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Segunda-feira, 29 de Outubro de 2007

Jaime Ortiz, pastor e ex membro da Assembléia Constituinte de 1991.
Jaime Ortiz, pastor e ex membro da Assembléia Constituinte de 1991.

Atualidade política e religiosa

Entrevista: William Delgado, BOGOTA, Colombia, Março 4, 2005

O ex-integrante da Constituinte, pastor Jaime Ortiz Hurtado, que teve importante papel no Legislativo de Taxi Heathrow Airport 1991 e foi o redator da Lei de Liberdade Religiosa na Colômbia, falou, em entrevista exclusiva para a ALC, sobre a atualidade política e religiosa.

Advogado de profissão, Ortiz assinalou que o seu trabalho como constitucionalista pretendeu ressaltar a influência dos cristãos na política e na sociedade. Além de lecionar teologia no Seminário Bíblico da Colômbia, Ortiz é pastor da Igreja Presbiteriana Orbe, em Medellín.

“Estou muito comprometido com a congregação de forma voluntária, porque já sou aposentado. O ministério realmente foi minha vocação de toda a vida”, disse. A seguir, as opiniões do pastor.

ALC: Você pertenceu ao Movimento União Cristã (MUC). Esse movimento tem futuro?

Ortiz: Se não estivermos, como filhos de Deus, para servir-Lhe neste país, buscando uma mudança de mentalidade, de orientação e verdadeiro sentido ético não-demagógico – já basta de corrupção -, e se um cristão dá o braço a torcer ou simplesmente aspira a postos, ganho extras ou benefícios, ou em conquistar alguma coisa do Estado e não para servi-lo, servir a nação, mas servir-se dela, não vou nesse passeio.

Não creio que tenha futuro, nem creio que é o futuro que se deve prospectar para um movimento que tenha o qualificativo tão elevado, nobre, sublime e sagrado como é o de ser cristão. Um movimento que usa o nome de Cristo, que usa o nome do evangelho para alcançar fins politiqueiros tradicionais deve ser descartado.

ALC: Você acredita que seja necessária a unidade do Partido Nacional Cristão (PNC), o Movimento União Cristã e o C4, levando em conta o umbral que a reforma eleitoral coloca?

Ortiz: Creio que acerta na descrição de uma problemática séria, que talvez não se tenha enfrentado, não se tenha analisado, para poder resolvê-la.

Enquanto que a querida família evangélica não tiver um sentimento e um compromisso de maior identificação com a unidade, não teremos nenhum futuro.

Se a União Cristã é a desunião dos cristãos, e que parece ser que é isso mesmo, então creio que não é por aqui, mas antes essa união significará desprestígio para a família cristã evangélica, o que não precisamos e que talvez não mereçamos.

O pastorado não se conscientizou da importância cívica e cidadã que o povo cristão tem na Colômbia. Não se conscientizou e permite, antes, que o pastorado e a grei dos membros das igrejas, sejam usados, manipulados, comprados e vendidos pelos políticos de plantão. Isso é muito triste, penoso, e vergonhoso, inadmissível para a vida espiritual e para a vida do verdadeiro cristão.

Precisamos mais políticos, precisamos pessoas diferentes. Enquanto o povo de Deus não colaborar com a Colômbia apresentando-lhe pessoas diferentes para serem candidatos, para serem funcionários públicos, para serem líderes comunitários, pessoas que sejam garantia de honestidade, não teremos o espaço que devemos ter.

ALC: Existe uma pessoa com essas características, que possa representar os cristãos na política?

Ortiz: Não posso ser juiz de meus irmãos, nem de minha querida família evangélica na Colômbia. O que devo expressar com tanta convicção, como o estou fazendo, é minha aspiração do que deve ser do povo cristão diante da sociedade colombiana e em particular com relação ao compromisso político.

