Eleição de Bento XVI suscita esperança e frustração
Micael Vier B., SAO LEOPOLDO, Brasil, Abril 19, 2005
O bispo primaz da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB), dom Orlando Santos de Oliveira, Taxi Heathrow Airport manifestou sentimento de frustração quanto à escolha do cardeal alemão Joseph Ratzinger como novo líder da Igreja Católica Apostólica Romana.
"Esperávamos outro nome, embora soubéssemos da continuidade", disse, emendando: "O papa João Paulo II foi eleito de novo".
Dom Orlando lembrou que Ratzinger, embora seja um teólogo brilhante, foi responsável pela punição de 140 teólogos vinculados à Teologia da Libertação. No entanto, arrolou o bispo primaz, a unidade da igreja transcende ao papado. Como desafios a serem superados pelo pontificado de Bento XVI o primaz citou a caminhada ecumênica e o diálogo da igreja com a ciência.
Já a secretária geral da IEAB, Christina T. Winnischofer, destacou que Bento XVI irá resgatar tradições abandonadas pela Igreja, graças à sua característica conservadora. Mas também poderá afastar a igreja da compreensão dos avanços da ciência e do direito à sexualidade, que envolve questões como uso de contraceptivos e preservativos.
Winnischofer acredita numa igreja-irmã que caminhe com todas as classes sociais, mas em especial com as menos favorecidas, ajudando-as na defesa dos direitos humanos. "Esperamos que o diálogo entre as igrejas cristãs e o diálogo inter-religioso estejam na pauta do novo pontífice, e que ele continue estreitando laços de afeição", anotou.
O compromisso da Igreja Católica em relação à continuidade das relações ecumênicas foi reforçado pelo Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC). Em nota assinada pelo secretário executivo, pastor Ervino Schmidt, o CONIC "deseja ao novo papa muita força e determinação na implementação das decisões assumidas pelo Concílio Vaticano II" e expressa confiança de que o ecumenismo seja "uma prioridade e um compromisso irreversível".
Em declaração à ALC, o presidente do CONIC, bispo metodista Adriel de Sousa Maia, disse que Ratzinger, enquanto assessor direto de João Paulo II, demonstrou posições bastante conservadoras. No entanto, anotou, a história tem mostrado que uma coisa é ser arcebispo e outra é ser papa.
Sousa Maia mencionou a possibilidade de Bento XVI convocar um Concílio Vaticano III com o propósito de avaliar a vida e a missão da Igreja Católica neste século. "A própria ala progressista da Igreja Católica exige uma maior abertura quanto à eclesiologia, quanto ao estudo da igreja", disse o bispo metodista.
O pastor presidente da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), Walter Altmann, emitiu mensagem de congratulações à Igreja Católica pela eleição de Bento XVI. Ele deseja que o papa recém-eleito dê um novo impulso às relações ecumênicas, no espírito do Concílio Vaticano II.
Também espera que o novo pontificado consiga dar desdobramentos práticos decorrentes da Declaração Conjunta Católico-Luterana acerca da Doutrina da Justificação, como a hospitalidade eucarística, o reconhecimento mútuo dos ministérios, "incluindo o diálogo acerca da ordenação de mulheres que a IECLB pratica".
O presidente da Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB), Carlos Winterle, entende que o pontificado de Ratzinger será uma continuidade da liderança exercida por João Paulo II. "Não haverá mudanças na Igreja Católica", frisou Winterle.
Na avaliação do presidente da IELB, Ratzinger continuará proibindo a ordenação de mulheres, o controle artificial da natalidade, o casamento de padres e o uso da camisinha no controle da Aids.
Winterle destacou que o cardeal alemão, na condição de Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé no pontificado de João Paulo II, exerceu a função antigamente ocupada pelo maioral da Inquisição. "Nesse pontificado, linhas progressistas e renovadoras não terão vez", vaticinou.
"Estou perplexo", declarou o teólogo Fernando Altmeyer Junior, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), para um canal de televisão do Brasil. Altmeyer confessou que sabia da força do cardeal Ratzinger como eleitor, não como elegível.
O teólogo Leonardo Boff, que foi condenado ao silêncio obsequioso pela Santa Sé, disse para a agência Adital que a era "invernal", que caracteriza hoje a Igreja Católica, vai se prolongar com o novo papa, só que de forma ainda mais dura porque Bento XVI não terá o mesmo carisma de João Paulo II. "É um homem voltado para dentro da Igreja e a protege como um bastião. Essa estratégia está fadada ao fracasso", definiu.

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