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Domingo, 28 de Outubro de 2007

Mariano Blázquez, secretário executivo da FEREDE [Foto: Manuel López]
Mariano Blázquez, secretário executivo da FEREDE [Foto: Manuel López]

Igrejas evangélicas precisam uma voz única

Entrevista: Manuel López, MADRI, España, Novembro 13, 2004

O secretário executivo da Federação de Entidades Religiosas Evangélicas da Espanha (Ferede), Mariano Blázquez Burgo, Taxi Heathrow Airport participará, nos próximos dias, da Cúpula de Quito sobre relações Estado-Igrejas. O caso da experiência evangélica espanhola será objeto de atenção especial.

ALC: O que a Ferede pode transferir da sua experiência à realidade das igrejas da América Latina e do Caribe?

Blázquez Burgo: Sem dúvida a assunção de uma interlocução evangélico-protestante única, por parte da Ferede, representando instituições e igrejas históricas, bem como as de nova implantação. Só a partir dessa proposta é que está sendo possível na Espanha continuar a luta por um Estatuto mais igualitário para todas as confissões religiosas.

Nesse sentido, estimo que a fórmula é perfeitamente válida e desejável na América. Só há uma fórmula instrumental para poder derrubar barreiras que ainda persistem e que consolidam desigualdades: a criação de federações nacionais, uma federação em cada país, que aglutine a todos e cada um dos coletivos e instituições.

Para relançar e conseguir avanços qualitativos nas relações Estado-Igrejas é preciso ter uma voz única.

Isso implica deixar posicionamentos políticos e doutrinais particulares e centrar-se nesses elementos essenciais da nossa fé e prática religiosa com vistas ao bem comum. A desunião paralisa e só beneficia os inimigos do Evangelho.

A união numa interlocução comum de todas as igrejas protestantes e evangélicas, ao contrário, permite a convergência numa ação conjunta e facilita a negociação com as autoridades do Estado sobre diversos assuntos, como poderia ser o estatuto básico da liberdade religiosa aplicável a todas as confissões religiosas.

ALC: Com a criação de uma grande federação de federações em cada país, como você propõe, não se acrescenta o risco de uma excessiva profissionalização eclesiástica, que toda a ação institucional protestante acabe ficando um assunto interno dos despachos eclesiásticos?

Blázquez Burgo: Bem ao contrário, esse risco existe nas instituições fechadas em si mesmas, em suas próprias dinâmicas endogâmicas. A união faz a força e a força evangélico-protestante tem que manifestar-se, permita-me a redundância, forçosamente na intercomunicação de idéias e transparência informativa sob a premissa de "luz e taquígrafos".

Num mundo de comunicação, necessitamos de líderes que aglutinem idéias que sejam representativas do mundo evangélico, e de comunicadores que as transmitam à sociedade de uma forma compreensível e coordenada.

ALC: Quais são as linhas mestras para a criação de federações nacionais únicas?

Blázquez Burgo: O primeiro, obviamente, é que haja consciência de que necessitamos uns dos outros, se quisermos avançar na causa comum de eliminar barreiras que impeçam a compreensão e o desenvolvimento do Evangelho. O segundo, é que o Estado também demanda ou ao menos agradece uma interlocução única.

A partir disso cabe discutir critérios mínimos até definir o que pode ser chamado de "mínimo comum". Esse mínimo comum eu o fundamentaria em três pilares: as igrejas se ajudarem entre si, ajudarem a sociedade e ajudarem o Estado.

No primeiro pilar as igrejas devem unificar critérios sobre o tema básico do termômetro da liberdade religiosa em cada país: grau efetivo de separação Estado-Igrejas, sensibilidade religiosa do Estado, igualdade de tratamento a todas as confissões e liberdade das igrejas para o desenvolvimento de suas finalidades.

