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Sábado, 10 de Novembro de 2007

Oscar Bolioli, presidente da Igreja Metodista de Uruguai [Foto: José Aurelio Paz]
Oscar Bolioli, presidente da Igreja Metodista de Uruguai [Foto: José Aurelio Paz]

Uruguai vive hoje alívio e esperança, diz líder metodista

Manuel Quintero, QUITO, Ecuador, Dezembro 3, 2004

Uma coisa é certa: o Uruguai não faz mudanças bruscas", comentou o presidente da Igreja Taxi Heathrow Airport Metodista do Uruguai (IMU), pastor Oscar Bolioli, referindo-se à vitória de uma coalizão de partidos de esquerda nas eleições presidenciais uruguaias do dia 31 de outubro passado.

Na corrida presidencial, a coalizão Frente Ampla, Encontro Progressista e Nova Maioria levaram o candidato Tabaré Vázquez à vitória.

Bolioli reconhece que esse triunfo representa um passo fundamental para uma esquerda uruguaia historicamente atomizada, porque terminou "com as disputas entre quem era mais puro ou mais radical, para trabalhar numa espécie de conglomerado federativo, no qual cada um mantém sua identidade, mas como conjunto."

O triunfo da esquerda, na opinião de muitos analistas, marcou um antes e um depois na história do Uruguai. O próprio presidente eleito o destacou em concentração, no dia 24 de novembro, no povo de La Cruz, a 100 km ao norte de Montevidéu: "Em um só dia (o das eleições) foram transformados 174 anos de história sem derramar uma só gota de sangue".

A vitória da coalizão encabeçada por Vázquez tem motivado líderes políticos a vislumbrarem a necessidade de uma articulação das forças de esquerda em escala continental.

O novo secretário de Assuntos Internacionais do Partido dos Trabalhadores (PT) do Brasil, Paulo Ferreira, se propôs a impulsionar uma ampla discussão sobre o "reposicionamento" da esquerda latino-americana, que está em fase de forte expansão.

Na opinião do pastor Bolioli, dois elementos convergiram no último processo eleitoral uruguaio. Primeiro, o colapso da economia, "acelerado pelos desfalques milionários avalizados, de certa forma, pela classe governante". Segundo, anotou, "o desgaste dos partidos tradicionais, que ficaram sem credibilidade e demonstraram incapacidade para criar uma verdadeira democracia depois da ditadura militar".

Esses fatores se somaram para que emergisse um setor que ideologicamente não era afinado com a esquerda, pertencente aos partidos tradicionais, que estava cansado do engano e motivado pelo desejo de uma mudança real, explicou Bolioli em entrevista ao jornal Novo Século.

Ele recordou que durante a contagem dos votos houve incerteza por algumas horas de que fosse possível a soma mágica que permitisse tornar realidade o sonho da mudança. "Era também a última carta de alguns para não deixarem o país", agregou o pastor.

Um governo de esquerda poderia significar mudanças para a situação das igrejas, entende Bolioli. Começando pela Igreja Católica, que tem desfrutado por mais de 200 anos de uma situação privilegiada com os partidos no poder.

Diante da eminência da vitória da Coalizão Frente Ampla, a Conferência Episcopal buscou uma reacomodação, "com solicitações de diálogo com o novo governo, que foram feitas públicas", destacou o pastor.

Porém, essas solicitações não foram atendidas até a data, "apesar que em sua maioria as figuras mais representativas do novo governo são católicos", informou Bolioli.

Quanto às igrejas protestantes históricas, que estiveram com a esquerda na defesa dos direitos humanos e como atender as situações de emergência, Bolioli disse que agora se trata de "aprofundar uma relação, que não é de oportunismo, mas de cooperação crítica".

Trata-se de ajudar a levar o país adiante e a sanar feridas muito profundas, como a destruição do tecido social, e recuperar a dignidade dos desaparecidos da ditadura".

Já os setores evangélicos que guardaram um silêncio cúmplice frente aos crimes da ditadura começam a empregar velhos e argumentos sobre os perigos de um regime de esquerda, anotou.

"Vimos algumas manifestações tirando do pó argumentos dos anos 60 sobre a revolução cubana, que o que vai ocorrer aqui será o 'fechamento de igrejas' e haverá sérias dificuldades para expressar o evangelho. Inclusive um de seus pastores já mandou essa informação aterradora aos seus parentes nos Estados Unidos", comentou Bolioli

No país se vive "o grande alívio que a maioria das pessoas demonstra, mesclado de uma grande esperança: que a fome acabe, que não tenhamos mais crianças nos semáforos buscando ganhar o sustento, que nossa juventude não tenha que emigrar, ou pais de família fuçar no lixo alheio para encontrar comida", expressou o presidente da IMU.

"Também esperamos que se faça justiça aos tantos crimes econômicos e sociais acumulado e assim manteremos o sorriso que voltou nas pessoas", indicou.

"Ninguém espera milagres, mas, como me disse um amigo: se este governo não roubar nem acomodar amigos já notaremos a diferença", contou o pastor Bolioli.