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Quinta-feira, 8 de Novembro de 2007

Em cena o velhinho que veste casacão e não passa calor

Edelberto Behs, SAO LEOPOLDO, Brasil, Dezembro 20, 2004

Eles estão por toda a parte, nas lojas, nas ruas. São de todos os tamanhos, Taxi Heathrow Airport vestem o mesmo tipo de roupa, mas podem ser vistos em diferentes situações: descendo chaminé, pulando de pára-quedas, subindo escada, sentados em cadeiras de balanço, tocando violino, carregando saco de brinquedos ou viajando no famoso trenó puxado por renas.

Mesmo sob o forte calor do verão no sul do Brasil, com temperaturas que podem chegar a 35 graus centígrados, o "bom velhinho" vestindo casacão vermelho enfeitado de algodão, gorro vermelho, botas pretas, resiste a toda intempérie.

Ele vai conquistando espaços, ancorado nos apelos comerciais de Natal, de modo especial na TV, nos quais Papai Noel é o personagem principal.

Papai Noel também está em Gramado, cidade turística na serra gaúcha, a 115 km ao norte de Porto Alegre, que promove, a cada ano, o Natal Luz. Conhecida como cidade das hortênsias (uma flor), Gramado fica a 885 metros acima do nível do mar. A cidade costuma ser bem freqüentada no inverno, por causa do frio e de um atrativo eventual: a neve.

Faltava, porém, um atrativo turístico para o verão, explicou o assessor de imprensa da Prefeitura Municipal de Gramado, João Zanuzzi. Nasceu a idéia do Natal Luz. A cidade, que tem pouco mais de 31 mil habitantes, deverá receber nos 45 dias da promoção, que este ano vai de 19 de novembro a 6 de janeiro, cerca de meio milhão de turistas de todas as partes do Brasil e de países do Mercosul.

A programação do Natal Luz oferece desfiles de carro alegórico, mesclado com dança de luzes e sons, apresentações de corais, bandas, orquestras e cantores. Elas ocorrem na Árvore Cantante, em rua coberta no centro, no espelho d’água próximo a tradicional hotel da cidade, ou na Aldeia do Papai Noel, sonho da criançada, filhos de pais que têm poder de consumo.

"O Natal Luz é um show, é uma produção muito profissional, de encher os olhos, que visa o comércio e o turismo", descreve o pastor João Hall, da Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB) e que está há seis anos em Gramado. "Os valores natalinos são anunciados, mas sempre predomina o comercial", emenda.

"Não tem como tirar o apelo comercial, o que não pode, contudo, é esquecer o central do Natal, que é o nascimento de Cristo", argumenta o padre Eloi Antônio Sandi, da Paróquia São Pedro, e um dos integrantes da comissão organizadora do Natal Luz. Ele desconhece evento de tal magnitude que reserve tanto respeito ao aspecto religioso. "O Nativitaten, show de luz e som junto ao Lago Joaquina Rita Bier, é todo ele inspirado na Bíblia", arrola.

Para o pastor metodista Nestor Castro o espírito cristão do Natal vem na retranca do evento. Ele reconhece que a programação musical do Natal Luz resgata a tradição natalina. Mas lamenta a ausência do presépio, por exemplo.

"Nas lojas, como produto à venda, o presépio até que aparece, mas ele está ausente nos lares como lembrança do tempo do Advento", aponta.

Padre Sandi não concorda. Ele lembra que o Grande Desfile de Natal abre com o presépio e garante que toda simbologia pagã, como a presença de gnomos e fadas nas primeiras edições do Natal Luz, foram excluídas. O padre está há nove anos na cidade e desde então acompanha o evento, e há quatro anos integra sua comissão organizadora, responsável pela parte musical.

Pela primeira vez este ano, em 19 edições, as comunidades das igrejas metodista, luterana e evangélica de confissão luterana vão participar, oficialmente, do Natal Luz, com a promoção de concertos, cultos de Advento e o Passeio das Lanternas. No passeio, crianças e adultos ganham a avenida principal da cidade para cantar a mensagem salvífica do Natal, portando lanternas iluminadas por velas.

"Queremos resgatar os valores e as tradições do Natal de Cristo", diz o pastor Décio Saft, da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB). Tarefa gigantesca num ambiente que instaurou uma verdadeira cultura do Papai Noel.

A simplicidade das velas e lanternas, confeccionadas em casa, precisa concorrer com o esplendor e as luzes do Grande Desfile de Natal e seus carros alegóricos inspirados no Carnaval carioca, idealizados pelo carnavalesco Joãozinho Trinta, que foi contratado pelo município de Gramado em 2001 para montar o desfile.

A presença de evangélicos na programação do Natal Luz, este ano com alguma visibilidade, representa "um progresso na vida ecumênica", define o pastor metodista. Evangélicos reclamaram, mais de uma vez junto à municipalidade, que ficavam ausentes do Natal Luz. "Os grandes símbolos do Natal são católicos. Não tem como fazer ecumenismo em cima disso", argumenta o padre Sandi.

Zanuzzi destaca a tradição religiosa do Natal Luz, que recorre ao "apelo da magia do Natal e ao lado lúdico", um chamariz irresistível para qualquer criança que espera algum presente do Papai Noel. Não é muito diferente nas demais cidades brasileiras, pelo menos nas regiões Sul e Sudeste, onde a tradição do Natal tem forte apelo.

Papai Noel veio do hemisfério Norte. Por isso usa casacão, botas e touca para se proteger do frio. Ele foi assumido nos trópicos brasileiros com toda vestimenta invernal e condução para se locomover na neve. No período de Advento e Natal, em muitos lares o pinheirinho, com flocos de algodão imitando neve, bolas de vidro e correntes de ramos verdes iluminados por velas ou lâmpadas pisca-pisca importadas da China, enfeitam a sala da casa.

A tradição do Papai Noel remonta ao bispo São Nicolau, que nasceu por volta de 270 d. C. em Patyra, na Turquia. De família rica, ao perder o pai, Nicolau decidiu tornar-se padre. Ele foi promovido a bispo de Myra, hoje Kale, e vestia, como tal, roupas vermelhas e usava barba branca, comprida.

Nicolau era, segundo a lenda, pessoa boníssima. Consta que distribuía moedas de ouro para famílias pobres. Ele as jogava pela chaminé. As moedas caíam nas meias que as pessoas colocavam à lareira para secá-las. Daí a tradição de pregar meias junto à janela para que Papai Noel as encha de presentes.

A figura do Papai Noel, assim como hoje é conhecida, reporta-se à criação do desenhista norte-americano Haddon Sundblom, que criou a imagem do "bom velhinho" para anúncio que a Coca-Cola passou a veicular, a partir de 1931.

Embora o vermelho e o branco estivessem presentes na roupagem do São Nicolau que o desenhista Thomas Nast criou para a Hasper’s, em 1862, para a empresa multinacional de refrigerantes essa foi uma feliz coincidência. O personagem que está roubando a cena no Natal continua vestindo vermelho e branco.