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Segunda-feira, 29 de Outubro de 2007

Doutor Oneide Bobsin, pastor e teólogo luterano brasileiro.
Doutor Oneide Bobsin, pastor e teólogo luterano brasileiro.

Encontros e desencontros

Oneide Bobsin, SAO LEOPOLDO, Brasil, Dezembro 21, 2004

Encontros e desencontros são experiências que marcam as nossas vidas. Dos  agradáveis,  temos saudosas lembranças Taxi Heathrow Airport e sempre pretendemos repeti-los. Os desencontros, por sua vez, insistem em nos perseguir, por mais que fujamos deles.

O Natal de Jesus foi marcado por encontros e desencontros, nos dizem os relatos evangélicos. O anúncio da gravidez à Maria, feito pelo anjo, deixa José numa situação muito embaraçosa, pois não eram casados.

No silêncio de seu coração José remoía  estranhas suspeitas. De quem seria a criança, se ele  não manteve relações sexuais com Maria? Sendo uma  pessoa justa, José não saiu aos quatro ventos difamando Maria, como parecia comum naquela época e, ainda, hoje.

Em sonho, um anjo avisou José a não romper com Maria, indo, assim, muito além da paternidade responsável. Com isso, Maria não foi considerada uma mulher de má fama, sujeita a uma condenação por apedrejamento até a morte, prevista na lei da época. Assim, o anjo do Senhor salvou  Maria e seu filho da morte.

Para um outro grupo de homens, o Natal de Jesus também foi considerado um grande encontro. Os  pastores eram considerados a ralé da sociedade. Faziam um  trabalho pouco valorizado. À procura de pastos e águas para os rebanhos, certamente  transgrediam os limites de propriedades. A eles, em primeira mão, é anunciado o nascimento de Jesus.  Dessa forma, essa predileção divina revela um encontro marcante, ainda hoje anunciado ao mundo.

Mas o anúncio de grande alegria também alcançou gente famosa. O acontecimento teve uma dimensão internacional. Sábios do Oriente, habituados à leitura dos sinais, perceberam algo diferente  nos céus.

Seguiram uma estrela e chegaram, "por engano", ao palácio de Herodes. O interventor romano ficou perplexo. Em secreto, Herodes pediu que eles voltassem para avisar sobre o novo rei.

Como vemos, o Natal de Jesus promoveu muitos encontros e um desencontro. O que transformou os desencontros em encontros marcantes não veio do coração das pessoas. Maria, José e os pastores receberam a notícia de anjos. Com a falta da mediação divina, o que poderia ter sido um encontro tornou-se um grande desencontro: Herodes não foi comunicado pelos sábios.

Talvez o rei estivesse muito preso à lógica da manutenção do seu poder, que o impedia de olhar para cima. Ou, porque nada via acima dele. Logo, ele não leu os sinais da novidade e seu reino passou como todos.

Nossos sentimentos natalinos do século XXI podem levar a grandes desencontros. Como já preconizou um famoso filósofo, vivemos numa "rede de utensílios", que nos transforma em imagem e semelhança das mercadorias que desejamos.

Assim, mediados os nossos encontros  pelas mercadorias/presentes, ansiosamente desejados, logo que as temos  nos frustramos. Os nossos encontros natalinos, cheios de desejos que brotam dos nossos corações, repetem a história de Herodes, que perdeu a grande chance de ver sinais de novidade.

Em contrapartida, os sábios, que depositaram seus presentes junto à manjedoura, sabiam que seus objetos não tinham nem valor de uso nem de troca. Eram presentes sem valor, pois quem os recebeu deles não necessitava. Eram ofertas de reconhecimento, sinais externo de adoração; gestos incapazes para Herodes, que não obteve o retorno de seu pedido. A divina providência desviou os sábios por outro caminho.   

Portanto, há desencontros que vêm para o bem, e bem de todos, com encontros que são mediados pela adoração e compaixão. Estes não se orientam  pelos desejos, pois, como disse um famoso psicanalista: Viver de desejos não  traz a felicidade. Mas de idéias e ideais, sim.

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Oneide Bobsin, Pastor da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil e professor de Ciências das Religiões da Escola Superior de Teologia de São Leopoldo/RS/Brasil.