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Quarta-feira, 7 de Novembro de 2007

Igrejas não têm o "copyright" de Jesus, diz professor

Micael Vier B., SAO LEOPOLDO, Brasil, Março 11, 2005

Os diversos retratos de Jesus Cristo no cinema sempre estiveram sujeitos a um determinado tempo Taxi Heathrow Airport histórico, interpretações e conflitos pessoais de cada diretor. Seja ele um hippie, um galã norte-americano ou um homem banhado em sangue, a verdade é que a figura de Jesus Cristo suscitou e suscita polêmica e controvérsia.

A análise é do professor e teólogo anglicano Carlos Eduardo Calvani, que, a convite do Instituto Humanitas, apresentou para a comunidade acadêmica da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), ontem, o ensaio "Jesus no cinema".

Calvani assinalou que as igrejas cristãs sempre acreditaram possuir o "copyright" da figura de Jesus, antigamente retratada em vitrais, quadros e retábulos. Lembrou que a Igreja Católica inclusive impediu o desfile de  carro alegórico da escola samba Beija-Flor de Nilópolis por retratar um  Jesus mendigo, além de tentar proibir a exibição do longa metragem "Je vous salue, Marie", de Godard, em 1986.

Em relação à última polêmica cinematográfica envolvendo a figura de Jesus, Calvani admitiu que "A Paixão de Cristo" é fruto da indústria cultural, mas considera o filme de Mel Gibson uma obra de arte. "Foi muito bem enquadrado, com figurino impecável, ótima fotografia, jogo de câmera inusitado e sonoplastia poderosa", arrolou.

Quanto ao aspecto da violência contida na obra de Gibson, em que Jesus apanha incessantemente, Calvani disse que o uso da força é uma característica dos tempos atuais. "A Paixão de Cristo expõe a fragilidade com que a vida humana vem sendo tratada", afirmou.

Outro filme polêmico foi "A última tentação de Cristo", do diretor e ex- seminarista Martin Scorsese (1988). Na obra, Scorsese reproduz a imagem de um Jesus solitário, confuso quanto à sua identidade e vocação. Sua última tentação teria sido descer da cruz e vir a ser um homem comum, com filhos, amado por Maria Madalena. E se Jesus realmente tivesse se casado, isso faria diferença na história? - questionou Calvani.

Tanto católicos quanto evangélicos criticaram Scorsese por levantar a hipótese de que o Filho de Deus pudesse ter sido cometido pela idéia de levar uma vida sexual normal, casar-se e ter filhos. As feministas também questionaram o diretor por retratar a mulher de maneira negativa. No filme, o anjo feminino da estória revela-se um demônio.

Na ótica do professor da Unifil, o filme que melhor espelha a imagem do Filho de Deus é "Jesus de Montreal", do diretor canadense Denys Arcand. A obra faz críticas severas à indústria cinematográfica, à igreja e à sociedade de consumo. Recorrendo a uma roupagem moderna, Arcand consegue, através das experiências de Daniel Coulumbe (interpretado por Lothaire Blutheau), desvincular a comunhão de Jesus das instâncias eclesiásticas.

Calvani recordou que a vida de Jesus inspirou célebres produções cinematográficas, como a de Cecil B. DeMille com o "Rei dos reis", de 1927. Nos anos 50 do século passado, a figura do Mestre começou a aparecer de forma tímida em filmes como Quo Vadis, de 1951, e Ben Hur, de 1959.

Todas as narrativas que chegam ao público pelas telas a respeito do Salvador, enfatizou o professor universitário, são representações. Mesmo os evangelhos são, por si, interpretações da pessoa de Jesus e de seu impacto, escritas pelas comunidades que o receberam como o Cristo.

O evento Cristo, salientou Calvani, não pode ser dominada por igreja alguma. Ele enalteceu a nova perspectiva de Jesus proposta por Arcand. "Jesus não pertence à igreja, mas a igreja pertence a Jesus", concluiu o teólogo anglicano.