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Domingo, 24 de Fevereiro de 2008

Ratzinger e a América Latina

Leopoldo Cervantes-Ortiz, CIDADE DO MÉXICO, México, Maio 1, 2005

A ascensão de Joseph Ratzinger ao papado traz, entre várias perguntas inquietantes dado o seu Taxi Heathrow Airport trabalho a frente da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé (antigo Santo Ofício) em décadas passadas, a dúvida sobre o tratamento que ele vai dispensar à América Latina, à luz da sua relação conflituosa com alguns teólogos abertamente incômodos ao Vaticano.

Nota de imprensa publicada no dia 20 de abril lembrou que Ratzinger dissera certa ocasião: "Eu não sou o grande inquisidor". Mas na homilia que pronunciou na missa que deu início ao conclave ele arremeteu contra a "ditadura do relativismo que não reconhece nada como definitivo e que deixa como última medida só o próprio eu e seus desejos!"

Ironicamente, uma de suas teses doutorais foi rechaçada quando seus superiores o acusaram de "relativismo", o mesmo fenômeno que ele atacou ferozmente ao afirmar que "fora da Igreja Católica não há salvação".

A nota acrescenta que o papa defendeu nessa mensagem - na qual não citou a pobreza, a ciência, a moral sexual ou a reforma da Igreja - "um modelo de Igreja firme e conservadora, capaz de combater o marxismo, o liberalismo, a libertinagem, o sincretismo ou as seitas". Essa linguagem não deixa dúvidas, mesmo quando no instante de assumir o seu pontificado ele tenha tratado de moderar-se acerca da maneira em que atuará diante dos 'inimigos' que identifica de modo tão pontual.

A nominata de teólogos latino-americanos sancionados, processados ou chamados a Roma para prestar contas chega a uma lista de mais de 140 casos, incluindo personalidades tão representantivas como Leonardo Boff, Gustavo Gutiérrez e o bispo Pedro Casaldáliga.

Boff foi condenado a guardar "silêncio obsequioso" no início dos anos 80 por causa de suas duras afirmações no livro "Igreja, carisma e poder", no qual analisa, por exemplo e de modo polêmico, algumas das "patologias do catolicismo romano".

O teólogo brasileiro afirma no livro: "Foi um verdadeiro erro histórico a exclusão do protestantismo, não porque se excluía Lutero, mas também a possibilidade da verdadeira crítica, da contestação do sistema em nome do Evangelho (...) Nada mais alheio e contrário ao espírito evangélico do que a pretensão do sistema católico de infalibilidade ilimitada, de inquestionabilidade, de possuir certezas absolutas; ou o encapsulamento do cristianismo numa única e exclusiva expressão; ou a incapacidade para reconhecer o Evangelho se não for numa única organização eclesiástica".

Muitas vozes se levantaram por todo o mundo diante do atropelo do qual Boff foi objeto, que acabou levando-o a se separar da ordem dos franciscanos.

Sua opinião sobre o novo papa é eloqüente - pois sempre reagiu diante das acometidas do corpo guardião da ortodoxia católica, como a declaração Dominus Iesus: com Ratzinger "agravar-se-á a atual divisão da Igreja e a humilhação das igrejas nacionais sobre as quais a Cúria Romana pegou pesado nos 26 anos de João Paulo II".

Boff vê o novo papa e o coloca na esfera de um grupo de religiosos "representantes dos interesses do império que se beneficia com a globalização".

À pergunta expressa sobre a figura de Ratzinger, Boff respondeu: "É um dos cardeais mais odiados pela Igreja Católica, por sua rigidez e porque humilhou conferências de bispos e colegas cardeais com a forma autoritária que sempre tratou as questões de fé. (...) Será um papa difícil de amar".

O caso Boff converteu-se paradigmático, pois em 1984 e 1986, a instância presidida por Ratzinger publicou dois documentos dirigidos a golpear a teologia da libertação de maneira genérica e coletiva.

 Talvez a resposta melhor estruturada a esse ataque vaticano que caricaturava essa teologia (tal como escreveu o teólogo holandês Edward Schillebeeckx) proveio da pluma do teólogo jesuíta uruguaio Juan Luis Segundo, que publicou em 1985 um livro completo sobre o tema (Reposta ao cardeal Ratzinger).

As observações conjunturais de Segundo reclamavam a imparcialidade do papa nos assuntos latino-americanos: "O Sumo Pontífice, numa emocionante e emocionada intervenção em Ayacucho (Peru), urgiu e exigiu dos guerrilheiros do Sendero Luminoso que fizessem a paz e depusessem as armas. Não urgiu nem o exigiu, quando visitou a Nicarágua, das guerrilhas que, apoiadas oficialmente pelos Estados Unidos, lutam contra o Estado e o povo nicaragüense dentro e fora de suas fronteiras".

Nesse sentido, é preciso lembrar o embaraçoso incidente de João Paulo II quando visitou a Nicarágua. Na ocasião, repreendeu publicamente o poeta e sacerdote Ernesto Cardenal, e perdeu o controle diante da multidão, enquanto lia um discurso.

O ex-vice-presidente Sergio Ramírez deu sua versão do ocorrido: "Não houve concórdia nem entendimento. E os desgraçados acontecimentos ocorridos na missa campal, quando o papa pediu silêncio com voz cortante frente aos gritos de 'queremos a paz!' que surgiram dentre os sandinistas presentes na praça, enquanto um contingente de mães reclamava uma oração pelos seus filhos caídos, reverteram de modo fatal contra a revolução, na Nicarágua e no mundo". (La Jornada, 18 de abril).

