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Quinta-feira, 8 de Novembro de 2007

Fórum Social alterou agenda de Davos, diz Grajew

Edelberto Behs, PORTO ALEGRE, Brasil, Janeiro 31, 2005

Simbolizando a diversidade, a indígena Ariana Morinico e o representante do movimento negro, Valério Lopes, Taxi Heathrow Airport leram, hoje de manhã, o texto síntese do V Fórum Social Mundial, marcando, às margens do rio Guaíba, o encerramento das suas atividades.

Até o final da manhã estavam afixadas 352 propostas no "Mural das Propostas", muitas delas respostas concretas para problemas identificados nos mais de dois mil grupos de discussão durante o evento.

Oded Grajew, um dos idealizadores do Fórum e membro do Conselho Internacional, destacou, em coletiva de imprensa, que a iniciativa mexeu na agenda do Fórum de Davos.

"Se você olhar no site de Davos, parece que é o site do FSM, só falam em pobreza e miséria. Isso é uma mudança significativa. A partir de nossa organização, foram forçados a recuar e a olhar para a pauta social", avaliou.

Movimentos Sociais reunidos no V Fórum emitiram um chamamento à mobilização contra a guerra, o neoliberalismo, a exploração e a exclusão. "O neoliberalismo é incapaz de oferecer um futuro digno e democrático à humanidade", declararam no documento, que enfatiza: "Por isso, um outro mundo não somente é possível, mas necessário e urgente".

O documento incentiva para a campanha pelo imediato e incondicional cancelamento da dívida externa e ilegítima dos países do Sul, começando com os paises que sofreram a ação das ondas tsunamis em dezembro do ano passado.

"Exigimos o fim da ocupação no Iraque. Exigimos que os Estados Unidos parem de ameaçar o Irã, a Venezuela e outros países", diz o documento dos movimentos sociais, apresentado no Mural das Propostas.

Os movimentos sociais apóiam as campanhas e lutas em defesa da água como bem comum público, contra sua privatização e o reconhecimento do acesso à água como um direito humano.

O documento reconhece a exigência de construir uma aliança entre movimentos sociais e redes por um "Contrato mundial pelo clima: um mundo solar é possível".

Os movimentos sociais apóiam as campanhas contra as transnacionais que violam os direitos humanos, sociais e sindicais, como é o caso da Nestlé e Coca-Cola, na Colômbia, e da Pepsi e Coca-Cola na Índia.

Também exigem a imediata retirada das tropas militares estrangeiras do Haiti e emprestam apoio à luta do povo palestino pelos seus direitos fundamentais e nacionais.

Os movimentos sociais prometem juntar as vozes "contra todas as formas de mercantilização do corpo, das mulheres e das pessoas gays e lésbicas". Apóiam o processo de construção de rede global pela defesa dos migrantes, refugiados e expulsos da terra, e se opõem a toda forma de mercantilização da informação e da comunicação pela Organização Mundial do Comércio.

A agenda de luta dos movimentos sociais pede a mobilização para um grande dia de ação global, a fim de exigir a retirada das tropas de ocupação no Iraque, em 19 de março.

O documento conclama à mobilização durante as Jornadas de Ação Global, de 10 a 17 de abril, na Cúpula dos Povos das Américas, em Mar Del Plata, Argentina, em novembro próximo, e na IV Reunião Ministerial da Organização Mundial do Comércio, em Hong Kong, em dezembro.

Os movimentos sociais apóiam a Marcha Mundial das Mulheres, que realizam uma nova campanha de ações feministas globais, a começar no dia 8 de março, em São Paulo, e finalizando em 17 de outubro em Burkina Faso.

Chama à mobilização de massa contra a Cúpula do G8, na Escócia, de 2 a 8 de julho, na Cúpula de Presidentes da América Latina e da União Européia, em maio de 2006, em Viena, e para o Dia Mundial dos Camponeses, a 17 de abril.

Os movimentos sociais apóiam o chamado de redes internacionais para a mobilização global no dia 10 de setembro por uma nova ordem mundial democrática e contra a pobreza e a guerra, e em defesa da saúde pública, no marco da Assembléia Geral da Saúde dos Povos, a ter lugar em Cuenca, no Peru, em 2005.

No sábado, 29, ativistas e intelectuais emitiram o documento "Doze propostas para outro mundo possível", no qual propõem a anulação da dívida pública dos países do hemisfério Sul, "que já foi paga várias vezes", e a aplicação de taxas internacionais às transações financeiras.

Os intelectuais e ativistas rechaçam as regras de livre comércio da Organização Mundial do Comércio e pedem a garantia do direito à soberania e segurança alimentar de cada país, o que pressupõe a eliminação total dos subsídios à exportação dos produtos agrícolas pelos Estados Unidos e União Européia.

O documento pede a proibição de todo tipo de patenteamento do conhecimento e dos seres vivos, o desmantelamento das bases militares estrangeiras, a garantia do direito à informação e a reforma da Organização das Nações Unidas.

O documento leva a assinatura de 19 intelectuais, entre eles Eduardo Galeano, José Saramago, Boaventura de Sousa Santos, Ignácio Ramonet, Bernard Cassen, Frei Betto, Tariq Ali e Emir Sader.

O  V FSM reuniu 135 mil pessoas no Território Social Mundial, das quais 35 mil instalaram-se no Acampamento Intercontinental da Juventude. Estiveram presentes 6.588 organizações, de 135 países. Cerca de 2.800 pessoas trabalharam de forma voluntária e 6.823 jornalistas fizeram a cobertura do evento.

A abertura do Fórum, a marcha do dia 26 reuniu mais de 200 mil pessoas nas ruas de Porto Alegre. O V FSM teve 2.500 atividades, das quais 130 shows, 115 projeções de filmes e vídeos e 96 exposições de arte.

Após a leitura de encerramento do V FSM, grupos de música e dança da Palestina, da Índia, Zâmbia e Marrocos juntaram-se aos representantes indígenas de toda a América num ritual de congraçamento de todos os povos.

A cerimônia final do Fórum foi a celebração ao espírito de fraternidade e de respeito à terra, convocada pelos representantes das nações indígenas. De pé, de mãos dadas e descalços, todos os presentes renderam homenagem aos espíritos dos ancestrais das nações indígenas das Américas e enviaram bons fluídos para a África, continentes que sediará o Fórum de 2007.