Articulação da Coalizão Ecumênica avança no V FSM
Edelberto Behs, PORTO ALEGRE, Brasil, Janeiro 31, 2005
A participação das igrejas e de organismos eclesiais no V Fórum Social Mundial (V FSM), Taxi Heathrow Airport que terminou hoje nesta capital, representou um avanço e foi uma mostra de que é possível trabalhar com agendas comuns.
Essa articulação foi conduzida pela Coalizão Ecumênica, constituído por um bloco de igrejas, organizações ecumênicas, agências de cooperação e de serviços diaconais, do Brasil e do exterior, para uma participação mais efetiva e qualificada nos Fóruns Sociais Mundiais.
"Conseguimos reduzir a dispersão de agendas e nos concentramos nas discussões estratégicas", avaliou Rafael Oliveira, de Koinonia, do Rio de Janeiro. Os temas que a Coalizão privilegiou foram ecumenismo e paz, e a questão dos Direitos Humanos.
Junto com Caucus, uma rede internacional de Direitos Humanos, a Coalizão Ecumênica organizou duas grandes conferências sobre o tema, nas quais tratou de afirmar dignidade humana, justiça social e econômica num mundo globalizado e procurou estabelecer convergências para a ação na defesa dos Direitos Humanos.
"Tivemos uma parceria inédita entre evangélicos e católicos nesse Fórum", disse a diretora executiva da Coordenadoria Ecumênica de Serviço (Cese), Eliana Rolemberg, referindo-se à Cáritas Internacional, que organizou com a Coalizão Ecumênica atividades no V FSM.
As igrejas e os organismos ecumênicos estiveram muito ativos nesse Fórum, analisou o pastor Rui Bernhard, secretário executivo do comitê organizador da IX Assembléia Geral do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), agendada para fevereiro de 2006, em Porto Alegre.
Horas antes da abertura do V FSM a Coalizão convocou uma reunião com os parceiros envolvidos na iniciativa, realizada na sede da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), em Porto Alegre. "A participação de mais de 500 pessoas nesse encontro mostrou o interesse das igrejas e dos organismos na Coalizão e no Fórum", completou Bernhard.
Dessa vez a Coalizão conseguiu juntar várias iniciativas, analisou o pastor Sílvio Schneider, diretor da Fundação Luterana de Diaconia. "A participação pró-ativa do CMI foi encorajadora e ele nunca esteve tão bem representado", acrescentou. O desafio, agora, é dar continuidade a esse avanço, frisou Rafael Oliveira.
O representante da Koinonia lembrou a 3. Jornada Ecumênica e encontro dos delegados de igrejas da América Latina para a IX Assembléia do CMI. Os dois momentos poderão sedimentar a agenda ecumênica brasileira e latino-americana, visando uma melhor articulação e sinergia de ações.
O bispo anglicano Almir dos Santos também elogiou o trabalho da Coalizão Ecumênica, mas lamentou a pouca participação de algumas igrejas no próprio Fórum. A concentração dos debates do eixo temático "Ética, cosmovisões e espiritualidade" numa área do Parque Marinha do Brasil, no setor K do Território Social Mundial, ajudou e evitou a dispersão, assinalou Santos.
"Não me pareceu tão bom assim deixar o tema das religiões isolado num eixo temático", contrapôs o diretor executivo do Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais (Ceris), Luiz Alberto Gómez de Souza. Ele advogou a diáspora e a transversalidade do tema religioso em outros grandes eixos do Fórum.
"Aqui a gente falou muito entre nós", emendou Gómez de Souza, admitindo, contudo, que ficar juntos num período de tempo foi bom, mas não todo o tempo do Fórum. "Ter o espaço foi bom, mas há momento em que é preciso alternar com outros debates", definiu.
A diretora executiva da CESE lamentou que a coordenação do V FSM não tenha observado o momento para a paz, como acordado. Na quinta-feira, 27, às 10h, todas as atividades do Fórum teriam uma pausa de alguns minutos para reverenciar a paz. "A coordenação não estimulou para que isso acontecesse", disse.
O pastor Rui Bernhard criticou alguns aspectos organizacionais do Fórum. O primeiro evento da Coalizão, na quinta-feira, começou com uma hora de atraso por causa dos tradutores e do equipamento de tradução, que não funcionou.
"Tradução não se resolve com voluntariado", concordou Eliana Rolemberg. Todos os tradutores trabalharam voluntariamente no V FSM. Mas em vários espaços do Fórum não houve tradução, "o que significou a exclusão de muitos representantes dos movimentos sociais nos debates e nas discussões", destacou Rafael Oliveira.
O pastor batista e assessor especial do governo do Estado do Paraná, Carlos Lima, disse para a Agência Kairós que a presença dos evangélicos no V FSM "deixou muito a desejar". Ele propôs que no próximo Fórum Mundial aconteça um Fórum Evangélico, assim como ocorre com outros temas.
"Precisamos ter esse espaço para discutirmos questões do meio ambiente, Direitos Humanos, representatividade e respeito ao diferente", defendeu. "Já começamos a fazer isso nesse Fórum, mas é preciso um envolvimento maior dos evangélicos", avaliou.
Para o sociólogo e teólogo Gedeon Alencar, professor do seminário da Assembléia de Deus Betesda, em São Paulo, os evangélicos apareceram mais nesse V FSM, mas "lamento que com atraso". Ele lembrou o lançamento do Jubileu da Terra com a ministra brasileira do Meio Ambiente, Marina Silva.
"É uma luta que perdemos para os esotéricos. Nós é que deveríamos ter consciência do cuidado da terra, porque é bíblico, está no primeiro capítulo de Gênesis", assinalou. Alencar declarou para a Kairós que os movimentos em favor da justiça e da igualdade social, violência infantil, apoio à mulher "deveriam estar sendo encabeçados por nós, que conhecemos o verdadeiro rei da justiça".
O pastor Elias de Andrade, da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil e membro da Iniciativa das Religiões Unidas de São Paulo, disse que houve um avanço na organização do V FSM, pois introduziu o eixo temático específico "Ética, cosmovisões e espiritualidade". É impossível alcançar um mundo melhor "se não tivemos a dimensão da espiritualidade e da ética", declarou para a Kairós.

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