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Segunda-feira, 29 de Outubro de 2007

Juan Damián, diretor da Escola Latino-Americana de Evangelizaçao do CIEMAL [Foto: FOS]
Juan Damián, diretor da Escola Latino-Americana de Evangelizaçao do CIEMAL [Foto: FOS]

Consumolatria

Juan Damián, MONTEVIDÉU, Uruguay, Abril 14, 2005

Isto de fazer do religioso um mercado não é um invento moderno. Desde os tempos Taxi Heathrow Airport remotos do Antigo Testamento o ser humano engenhou-se para tirar muito mais benefícios do que despender custos da religião.

Episódios abundam do Gênesis ao Apocalipse em que Deus é envolvido, empacotado e vendido barato, para não dizer liquidado a preços mínimos. Os profetas se encarregam, com freqüência, de denunciar que costumes ou atos religiosos, ao invés de expressarem o bem, cobrem o mal, sejam jejuns, orações ou penitências.

Nós não costumamos insistir demasiado nas atitudes, gestos ou palavras de Jesus, nas quais ele critica severamente a comercialização do religioso, sabe lá por quais resistências inconscientes.

Ao final das contas, a hipocrisia pode ser um rentável negócio. Se não, perguntemos aos fariseus de todas as épocas. Parece que com a hipocrisia pode-se conseguir não só dinheiro, mas também privilégios, prestígio, poder e outras coisas.

A tentação comercial do religioso parece estar sempre à espreita. Os mercadores não só estavam no templo nos tempos de Jesus. Lutero encontrou-os na Europa vendendo lotes, prédios e terrenos celestiais em cômodas cotas de indulgências.

Porém, hoje os evangélicos não querem ser menos e convertem as igrejas, com sobrada eficiência, em bancos de seguros, bolsas de valores, supermercados atraentes.

Trâmite urgente de conversão

Já não prometemos o céu no céu como as indulgências, mas sim o céu na terra, oferecendo a prosperidade e toda classe de bênçãos divinas em troca de generosas oferendas e não tão desinteressadas doações.

Neste mundo globalizado, o marketing contagia fluidamente e invade todas as áreas da vida. E não por acaso a religião é muito sensível para brindar promessas de todo tamanho, embalagem, cor e custo.

Em nosso afã desmedido - às vezes muito agressivo - de captar prosélitos em trâmites urgentes de conversão, o evangelismo volta-se à propaganda de um Cristo que dá, facilita e resolve tudo sem reclamar nada. E sem o querer, a Bíblia converte-se num livro mágico de receitas, capaz de seduzir aos mais pobres, débeis, desamparados e excluídos de nosso mundo. Porque é fácil cativar os desesperados.

Cristo não resolve os nossos problemas, nem nos desprende automaticamente dos conflitos, porém a fé, a esperança, a confiança, a vontade que ele desperta, o testemunho de seu amor e o exemplo de sua vida é uma muito Boa Notícia, que nos ajuda a enfrentá-los e resolvê-los.

Vamos mais a fundo. O encontro com Cristo, como os que ocorrem no Evangelho, implica uma mudança. A gente volta diferente. Mas não é uma transformação tão íntima, "espiritual", privada, que ninguém a nota. Não. Os demais o vêem diferente. É na sociedade, no mundo, em meio ao povo e às pessoas que o convertido, o "nascido de novo" aparece diferente.

Mudamos nós ou a Cristo?

A conversão é um fato pessoal que se torna público. É nas novas atitudes, nos novos valores, no novo modo de viver que o converso se torna testemunho, discípulo de um Cristo que faz tudo novo.

Porém, nós atuamos às vezes ao revés. Mudamos o Cristo e o fazemos à nossa imagem, necessidade ou interesse nosso ou da Igreja. Apresentamo-lo de uma maneira facilmente convincente a nossos interlocutores. E este Cristo caprichoso transforma-se num apetecível produto de consumo.

As pessoas não o descobrem, compram-no e o consomem. A religião distribui-o porque adquiriu sua consignação exclusiva. E o pacote já está elaborado com vencimento eterno. Claro, sempre terá que passar pelo caixa, mas as vantagens são cada vez mais atraentes.

A este Cristo, que parece não confrontar nem fazer pensar, a gente não o compartilha com outros em comunidade. Consumimos-o ansiosamente como indivíduo.

Não há processos, diálogos, tempos, aprendizado senão trâmite rápido como ter acesso a um documento. Queres? Levanta a mão e já está resolvido.

Tudo isso, é claro, é caricatura. Mas as caricaturas não mentem, só exageram os defeitos da realidade para melhor distingui-los.

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Juan Damián. Coordenador da Escola Latinoamericana de Evangelização do Conselho de Igrejas Evangélicas Metodistas de América Latina e do Caribe (CIEMAL).