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Segunda-feira, 29 de Outubro de 2007

Manuel López, jornalista espanhol, diretor da revista Foto.
Manuel López, jornalista espanhol, diretor da revista Foto.

A utopia necessária

Manuel López, MADRI, España, Dezembro 1, 2004

De novo me pediram para preparar uma oficina de Comunicação, mas desta vez insistiram para Taxi Heathrow Airport que não desviasse do assunto. Menos especulação teórica e mais respostas de ordem prática, que seja!

Isso posto, o que me pediram foi, nem mais nem menos, um estudo sobre a viabilidade de um projeto de um periódico evangélico. Estupendo. Não me conheciam bem, porque um servidor, com a ajuda de Deus, sente-se capaz de enfrentar o desafio. Somente se esqueceram de me passar os dados chave, os vimes pertinentes para ir armando o cesto.

Porque, vejam, um periódico evangélico, porém... em que chave teológica?, Com quais interesses denominacionais, manifestos ou ocultos?, Com que semblante ecumênico? A partir de qual prisma sócio-religioso? Com qual ideologia? Com qual repertório de valores... na aplicação prática?

E, sobretudo, com que estrutura empresarial? Que linha editorial? Com qual quadro de redatores e colaboradores, pessoal administrativo, de marketing e vendas? Com quais serviços de informação envolvidos?

Um periódico a favor de quais correntes, ideais, valores, interesses, pessoas, e contrário a quais correntes, ideais, valores, interesses e pessoas?

Um periódico que informe sobre quais assuntos, fatos, situações, com que tom, intensidade e semblante? Com que grau de compromisso, com que tamanho de investigação, e, por outro lado, quais são os temas-tabú que não iria informar?

Quais temas iria tratar e sobre quais iria silenciar?

Qual a linha editorial que defenderá? O periódico vai expor de modo claro aos leitores ou vai ocultar seu ideário último?

Qual a linguagem que vai empregar e promover?

Quem ficaria responsável, dentro da redação, pelo controle da linha divisória entre informação e opinião?

Como o periódico vai se relacionar com os demais meios, tanto religiosos como de informação geral? De quem, e sobre quais pressupostos e com que margem de flexibilidade vai considerar como "colega" o hipotético periódico evangélico?

Que comportamento ético vai adotar frente aos leitores? Publicará todas

as cartas que chegarem à redação? Exercerá censura? De que maneira?

Qual a estrutura que adotará: Conselho Editorial, Conselho de Direção,

Conselho de Redação?

Que tipo de Estatuto de Redação vai adotar?

Incorporará o hipotético diário evangélico a figura do "ombudsman"? Com que grau de independência real?

Contratará redatores e colaboradores somente de denominações vinculadas ou também de outras denominações? Católicos? Não-crentes? Algum muçulmano? Qual a percentagem de mulheres? Algum cargo para deficiente?

Pagará salários dignos não somente ao pessoal do quadro, mas também aos estagiários? Será muito escandalosa a diferença dos honorários pagos às estrelas em comparação aos colaboradores menos famosos? (Ou se somará ao exemplo tão pouco... evangélico de cobrar o produto do consumidor mas não pagar aos que o fazem?)

A lista de perguntas prévias é, como vemos, quase interminável.

Mas o mais importante, a pergunta decisiva: Os hipotéticos idealizadores de um hipotético diário evangélico de difusão nacional - ou por que não internacional, no âmbito das nações da Galáxia Cervantes? - os recursos necessários sobre a mesa, já de saída, em dinheiro vivo, como primeira medida de todas para a realização dos estudos prévios necessários do projeto de criação do diário?

Refiro-me a um estudo integral, sério, profissional, que contemple, na ordem:

1. O quê? Justificação ideológica do projeto.

2. A quem? Estudo de mercado.

3. O que já existe? Análise exaustiva dos meios evangélicos existentes (para não cair na armadilha de lançar "mais um" produto e como ajuda para definir o "vazio" editorial a cobrir).

4. Definição e desenho do projeto de periódico. Realização de números experimentais e debate exaustivo sobre os mesmos.

5. Que tipo de empresa? Desenho do marco empresarial (tipo e estrutura de empresa, cálculo do investimento, distribuição do capital social, composição do Conselho de Administração, Conselho Editorial, da direção e redação).

6. Com que tecnologia, com que sistema, com qual logística?

7. Criação de um Código de Ética.

8. Criação de um Manual de Estilo.

9. Com que quadro de profissionais e rede de correspondentes e colaboradores?

10. Com quais serviços e valores?

Um diário evangélicos que se editaria de modo simultâneo em Madri, Buenos Aires, Miami, Cidade do México... seria maravilhoso. Mas no momento parece utópico. Certo que, como escreveu Eduardo Galeano, a utopia serve para... caminhar em sua busca. Perguntas demasiadas e poucas respostas. Graças a Deus, ainda somos humanos!  Isto é, perseguidores de utopias.
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Manuel López,  é jornalista espanhol, diretor da revista Foto e membro da Primeira Igreja Batista de Madri.