Voltar ao início

Quinta-feira, 8 de Novembro de 2007

Deus é brasileiro, embora o papa seja alemão

Edelberto Behs, SAO LEOPOLDO, Brasil, Abril 22, 2005

Fui convidado a analisar as três últimas semanas de abril e o fenômeno de mídia Taxi Heathrow Airport que se traduziu na corrida da imprensa de todo o mundo a Roma para a cobertura dos funerais do papa João Paulo II e, depois, da escolha do novo Sumo Pontífice.

- Como avalias a cobertura da imprensa brasileira a respeito? - perguntou-me um aluno da turma de Redação Jornalística do curso de Jornalismo da Unisinos.

A mídia brasileira não fugiu à regra. Assim como veículos de outros países, ela esteve presente nos funerais e na escolha do novo papa. Tivemos quase que uma cobertura inflacionada. Matéria divulgada pelo Globo Online dá conta do tamanho dessa cobertura.

Até 72 horas depois do anúncio da morte do papa foram escritas 75 mil reportagens, segundo o monitoramento da Global Language Monitor, uma associação de lingüístas que identifica as tendências do uso das palavras e sua influência sobre a cultura.

O nome do pontífice foi citado 5,6 milhões de vezes no período, superando em quase três vezes as menções aos ataques terroristas de 11 de setembro, e cerca de dez vezes a reeleição do presidente George Walker Bush no mesmo espaço de tempo.

Em todo o ano de 2004, foram escritas 28 mil novas reportagens sobre o papa, que teve 1,5 milhão de citações, o que atesta, de certa forma, o carisma midiático que João Paulo II desenvolveu.

No caso da imprensa verde-amarela, a overdose da cobertura é como se ela quisesse desculpar-se por não dar a devida atenção ao fenômeno religioso no dia-a-dia nas redações.

Trata-se de um caso interessante. O povo brasileiro é super religioso. Segundo o último censo demográfico, apenas um pouco mais de 7% da população brasileira, hoje estimada em 182 milhões de pessoas, declararam-se ateus ou sem-religião. É o segmento que mais cresceu nos últimos anos, mas ainda assim há 170 milhões que são católicos, evangélicos, umbandistas, kardecistas, islamitas, judeus, budistas... mesmo que não o manifestem em cultos regulares.

Apesar do grande contingente de pessoas crentes, nenhum jornal brasileiro tem uma editoria de religião. No entanto, pode-se ler em suas páginas, nas edições da semana, os índices das bolsas de São Paulo, de Nova Iorque, de Tóquio ou de Frankfurt. Seguramente, não chega a 0,01% da população brasileira os que aplicam em bolsas de valores. E os que o fazem com toda certeza assinam publicações especializadas.

Brasileiros de todos os matizes religiosos torciam por um papa brasileiro. Até o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o vice-presidente da República,  José Alencar, assim o manifestaram. A imprensa plantou no coração de brasileiros e brasileiras a esperança de ter um cardeal das terras de Pindorama ocupando o ministério petrino.

Jornais chegaram a vasculhar, por exemplo, as origens, gostos e trajetória de um dos que eram mencionados como papável - Cláudio Hummes, natural de Montenegro, cidade que fica a 70 km de Porto Alegre. E gente do povo, quando entrevistada pela reportagem da televisão, parecia que referia-se a um time de futebol, tal a torcida por um papa brasileiro.

Passada a expectativa do anúncio do novo papa, descobre-se que o bairrismo impregna a condição humana, mesmo em tempos de globalização. Assim, o jornal Die Welt estampou na capa "Um alemão eleito papa" e o Bild não deixou por menos: "Nós somos papa".

Quem achava que a nacionalidade de Joseph Ratzinger era irrelevante, ou quem o via como um homem da igreja mundial, terá que, após a eleição do papa, reciclar-se. Sobre o que pensa ou fará o novo papa, para a imprensa alemã e para políticos é importante que Bento XVI seja um alemão, escreve o articulista Christian Semler no "Die Tageszeitung", de Berlim.

A rivalidade bairrista chega ao desconforto da dignidade pessoal e destampa conflitos do passado. Ousado e sem demonstrar grande respeito ao Sumo Pontífice, o jornal sensacionalista londrino Daily Mirror saiu com a manchete na capa: "Ratzinger, God's rottweiler" (Ratzinger, o rotweiler de Deus).

Mais despeitada foi a capa do concorrente Sun: "From Hitler youth to Papa-Ratzi" (Da juventude hitlerista a Papa-Ratzi, fazendo um jogo de palavras com o diminutivo do sobrenome do novo papa. Sabe-se que Ratzinger aderiu à juventude hitlerista por uma contingência escolar que jamais o deixou à vontade).

As duas capas dos jornais sensacionalistas da Inglaterra motivaram reações de colunistas alemães. Anja Strauss, do Bild, disse que "ingleses insultam papa alemão". E Franz-Joseph Wagner reagiu de maneira quase patética na coluna que mantém no Post: "Quem lê esses jornais sensacionalistas ingleses pode pensar que Hitler ficou papa. (...) As manchetes de vocês fedem a enxofre, a ovos podres. (...) Aliás, isso só pode ocorrer ao diabo. Ou, infelizmente, a vocês ingleses complexados".

Bom, em outras latitudes, onde o nacionalismo exacerbado levou ao desastre do Holocausto, o brio da pertença a uma nação também corre pelas veias de algumas mídias. E fico me imaginando como seria, para nós brasileiros, se a escolha do Colégio de Cardeais tivesse elevado ao trono de Pedro um papa argentino, ou vice-versa! Rivalidade, claro, nascida nos campos de futebol.

Enquanto isso, em Pindorama continuamos certos de que Deus é brasileiro, embora o papa seja alemão.