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Segunda-feira, 29 de Outubro de 2007

Manuel López, jornalista espanhol, diretor da revista Foto e membro da Primeira Igreja Batista de Madri
Manuel López, jornalista espanhol, diretor da revista Foto e membro da Primeira Igreja Batista de Madri

Matéria pendente: o canto à vinha

Manuel López, MADRI, España, Maio 1, 2005

"Cantai a vinha deliciosa do vinho vermelho", convida o texto visivelmente melhorado de Isaías Taxi Heathrow Airport 27.2 na Bíblia Reina-Valera em suas versões de 1909, 1960 e também na mais recente de 1995. Originariamente, a versão de Casiodoro de Reina, de 1569, rezava: "Naquele dia a vinha de Hemer, catai dela".

Na versão posterior de Cipriano de Valera, de 1602, desaparece uma parte do verbo e de modo que em vez de unir-se o coro ao texto sagrado convida os leitores a se aproximarem da mesa de degustação: "catai dela", diz textualmente. Saúde!

Errata intranscendente ou acaso premonição do enorme potencial de desenvolvimento futuro da viticultura e da enologia? Quem sabe. Porque, tanto quanto sabemos, está claro que as equipes de revisão do texto bíblico se relacionam mal ou não se relacionam com especialista algum em viticultura e enologia.

Assim que a uva tinta, em qualquer de suas múltiplas variedades, não é ela que produz o vinho vermelho, mas tinto, como o seu próprio nome indica. Quase parece preferível a fórmula de simplificação redundante pela qual se decantaram - na acepção de inclinar-se, tomar partido, decidir-se; não que ela tem a ver com decantar o vinho - os revisores da Bíblia das Américas: "Uma vinha de vinho; dela cantai".

"A pleasant Vineyard", reza o texto na maioria das versões inglesas clássicas. Pode ser uma vinha prazerosa, agradável? A transposição ao terreno da estética da voz "hemer" sem dúvida goza do beneplácito da colossal indústria das bebidas de cola. Mas essa voz do hebraico parece que tem mais a ver com o gustativo do que com o visual. O que se diz "pleasant", prazeroso... tem a ver com o paladar e é o fruto da vida.

"La vigna deliziosa, cantatela", anima uma recente versão em italiano (San Paolo, Milán, 1997), que melhora a olhos vistos a versão clássica (Nuova Riveduta, Roma, 1994) que fala do vinho vermelho: "Cantate la vigna del vino vermiglio." O dito, o resultado da penetração ideológica das missões anglosaxãs.

Em alemão, a versão de referência é a edição revista da Bíblia de Lutero, de 1984: "Ein lieblicher Weinberg, singet ihm zu!", onde o adjetivo lieblich, amável, está tomado da cultura de frühshopen, aperitivo dominical nas adegas de vinho branco do Reno. Nada a ver com as vinhas de uva tinta do absoluto levante mediterrâneo, as colinas de vinhedos de Israel que vêem nascer o sol da Ásia profunda e pôr-se nas águas do Mar Nostrum.

Na versão de Von Allioli (Viena, 1950) sobe de categoria a descrição do fruto da vida, ao que chama de nobre: "Der Weinberg des edlen Weines". Bem o contrário da versão de 1891 da Bíblia de Elberfeld, que descreve o vinho como feurig, ardente, fogoso: "Ein Weinberg feurigen Weines, besinget ihn!"

Os autores da versão portuguesa revisada de Figueiredo (Lisboa, 1963) sabe-se que vai ao texto: "A vinha que dá vinho puro lhe cantará louvores".

Acaso influenciada pela sóbria resistência protestante depois do extermínio de cátaros e huguenotes, a versão francesa clássica de Ségond passa com excessiva abstinência sobre o texto: "Chantez un cantique sur le vigne".

Com toda a razão a versão revistada (Villiers-le-Bel, 1978) se molha: "Entonez le chant de la vigne au vin capiteux". De onde o vinho capiteux não é outra coisa do que o vinho em barrica, em fermentação. Assim se compreende que foi a versão francesa da Bíblia de Jerusalém a que além do pão, pão, chamou o vinho, "la vigne magnifique", em alusão à "la vigne de vin en fermentation", e amime os leitores a cantar: "chantez-la!"

"Esta un hofi di wendrúif presioso, ban kant'é den un kantika". Os tradutores da Bíblia ao esperanto toparam com o adjetivo que mais justiça faz à qualidade desejável do melhor vinho, a de precioso, isto é, "excelente, esquisito, primoroso e digno de estima e apreço", segundo definição do dicionário da Língua Espanhola.

O vinho que alegra o coração, o azeite que faz brilhar o rosto e o pão que sustenta nossa vida. Eis ai a essência da cultura mediterrânea que viveu Jesus de Nazaré. Consta que não o diz um servidor, animador da cultura do vinho com algum que outro artigo sobre o resveratrol* nessas páginas ou a antocianina em Protestante Digital*. Embora as missões norte-americanas o silenciem, o diz a Bíblia, e nessa mesma ordem: vinho, azeite e pão (Salmo 104.15).

Alegria, pois, irmãs e irmãos. Está aqui acaso uma matéria pendente a ser superada no que será o primeiro Concílio cristão do século XXI, a IX Assembléia do Conselho Mundial de Igrejas, em Porto Alegre, 2006. Boa coisa será saudar, bendizer e celebrar a Assembléia... com um canto à vinha e a cata do seu fruto. Saúde!

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Manuel López, jornalista espanhol, diretor da revista Foto, consultor internacional de Imprensa. Membro da Primeira Igreja Batista de Madrí.