternativa que resta aos humanos, se pretendem continuar humanos.

O Simpósio Internacional Terra Habitável reúne pesquisadores da Alemanha, Brasil, Estados Unidos, França e Suíça. O conferencista da sessão de abertura do evento é presidente do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais (IEEI), autor de vários livros entre eles "Atores e poderes na nova ordem global", lançado este ano.