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Quinta-feira, 8 de Novembro de 2007

Roberto Savio, secretário geral de Media Watch Global [Foto: IPS]
Roberto Savio, secretário geral de Media Watch Global [Foto: IPS]

Fórum de Comunicação propõe escola virtual de jornalismo

Edelberto Behs, PORTO ALEGRE, Brasil, Janeiro 26, 2005

Apoio à campanha CRIS (a sigla em inglês para Direito à Comunicação na Sociedade da Taxi Heathrow Airport Informação) e três sugestões, tímidas, resultaram do I Fórum Mundial de Informação e Comunicação, que reuniu em torno de 300 jornalistas e comunicadores, ontem, em Porto Alegre. O Fórum lançou a idéia de uma rede das redes de jornalistas, de uma rede de veículos alternativos e de uma escola virtual de jornalismo.

As sugestões foram resumidas pelo secretário geral da Mídia Watch Global (MWG), Roberto Sávio, que admitiu: o quadro da comunicação e informação no mundo é muito difícil e não difere substancialmente do que foi detectado há 30 anos, quando das discussões de uma Nova Ordem Mundial da Informação e da Comunicação (Nomic). Na verdade, existe hoje uma outra Nomic, que prioriza o comércio como base da informação e da comunicação.

Atualmente, disse, constata-se a liberdade dos proprietários das mídias, de publicarem o que bem entendem. Explicou que a proposta de uma escola de jornalismo virtual serviria para a formação de quadros para a sociedade civil, baseada em valores e inquietações da sociedade civil. Dessa escola deveria sair um "jornalista diferente" daqueles egressos dos cursos formais.

Nas escolas de jornalismo, criticou, ensinam as técnicas de produção de material jornalístico que vende e não que seja necessário ao bem comum da sociedade. É preciso perguntar porque só circulam notícias que obedecem as leis do espetáculo, da oferta e da demanda, e não as notícias que se voltam à realidade, alertou o presidente da MWG e do jornal Le Monde Diplomatique, Ignacio Ramonet.

"Os meios de comunicação se constituem, hoje em dia, no problema central nos regimes democráticos", apontou Ramonet. "Vivemos num sistema de insegurança informacional, porque ao recebermos a informação não sabemos se ela é verdadeira ou falsa", complementou.

O jornalista italiano Giulietto Chiesa, deputado do Parlamento Europeu, afirmou, no primeiro painel do Fórum Mundial de Informação e Comunicação, sobre "A nova ordem informativa do pensamento único", que os principais jornais, as emissoras de rádio e de televisão "instruem os jornalistas a mentirem todos os dias".

O coordenador nacional da Mesa da Paz, Flavio Lotti, definiu a comunicação social como um "campo de batalha, pois os senhores da guerra e terroristas tentam deturpar a realidade e impor as suas agendas". O professor Andrew Calabrese, da Universidade de Colorado, explicou que nos Estados Unidos  constata-se um toma-lá-dá-cá entre a imprensa e o governo federal.

Pesquisa realizada nos Estados Unidos monitorando 1.600 entrevistas que foram divulgadas pela mídia norte-americana nas três semanas que se seguiram ao início da Guerra do Iraque, indicou que 63% das fontes nessas entrevistas eram de funcionários, civis ou militares, do governo norte-americano.

Nas recentes eleições presidenciais norte-americanas, quase 60% dos eleitores estavam convencidos de que Sadam Hussein estava por detrás dos trágicos atentados de 11 de setembro perpetrados contra as torres gêmeas de Nova Iorque.

Esse toma-lá-dá-cá permitiu, na análise de Chiesa, que "um mentiroso e assassino" fosse reeleito à presidência da República pela maioria dos  eleitores norte-americanos. Para o jornalista italiano, sem a "grande fábrica dos sonhos" manipulada pela mídia, principalmente pela televisão, a globalização ao estilo norte-americano não teria sido possível.

"Fomos lobotomizados", denunciou, assinalando que "800 milhões de pessoas no Ocidente foram transformadas em mercadoria e consumidores da grande fábrica dos sonhos". Chiesa defendeu uma alfabetização das populações na linguagem da TV. "É preciso inventar uma nova vacina de massa contra a TV, que é o principal obstáculo à democracia", afirmou.

Quando se fala em sociedade da informação vem à mente o sonho da modernidade, com oportunidades de acesso à educação e conhecimento, com consumidores felizes pelo acesso que têm à tecnologia. Nada mais enganoso, ao se olhar para a totalidade do planeta.

"No mundo midiático, cada vez mais concentrado, nota-se a proletarização e perda de independência do trabalho jornalístico, além da vigilância e do controle da cidadania", arrolou a representante da Agência Latino-Americana de Informação (Alai), Sally Burch.

Sally participou do quarto painel, ontem, do Fórum Mundial da Informação e Comunicação, que versou sobre "A sociedade da informação, mercado ou cidadania?" Ela defendeu a necessidade de uma agenda social da comunicação e  que é preciso vencer o sentimento de impotência quando se pensa em fazer frente ao pensamento único e hegemônico presente na grande mídia, concentrada em grandes conglomerados.

A representante da Alai admitiu que pela comunicação "colonizaram mentes e corações" das pessoas. A informação, afirmou no mesmo painel o comunicador Antonio Martins, da rede Ciranda, não pode ser tratada como mercadoria, mas como um direito. É o que defende a Campanha Cris, consolidada na Cúpula da Sociedade da Informação, realizada em Genebra em 2003.

O I Fórum Mundial da Informação e da Comunicação segue o espírito do mote do Fórum Social Mundial e proclama: "Outra comunicação é possível".Assim como é possível um outro entretenimento, segundo Chiesa. Ele alertou, contudo, que a contra-informação é praticada e dirigida sempre para uma minoria que tem acesso à Internet.

 O próprio mote do Fórum - outra comunicação é possível - encerra o desejo do contraponto de um outro tipo de comunicação, aparentemente única também. Como advertiu o jornalista uruguaio Esteban Valenti, nos debates entre os painéis, o slogan do Fórum Social Mundial deveria proclamar "outros mundo possíveis", o que deixa implícita a existência da liberdade de opções.

Foram promotoras do Fórum Mundial da Comunicação: a Associação Mundial da Comunidade das Rádios Comunitárias (AMARC), o Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), a Inter Press Service (IPS), o jornal Le Monde Diplomatique, a Media Watch Global (MWG) e a organização Oxfam/Novib.