![Samuel Kobia critica abusso de liberdade de expressão. [Foto: Ingelore S. Koch]](/picture/Kobia.jpg)
"Ecumenismo espiritual"
Entrevista: Edelberto Behs, SAO LEOPOLDO, Brasil, Novembro 15, 2004
Em doze dias de viagem, dos 20 previstos para o giro em cinco países da Taxi Heathrow Airport América do Sul – Bolívia, Brasil, Argentina, Uruguai e Chile –, o secretário geral do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), o pastor metodista queniano Samuel Kobia, 57 anos, colheu vivências e experiências animadoras, tanto que em encontros com lideranças de igrejas ele enfatizou um novo momento do ecumenismo, vivo e cheio de esperança. Ele falou de um "ecumenismo espiritual".
Kobia esteve em La Paz, dias 1 a 4 de novembro. Depois veio a Brasília, Salvador e Porto Alegre, de onde viajou, no sábado, 13, para a Argentina. Em Brasília, reuniu-se com representantes do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic), manteve contato com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e inteirou-se da Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2005.
Em Salvador, encontrou-se com lideranças de religiões afrobrasileiras e foi recebido pelo arcebispo primaz do Brasil, dom Geraldo Majella Agnelo. Em Porto Alegre, conheceu as instalações da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, que vai abrigar a IX Assembléia Geral do CMI, em 2006. Encontrou-se com líderes de igrejas que apoiam a organização do encontro, entre elas a Igreja Católica.
Em São Leopoldo, visitou a biblioteca da Escola Superior de Teologia, entrevistou-se com a reitoria e participou de aula no seminário sobre ecumenismo no Instituto Ecumênico de Pós-Graduação (IEPG). Kobia falou para professores e estudantes, que, em diálogo, lhe dirigiram perguntas. Depois, concedeu entrevista exclusiva à ALC, relatando impressões da viagem e da situação do CMI.
ALC: Na reunião com representantes do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic), em Brasília, o senhor destacou que o modelo clássico do ecumenismo está em mutação. Onde se nota isso?
Kobia: Em dois sentidos. O primeiro, no envolvimento que a Igreja Católica tem no movimento ecumênico brasileiro. Normalmente, a atitude da Igreja Católica é de não se envolver, mesmo lá onde ela é dominante.
No Brasil é diferente e apesar de ser dominante. Estou impressionado com a atitude da Igreja Católica de participar no processo de organização da IX Assembléia do Conselho Mundial de Igrejas (CMI). Jamais isso aconteceu na organização de assembléias anteriores.
O segundo aspecto, mais geral na América Latina, diz respeito à abertura da Igreja Pentecostal para o ecumenismo. O maior número de igrejas pentecostais membros do CMI é da América Latina. Temos um bom número de delegados da América Latina que são de igrejas pentecostais e que participam do Fórum Cristão Mundial. Há 15 anos ninguém diria que igrejas pentecostais se envolveriam no diálogo ecumênico.
ALC: Nas experiências que o impressionaram na sua estada na Bolívia e agora no Brasil o senhor mencionou, no contato com estudantes em São Leopoldo, mais vivências do ecumenismo de base do que do ecumenismo institucional. Esse é um novo sinal no campo ecumênico?
Kobia: É um novo sinal do ecumenismo dos dias de hoje, como as pessoas mostram o ecumenismo de base nas experiências práticas do que em termos institucionais. Isso se mostra nos assuntos que têm a ver com a vida, que envolvem a vida, em oposição à reflexão acadêmica, institucional.
Vejo que esse "ecumenismo espiritual" é diferente do ecumenismo do século passado, que caracterizou-se por discutir diferentes assuntos.
ALC: Numa de suas tantas intervenções no Brasil, o senhor vaticinou que em meados do século XXI a força econômica e o cristianismo vão deslocar o seu eixo em direção ao hemisfério Sul. O CMI também pretende fazer esse deslocamento?
