![Leonardo Boff, teólogo da Libertação, critica ao Papa. [Foto: Paulino Menezes/WCC & LWF ]](/picture/Boff.jpg)
O ser humano é a própria terra
Entrevista: Micael Vier B., PORTO ALEGRE, Brasil, Fevereiro 1, 2005
Defensor dos fracos e oprimidos, Leonardo Boff é um dos principais teólogos da libertação conhecidos Taxi Heathrow Airport no Brasil. Autor de mais de 60 obras abordando a temática da teologia, espiritualidade, antropologia, filosofia e mística, Boff participa, em Porto Alegre, de 21 e 25 de janeiro, do I Fórum Mundial de Teologia e Libertação (FMTL), encontro que antecede o V Fórum Social Mundial (FSM).
Em sua intervenção durante o encontro, que reúne mais de 200 teólogos de todo o mundo, Leonardo Boff tratou sobre o lugar e as possibilidades da utopia hoje.
ALC: De que maneira as religiões podem colaborar para a superação da crise econômica, social, política e ecológica que aflige a humanidade?
BOFF: A natureza das religiões é propiciar o amor, a solidariedade, a compreensão, a compaixão aos que mais sofrem, com quem é pequeno e especialmente à reverência a tudo aquilo que é sagrado.
Primeiro, a divindade a Deus, também ao sagrado da criação, porque cada coisa que existe e que vive merece existir, merece viver. Na medida em que as religiões incentivam essas atitudes, elas são profundamente humanitárias, conduzem ao diálogo, à tolerância e à soma de forças para que as dimensões de sombra e de desumanidade que marcam profundamente a história não ganhem hegemonia, não sejam mais forte do que essas dimensões iluminadas.
ALC: Como o homem poderia resgatar os valores provenientes do culto à terra e à família?
BOFF: Com referência à terra é importante que o ser humano tenha consciência daquilo que está presente na palavra “homem”. Homem vem de homus, que significa terra boa, terra fértil.
Nós somos filhos e filhas da terra. A terra não está fora de nós, a terra está em nós. E eu diria mais. O ser humano, o homem e a mulher, é a própria terra, que no processo da sua evolução em milhões de anos chegou a um ponto em que ela começou a sentir, a pensar, começou a amar, começou a venerar.
Nós somos terra. E defender a terra é defender a nós mesmos. A própria tradição bíblica pensa assim, dizendo que o primeiro ser humano era Adão. Adão vem de Adaman, que em hebraico significa terra boa, fecunda.
Então, o ser humano é a terra e na medida em que resgatamos essa memória sagrada compreendemos que entre a terra e nós não há um fosso, mas uma profunda unidade.
Além disso, a terra é a única casa comum que temos para morar. Não temos outra. A terra nos alimenta, nos proporciona a água, os frutos. Sem a terra nós nada somos, nascemos da terra e a terra nos acolhe quando morremos. Então, a terra é tudo para nós e precisamos nos unir à terra e não nos considerarmos fora dela e acima dela, dominando-a.
ALC: Nesta quarta-feira, dia 26, tem início o V Fórum Social Mundial (FSM). O que esse encontro representa para a construção de um novo mundo possível?
BOFF: Esse encontro mostra que existe uma humanidade sensível, indignada em relação à situação atual de pobreza, miséria e devastação da natureza.
O Fórum indica que existe uma sociedade civil mundial. Não existe somente uma comunidade política das nações. Existe uma comunidade civil, isto é, pessoas das muitas sociedades mundiais que estão tendo o mesmo sonho, que têm a mesma perspectiva de atuar para que a humanidade seja mais humana, par que ela reparta melhor os bens.
Esse encontro também sinaliza que não estamos condenados a viver no atual estágio de barbárie, mas que é possível humanizar as relações e fazer com que essa casa inclua a todos. Porque nem todo mundo está dentro da casa.
Muitos estão à margem, excluídos, morrendo de fome, sem água potável, sem os remédios suficientes, sem a chance de se comunicar com os outros seres humanos.
Então, o Fórum Social Mundial representa esse grande sonho que está na humanidade, uma espécie de concha acústica que recolhe esses gritos, essas demandas, clamores e transforma tudo isso numa mensagem para toda a humanidade. Por isso o FSM é tão importante quanto qualquer outra reunião política que se faz no mundo.
ALC: Ao término de 2004 o governo petista chegou à metade do seu mandato. Pode-se dizer que o medo venceu a esperança ou foi a esperança que superou o medo?
BOFF: Eu creio que esse governo trouxe muitas vantagens em relação aos governos anteriores. Os governos anteriores se orientavam por um Estado mínimo, pela privatização, pela adequação à globalização.
E isso prejudicou enormemente a economia nacional, os movimentos sociais, a saúde e a educação. O Lula está colocando o acento no Estado Social, do Fome Zero, da Bolsa Família, da reforma agrária, nas mudanças da estruturação do Estado.
Então, é um governo de transição de um tipo de Estado para outro tipo de Estado. Agora, como em toda a transição, existe um elemento de continuidade e um elemento de novidade. A continuidade é a manutenção do plano da macroeconomia, para criar estabilidade e conquistar a confiança.
Já a novidade reside exatamente na orientação social do governo. A questão é em que medida essa continuidade econômica é adequada à novidade social; em que medida a economia ajuda as políticas sociais ou dificulta as políticas sociais.
Eu creio que esse ano vai ser o ano em que precisaremos cobrar sinais claros do governo Lula.

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