Segundo reprovou Ratziner por não valorizar a teologia latino-americana como uma das conseqüências mais pertinentes do Concílio Vaticano II, pois, escreveu, se Ratzinger tinha razão, ele, junto com toda a geração de teólogos e bispos, esteve equivocado durante 25 anos. A postura do cardeal alemão contrastava com a do próprio João Paulo II, pois, em 1991, numa carta dirigida à 1. Conferência de Bispos brasileiros assinalou que a teoria da libertação não era somente útil, mas necessária para a superação das injustiças sociais.

Pelo lado protestante e ecumênico, algumas reações foram um livro coletivo do Departamento Ecumênico de Pesquisas (novembro de 1984) e um amplo ensaio de Luis Rivera-Pagán (outubro de 1986).

No primeiro, Julio de Santa Ana analisou as consultas e a discussão ausente no documento vaticano e viu como nele se colocava um problema ecumênico por causa da presença da teologia da libertação em outras igrejas cristãs latino-americanas.

Rivera-Pagán fez uma retrospectiva crítica da recepção do documento. Rubem Alves, em outros espaços, publicou o poema "Silêncio" em solidariedade a seu compatriota.

Gustavo Gutiérrez assumiu uma postura mais moderada, mesmo quando recebeu o apoio dos bispos peruanos e, inclusive, de Karl Rahner, que assim se expressou: "Preciso manifestar a minha mais alta estima que tenho pelo trabalho teológico de Gustavo Gutiérrez. A teologia da libertação que ele representa é de todo ortodoxa (...) Uma condenação de Gustavo Gutiérrez teria, essa é minha plena convicção, conseqüências muito negativas".

Gutiérrez optou por seguir sua vida sacerdotal num perfil mais baixo, embora não deixasse de publicar seus livros e ensaios.

Nesses dias veio à luz novamente o testemunho do bispo Casaláliga acerca de seu tratamento com Ratzinger. "Ninguém poderia esperar que saísse um papa revolucionário", afirmou o bispo ao tomar conhecimento do anúncio do novo pontífice. Casaldáliga, poeta e bispo, não aceitou fazer as visitas "ad limina apostolorum" ao Vaticano, que todos os bispos devem fazer a cada cinco anos.

Como registra a revista mexicana Proceso, em 1988 Casaldáliga escreveu uma carta ao papa João Paulo II para que ele tomasse conhecimento da sua insatisfação pelo tratamento que a Cúria Romana dava aos sacerdotes da teologia da libertação.

Meses depois, Casaldáliga recebeu uma convocatória de Ratzinger para ir a Roma. Ele narra: "Vivi-o com certo humor. É preciso afrontar os problemas da Igreja com muita esperança. Foi um momento pitoresco", lembra hoje Casaldáliga.

Ratzinger perguntou-o se aprovava o documento do Vaticano sobre a teologia da libertação. "Aceito os dois", respondeu Casaldáliga, lembrando assim que ao documento duríssimo preparado pelo atual Pontífice - Instrução sobre alguns aspectos da Teologia da Libertação - o Vaticano havia agregado outro, com mais matizes, que reconhecia que "a opção pelos pobres" desses teólogos e sacerdotes aparece repetidas várias vezes na Bíblia.

Talvez a decisão mais surpreendente chegou em 1989, quando a gigantesca Arquidiocese de São Paulo, que abarcava toda a metrópole de 20 milhões de habitantes, foi dividida em seis regiões episcopais. Desse modo, se liquidificou o poder e influência do cardeal Paulo Evaristo Arns, uma das figuras mais importantes da corrente progressista no Brasil.

"Podemos rezar juntos o Pai-Nosso" - pediu Casaldáliga ao cardeal Ratzinger, depois do intenso interrogatório ao qual foi submetido em 1998. "Para quê? Para revolucionar a Igreja?"- contestou um adusto Ratzinger. "Sim" - retrucou Casaldáliga. "E rezamos juntos como bons irmãos", lembra o "bispo vermelho".

Antes, Ratzinger perguntara a Casaldáliga por quê dissera na Nicarágua que era preciso revolucionar a Igreja e revolucionar a sociedade.

Por último, será preciso ver as ações que Ratzinger empreenderá frente ao crescente avanço do protestantismo e outros movimentos religiosos no continente, pois se ele continuar acreditando que as "seitas" são um inimigo visível, o notável aumento no número de deserções dentro do catolicismo não se resolverá apenas com esse tipo de crítica, pois o carisma de João Paulo II e suas freqüentes visitas não puderam deter tal fenômeno.

Phillip Jenkins, catedrático da Universidade de Pennsylvania, citado pela agência Reuters, observou: "Um dos dois ou três grandes temas com os quais o novo papa terá que lidar será de tratar de impedir que esses dez por cento de protestantes se convertam em 50".

A nota acrescenta: "As limitações da Igreja Católica para manter-se em dia com as tendências sociais na América Latina, especialmente a migração do campo para as grandes cidades de crescimento rápido, permitiu às pequenas igrejas protestantes ganhar fiéis".

Trata-se, pois, de um desafio de enormes dimensões.