Kobia: Recentemente, recebi carta de uma pessoa da Suécia pedindo que colocasse na agenda do CMI a transferência da sede do organismo ecumênico de Genebra para o hemisfério Sul, porque a cristandade está se deslocando para o Sul, e que essa seria uma afirmação na reflexão da configuração do ecumenismo.
Mas ainda é muito cedo para discutir o deslocamento da sede do CMI. Não coloquei o assunto na agenda do Comitê Central. Não vou começar o processo. Mas se alguém trouxer o assunto, essa será uma discussão muito interessante.
ALC: Em artigo publicado no jornal britânico The Independent, o ex-senador democrata norte-americano Gary Hart afirma que a igreja venceu as eleições nos Estados Unidos. Como o senhor encara esse comentário?
Kobia: A eleição nos Estados Unidos deveu-se a uma combinação da direita religiosa e a manipulação que foi feita em cima do povo na questão da insegurança. Esses fatores fizeram de Bush o grande vencedor. A religião contribuiu muito para a vitória de Bush.
Quando falo de um voto da direita religiosa significa que ai está incluída também setores da Igreja Católica. Na conquista desse voto foram trazidos à cena dois fatores fundamentais: a questão do aborto e das pesquisas com células tronco.
Mas não dá para dizer que foi a igreja que venceu a eleição, mas a combinação de assuntos com os quais a igreja se confronta.
ALC: Na reunião do Comitê Central, em setembro do ano passado, a situação financeira do CMI estava na pauta do encontro e era uma grande preocupação. Como está o quadro das finanças hoje?
Kobia: Está muito claro, estamos numa situação muito estável. O Comitê Central pediu, na última reunião, que se voltasse a suprir o Fundo de Reservas com 1 milhão de francos suíços ao ano. Esse fundo estava zerado. Conseguimos colocar, no ano passado, 1,7 milhão de francos suíços no fundo, porque tivemos um bom superávit. O resultado deste ano deverá ser ainda melhor.
ALC: A que se deve esse superávit?
Kobia: Fomos capazes de controlar melhor os nossos gastos e os nossos parceiros, que financiam o CMI, todos alcançaram os recursos orçados. Outro fator, os projetos alcançaram os objetivos, que estavam bem planejados.
ALC: Agora que o senhor conheceu a cidade, as instalações da Pontifícia Universidade Católica, que abrigará a IX Assembléia, Porto Alegre foi uma boa escolha?
Kobia: Sim, Porto Alegre foi a escolha certa. Primeiro, pelas excelentes facilidades que lá existem. Pelo tipo de assembléia que vamos realizar, o espaço físico disponível é excelente. As plenárias, as oficinas, as reuniões de comitês e as sessões de trabalho têm plenas condições de realização. A universidade dispõe de tecnologia avançada para a comunicação fluir bem.
Também notei o entusiasmo expresso pelas igrejas. A cooperação das igrejas anfitriãs é um dos fatores mais importantes para que a IX Assembléia seja bem sucedida. O escritório da coordenação local de preparação da assembléia já está funcionando e é importante ter essa boa cooperação com Genebra para a preparação do evento.
A visita que fizemos a São Leopoldo foi um momento muito importante para ver todo o esforço para a formação acadêmica que está acontecendo na Escola Superior de Teologia (EST) e a atividade ecumênica ali desenvolvida, que serão impulsos à Assembléia. Estou muito feliz que o evento se realize em Porto Alegre.
ALC: Quando foi eleito para a secretaria geral, no ano passado, o senhor falou em trazer "ubuntu" (ubuntu é a força que faz o ser humano humano e o fortalece na luta, no linguajar zulu) para o CMI e para o movimento ecumênico. Alcançou o seu propósito?
Kobia: Sim, as visitas que fiz às igrejas nas seis regiões reforçaram a relação das igrejas com o CMI e entre as igrejas. É uma maneira de colocar pessoas umas diante das outras, relacionando-se entre si, além do relacionamento institucional. E isso é um fator chave de "ubuntu".
O segundo fator está colocado na interdependência, de levar a sério, na relação com o outro, a necessidade do outro e de querer contribuir para a melhoria dessas necessidades. Vejo que isso está acontecendo com as igrejas.

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