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Segunda-feira, 29 de Outubro de 2007

Manuel López, jornalista espanhol, diretor da revista Foto e membro da Primeira Igreja Batista de Madri
Manuel López, jornalista espanhol, diretor da revista Foto e membro da Primeira Igreja Batista de Madri

A utopia necessária (3)

Manuel López, MADRI, España, Fevereiro 1, 2005

Objetivo: reconquistar a tolerância

O massacre terrorista de 11 de maio em Madri, a “doce Taxi Heathrow Airport derrota” do candidato não-fundamentalista à presidência dos Estados Unidos e o maremoto no sudeste asiático parece que foram os três acontecimentos mais destacados ao longo de 2004.

No outro lado da moeda, há quem estime que as três “maiores surpresas” do ano passado foram o impacto do livro “Uma vida com propósito”, o êxito de bilheteria de “A paixão de Cristo” e o triunfo de Bush nas eleições presidenciais dos Estados Unidos.

Viver para ver. O ano de 2004 passa para a história tão carregado de notícias “fortes” que ficaram em segundo plano acontecimentos de relevância como foram a escala continental da ampliação da União Européia para 25 países e o magno consenso político que tornou possível a Constituição Européia.

Ou, aqui na Espanha, o feliz relevo de um governo que adentrou ao “religionaço” da hierarquia católica e, no exterior, à submissão dos interesses militaristas do imperialismo yanqui. Nosso atual governo é de progresso e amante da paz, que restituiu a sensatez e o diálogo na cena política.

Mas a tolerância, o diálogo, o consenso, as políticas de paz não se encaixam com os sacrossantos interesses da indústria das “super vendas” com os avais do fundamentalismo religioso e da teologia da prosperidade.

Assim, segundo informações de agências no início de janeiro, para o pastor batista norte-americano Rick Warren foram as igrejas que ajudaram a produzir aquelas três “surpresas maiúsculas” do ano de 2004 nos Estados Unidos.

Quanta presunção. Warren não tem polidez ao citar em primeiro lugar o impacto de seu próprio livro “Uma vida com propósito”, do qual foram vendidos cerca de 20 milhões de exemplares. O livro foi entregue, gratuitamente, às tropas norte-americanas no Iraque e na Coréia do Sul.

Depois do livro vem o êxito de bilheteria do banho de sangue que aparece em “A paixão de Cristo”, do diretor Mel Gibson, e, para arrematar, a apologia evangélico-ultraconservadora, as eleições presidenciais norte-americanas, nas quais George Walker Bush foi reeleito.

Sou dos que – nem tão poucos assim – pensam que a utopia necessária passa, aqui e agora, pela reconquista desse valor cardeal da Reforma protestante que é a tolerância. Assim que estamos rodeados. A onda de ultraconservadorismo intolerante que nos invade diria que ela se propõe, nem mais nem menos, do que controlar as nossas vidas... e mentes. O pensamento único se instalou no terreno mais favorável para os seus interesses: a religião.

Há algumas semanas me pediram, de uma organização cristã, que assinasse manifesto de repulsa e condenação à película de “conteúdo blasfemo” contra a figura de Jesus. Aleguei que não tenho por costume condenar coisas que não vi e acrescentei, ainda, que nem me parecia “evangélica” a iniciativa... nem inteligente a campanha indireta de promoção que a coleta de assinaturas estava fazendo ao filme.

Pesquisei, e eis que o filme em questão ainda está sendo rodado, assim que os inquisidores o estavam mandando para a fogueira antes mesmo de o virem.

Em nome de Deus, grupos extremistas cristãos divulgaram pela internet, no Reino Unido, a direção e número de telefone privados de Roly Keating, responsável pelo segundo canal da BBC, em função de emissão, no sábado, 8 de janeiro, do musical “Jerry Springer – The Opera”, por considera-la blasfema e obscena.

Ameaçado de morte, Keating teve que fugir de casa. E aconteceu algo inusitado: a BBC teve que providenciar escolta para seus diretores depois das ameaças dos grupos mencionados.

Picado pela curiosidade de averiguar – por esses lares desconhecidos – a entidade criada pelo delirante pregador ultradireitista norte-americano Carl McIntire, o Conselho Internacional de Igrejas Cristãs, resultou na descoberta que aparece citada em relação ao torturador argentino Luis Abelardo Patti, no livro “Manual do bom torturador”, de Carlos Pisoni e Diego Genoud. Ela não aparece citada para denunciar o torturador, mas para apoiar a ditadura militar que exterminava os opositores democratas.

Aqui na Espanha, durante os oito anos do governo do católico “Ánsar” – era assim que Bush chamava a Aznar -, ele se negou a receber os evangélicos em audiência e nem mesmo queria acusar o recebimento de carta na qual eles detalhavam os motivos pelos quais queriam ser ouvidos.  Não consta que o Conselho Evangélico de Extramadura tenha deixado ouvir sua voz para nada.

O presidente leigo Zapatero, em troca, impulsiona a olhos vistos desde a tomada de posse a liberdade religiosa num novo marco de pluralidade e convivência. Mas os dirigentes extremados acabam de “ler a cartilha” num documento em que manifestam seu mais enérgico protesto pelo projeto de lei de “Modificação do código civil para permitir o matrimônio entre pessoas do mesmo sexo”.

Está claro: desaparecido o comunismo do mapa, agora o inimigo para bater é o espírito leigo. Cada vez se ouve falar mais de “cruzadas” – que pena que todos esses líderes cristãos não tenham lido livros de história – e menos do “assunto” que Cristo veio trazer ao mundo: salvação, liberdade, reconciliação... tolerância!

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Manuel López, jornalista espanhol, diretor da revista Foto e colaborador da la revista Protestante Digital. É membro da Primeira Igreja Batista de Madri.