Eu esperaria que dos que se candidatarem para a política deveria haver uma consciência e um compromisso muito solene, muito sério de não frustrar, sob pena da vergonha para todo o povo colombiano. Como disse um senador romano quando caiu Julio César na Gália: “Honoráveis senadores, que caída houve então, nós e eu, todos caímos”.

Quando um evangélico se atreve a representar o povo cristão e a levar o nome cristão, de qualquer denominação, ele está ocupando um lugar muito delicado. Esses irmãos pela profissão da fé em Cristo não nos deviam envergonhar dizendo que nos representam no Senado ou na Câmara, em nada. Eles deveriam primeiro receber a palavra de Jesus: “Médico, cura-te a ti mesmo”. Não a adoentemos mais.

ALC: Como um dos gestores da Constituição política de 1991, você acha viável a reforma da mesma para a reeleição presidencial?

Ortiz: Dentro da dinâmica política e social do país é próprio fazer sérias modificações à Carta Magna que rege o momento. Creio que uma constituição não deve ser uma camisa de força; ela deve ser dinâmica, que facilite a resposta que institucionalmente o Estado deve dar à dinâmica social.

Considero que esse fenômeno ou essa figura jurídica da reeleição não é apenas viável, mas, a juízo dos estudos da economia, da sociologia, da avaliação que se faz da presente administração, é o mais recomendável. Considero que é uma resposta afortunada e muito oportuna. Não creio que seja um sacrifício jurídico, mas uma resposta institucional do direito à realidade política e social do povo colombiano sob a atual administração.

ALC: Que possibilidades existem de você vir a integrar uma equipe assessora dos novos políticos cristãos?

 Ortiz: Evidentemente, de acordo com a minha experiência e trabalho acadêmico, me agradaria muito ocupar um espaço como assessor, conselheiro, orientador e de enriquecimento no campo ideológico, a partir da perspectiva cristã evangélica. Sou um pastor, sou advogado constitucionalista, mas o meu coração e a minha vida estão no ministério cristão. Tenho a perspectiva evangélica da política.

Tenho uma reserva e não gostaria de ser utilizado por candidatos para que, com o nome de Jaime Ortiz Hurtado, alcancem um espaço. Não estou interessado em apoiar campanhas políticas que careçam de conteúdo. Não creio que a mera atividade eleitoral encerre a responsabilidade que o cristão tem para com a política.

ALC: Você concorda que pastores exerçam o pastorado e a política?

Ortiz: Escrevi um par de livros: “Quem são os evangélicos” e “Por que os cristãos na política?”. Tenho todo um capítulo sobre esse tema e a minha resposta é negativa. Não, um pastor em exercício do pastorado nunca deve acompanhar o ministério cristão com a política.

Se tiver vocação e se tiver dom nesse campo, pois a tarefa com senador, representante na Câmara não é o mesmo que um púlpito, não se esqueçam, é diferente. Ali há uma responsabilidade específica, econômica, trabalhista, educativa, social. Se não conhecer e não tiver vocação para tratar, para trabalhar, para ilustrar-se, não o faça, não se meta ali: não vá o sapateiro além das sapatas.

Tampouco pode dividir o ministério da igreja com o ministério pastoral. Se tiver vocação e é competente para o campo político, que deixe o púlpito, deixe o pastorado, deixe que outros irmãos cuidem da grei e então, sim, vá exercer de modo eficiente a política.

ALC: No dia 17 de fevereiro passado você perdeu Janeth, sua esposa, brasileira, com quem viveu durante 42 anos e com que teve dois filhos. O que pode nos contar dessa experiência?

Ortiz: Foi uma experiência de muita felicidade, de amor, embora tivesse também sofrimento por causa da doença da minha esposa, mas, apesar do dolorido dessa situação e de perder uma pessoa tão próxima, posso testemunhar que na bondade de Deus temos tido tranqüilidade e paz.

Não estive ausente do ministério, mas bem longe de algumas esferas e responsabilidades tradicionais, as quais levo no coração, porque o ministério que o Senhor me permitiu desempenhar na área política foi uma edificação muito grande.