
Suborno do Divino
Oneide Bobsin, SAO LEOPOLDO, Brasil, Março 23, 2005
Quando os espanhóis chegaram ao nosso continente, que mais tarde passou a se chamar continente Taxi Heathrow Airport americano, espantaram-se com os sacrifícios de seres humanos para fertilizar a terra. Acusaram, então, os nativos de selvageria e violência contra a vida de seres humanos.
Em contrapartida, em nome da fé que traziam, os espanhóis derrubaram altares, construindo sobre os mesmos novos templos nos quais se praticavam outros sacrifícios. Por meio desses sacrifícios "civilizados", justificavam a morte de milhares de indígenas nas minas de ouro e prata.
Assim, novas formas de sacrifícios, religiosos e/ou secularizados, foram se sucedendo em nosso continente. E no âmago de todas elas estava a idéia da troca. Comunidades ou pessoas procuram alcançar as graças de Deus ou dos deuses através de sacrifícios e oferendas com o intuito de aplacar a cólera divina e obter o favor do altíssimo. A oferta humana atrai bênçãos. O divino, satisfeito com as oferendas ou sacrifícios de sangue,devolve a oferta multiplicada. Subornado pela oferta, a divindade se acalma.
Transcendendo as religiões, o suborno do divino se diluiu em todo o tecido social, encontrando nas relações de poder um espaço favorável para se manifestar com um rosto menos religioso. Em nosso continente práticas políticas ainda estão marcadas pela troca e pelo favor. Políticos e autoridades colocam-se como mediadores, trocando os favores por votos. Nessa troca desigual, os pobres são sacrificados no altar da iniqüidade de nosso sistema.
Resultado, temos poucos cidadãos. A maioria das pessoas continua sob a tutela de despachantes políticos que dificultam o avanço das idéias que se pautam pelo exercício dos direitos já garantidos pelo sistema legal.Como os deuses, as autoridades e os políticos devolvem favores, após sorverem o sangue do povo pela exploração e a exclusão.
Por esta razão, é fundamental que nesta Semana Santa as comunidades cristãs professem que o sacrifício de Cristo é único e irrepetível.Assim lemos em Hebreus 10.10: "Nessa vontade é que temos sido santificados, mediante a oferta do corpo de Jesus Cristo, uma vez por todas". Assim, o sacrifício de Cristo é o fim de todos os sacrifícios. Não necessitamos reproduzi-lo em igrejas e religiões, muito menos em nossa relações de poder. Deus não se deixa subornar.
Logo, o caminho para a democracia está livre de despachantes políticos e sacerdotais. A cidadania na fé, que se expressa na política libertadora, encontra apoio nas palavras do profeta Amós, ditas muitos séculos antes de Jesus: "Aborreço, desprezo as vossas festas e com as vossas assembléias solenes não tenho nenhum prazer. E, ainda que me ofereçais holocaustos e vossas ofertas de manjares, não me agradarei deles, (...) Antes corra o juízo como as águas; e a justiça, como ribeiro perene (...)" (Amós 5.21-27).
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Oneide Bobsin. Pastor da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil e professor de Ciências das Religiões da Escola Superior de Teologia de São Leopoldo/RS/Brasil.

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