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Segunda-feira, 29 de Outubro de 2007

Manuel López, jornalista espanhol, diretor da revista Foto.
Manuel López, jornalista espanhol, diretor da revista Foto.

A utopia necessária (2)

Manuel López, MADRI, España, Dezembro 22, 2004

O crisol pentecostal

Crisol: substantivo cuja origem etimológica é catalã – cresol -, recipiente que Taxi Heathrow Airport se utiliza para fundir alguma matéria a temperatura elevada e que vem a significar "o que tem o mais característico de algo e por isso tende a ser colocado como modelo".

Aqui estamos. Nesse outro lado do remanso somos mais propensos, já pela influência geocultural, à versão mediterrânea temperada da fria reverência cúltica da liturgia protestante européia do que à ardente fogosidade louvadora da nova cultura evangelical americana. Somos, pois, tremendamente contrários, a falar de crisol... em referência a nós mesmos. O acrisolado é um processo que diz respeito aos demais.

Aqui estamos. Na Espanha de 2005, o peso percentual da membresia de origem latino-americana das igrejas evangélicas se aproxima de 50 por 100 nas congregações mais hospitaleiras. Em 2012, segundo estudo estatístico realizado pelo organismo interbancário mais importante, um de cada quatro cidadãos do país será imigrante.

Isso representará cerca de 12 milhões de imigrantes. Levando em conta que três de cada cinco imigrantes são de origem latino-americana e que um de cada quatro latino-americanos são evangélicos, encontramo-nos com o tão felicíssimo como preocupante fenômeno de que a Espanha terá cerca de 2 milhões de evangélicos de origem latino-americana. Fundamentalmente pentecostais. Aqui estamos.

Felicíssimo porque os séculos de férreo monopólio católico darão lugar, finalmente, à bendita pluralidade religiosa em pé de igualdade. Preocupante, porque o processo de inculturação das novas levas de imigrantes no Velho Continente, nesse caso Espanha, apresenta não poucas arestas.

A saber, como podemos ir resolvendo, ambas as partes, os choques culturais que temos. Para a maioria dos irmãos do Equador, Peru, Colômbia, El Salvador... que conheço, os protestantes espanhóis são pouco "espirituais".

O problema surge quando há confiança e lhe devolvemos a pergunta: "E o que é para ti ser espiritual?" Ou os convidamos, cordialmente, para que, sem renunciar sua herança cultural e seus costumes, tratem de adaptar-se aos costumes e cultura do país que os acolhe.

Obviamente, a cultura protestante européia é soberanamente enfadonha para os latino-americanos. Não nos exaltamos com ela. Numa igreja que conheço, livre de toda suspeita de não ser acolhedora e hospitaleira em grau extremo, surgiu um problema delicadíssimo motivado pela maneira de como mandar dizer às jovens mães procedentes de além-mar que nessas latitudes os bancos do templo em pleno culto não são lugar nem ocasião adequados para tirar a teta e dar de mamar aos bebês. Tratava-se de fazer ver a eles que não somos melhores nem piores, mas que simplesmente temos outros costumes...

Um dos principais desafios que pretendemos enfrentar no Comitê Organizador do I Congresso Protestante de Madri, que será realizado em novembro de 2005, é precisamente o grande tema da Imigração, concretamente, o de atinar a estimular em pé de igualdade a participação dos irmãos e irmãs imigrantes.

Existe ali um grande paradoxo para o qual os protestantes espanhóis se encaminham. Graças a Deus, a inversão histórica da direção do fluxo migratório, que agora traz para a Espanha massas de trabalhadores cujos impostos financiarão nossas aposentadorias, vai propiciar, já está propiciando, que nossas igrejas fiquem cheias.

A realidade é que estamos sendo pentecostalizados. A mim, sinceramente, como a tantos outros, está nos custando a mestiçagem... Mas quando se pergunta aos irmãos de além-mar estabelecidos ou em fase de ser estabelecerem entre nós, fica evidente que a eles custa infinatemente mais a adaptação.

Questão de fundo e de forma, sem dúvida. Nenhuma delas tem fácil solução nessa Europa de nossos pecados. No que diz respeito ao fundo, aqui está a resposta de Samuel Kobia, secretário geral do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), de abrir espaços para um Teologia da hospitalidade. Aqui estamos.

Mas a forma é outra coisa. "Líderes neopentecostais se aproximam da mesa de diálogo ecumênico", leio num despacho da ALC do dia 6 de dezembro, assinado por Eduardo Chinchilla, de Caracas.

Que estupendo! Glória a Deus. Mas temo que com os 2 milhões de novos membros de nossas igrejas precisaremos cerca de 4 mil líderes evangélicos latino-americanos que os acompanhem. Normal.

Os imprescindíveis cursos prévios de adaptação à realidade européia e espanhola desses milhares de líderes que vão acabar pela lógica dos fatos e pela força da história se somando à liderança da Espanha protestante das décadas doa anos 2010, 2020... não podem senão ser extremamente útil não somente para eles, mas também para todos nós.

Graças, América, pela tremenda oportunidade que nos vem presenteando de colocar à prova o crisol pentecostal que nos estão servindo em bandeja. Para ver se somos capazes de sentar-nos e dialogar...

Por exemplo, botando a funcionar esses cursos super necessários de adaptação... que ainda não estão sendo compartilhados em nenhum site! E que a cada dia são mais imprescindíveis, tanto para os monitores que irão contar-lhes como somos, como vivemos, como expressamos e confessamos a nossa fé...

E do mesmo modo também para nós, os indígenas celtibéricos, está claro. Por mais que cremos ser os reis do mundo, os espanhóis apenas representam 10% da comunidade hispano falante no mundo.

O primeiro efeito evidente da imigração é que nos povoados e praças da Espanha existem cada vez mais gente jovem. Graças ao crisol pentecostal, as igrejas da nova Espanha do século XXI podem converter-se nessa necessária mexida que a fria Europa protestante necessita.

Tudo é uma questão de ritmo do processo de inculturação recíproca e das doses de respeito mútuo de delicadeza que seremos capazes de produzir nesse grandioso dispositivo da Teologia da Hospitalidade levada à prática...

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Manuel López, jornalista espanhol, diretor da revista Foto, colunista da revista  Protestante Digital e membro da Primeira Igreja Batista de Madri.