O segundo pilar tem a ver com a atualização das igrejas em assuntos de interesse público, como pode ser a construção da paz, a eliminação de feridas do passado, a discriminação de gênero ou a eliminação das causas sociais da pobreza.

Por último, o terceiro pilar consiste na ajuda das igrejas ao Estado para promover leis mais justas, sem que isso implique uma politização partidária das igrejas.

ALC: Frente ao conceito do uso de "laicidade", você advoga na Espanha a "neutralidade" do Estado em matéria de religião. Acredita que será fácil implantar esse critério num país como a Espanha, de uma tradição quase ininterrupta de confessionalidade católica romana?

Blázquez Burgo: É certo que para alguns o Estado espanhol deveria seguir primando a confissão religiosa que foi a religião oficial do Estado, já que se considera que essa aliança política-religiosa é um dos elementos da identidade nacional.

Para outros, a religião deve ficar relegada à esfera da intimidade pessoal e de liberdade de consciência, sem que devesse existir nenhuma conexão com a esfera pública.

Mas existem posições intermediárias que nos parecem mais construtivas. Quando falamos de transição do nacional-catolicismo para um regime de igualdade e convivência plural das religiões nos referimos precisamente a superar essas idéias.

Precisamos construir a identidade do Estado somando nossa tradição e história com os valores que se assentam na Constituição e nos Direitos Humanos. Esses valores democráticos, direitos e obrigações constituem o marco que deve ser oferecido a todas as confissões religiosas.

Um marco que inclui normas tanto para a vida privada como para o livre desenvolvimento institucional e um âmbito de participação na função pública, sobretudo naquelas áreas que têm a ver com a paz social, a solidariedade, etc.

Nesse marco de referência cabe ao Estado ser neutro. Isso é, não tomar partido nem favorecer nenhuma confissão religiosa em particular, e respeitar e fazer respeitar por igual todas as confissões com notório apego, tal e como a própria Constituição espanhola estabelece.

ALC: Você se manifestou a favor do desaparecimento da menção à Igreja Católica na Constituição espanhola. Que opinião lhe merece a menção na Constituição européia sobre "raízes religiosas" de nenhum tipo? Ferede fará alguma recomendação na votação na Espanha da Constituição européia, e em que sentido?

Blázquez Burgo: No que diz respeito à Constituição européia constatamos que dentro das igrejas há opiniões a favor da menção do cristianismo no texto constitucional, mas também há opiniões contrárias.

Minha opinião pessoal é que a Constituição não é um texto no qual se devesse mencionar alguma confissão religiosa. Isso é aplicável na Europa, na Espanha ou em qualquer outro lugar.

ALC: Que papel têm os migrantes latino-americanos nas igrejas evangélicas da Espanha? Pode-se falar de integração na vida normal das igrejas?

Blázquez Burgo: O fenômeno da imigração, com a problemática que traz consigo, é, sem dúvida, um dos pontos candentes da atual reflexão dos coletivos evangélicos na Espanha.

No momento atual, nosso principal objetivo é a necessidade de afrontar uma verdadeira transição de um Estado confessional para uma sociedade plural, multiétnica e multicultural, na qual o princípio protestante da tolerância seja um dos valores de referência.

A imigração da América Central e América Latina está sendo um elemento vitalizador para a grande maioria das igrejas evangélicas da Espanha. Pela primeira vez na história entra gente em nossas igrejas sem ter sido chamada e sem preconceitos religiosos.

Em linhas gerais, a imigração americana tem um bom nível de adaptação, de modo especial naquelas igrejas que dão atenção pastoral específica a imigrantes.

Existem diferenças culturais, de pensamento, de costumes e também de sensibilidades litúrgicas dos imigrantes com a população espanhola, o que requer um grande esforço convergente de ambas as partes: das igrejas evangélicas, em admitir sua diferença, e dos imigrantes, para aceitar a cultura da sociedade espanhola, que é uma sociedade de acolhida.

Se não se fizer esse esforço vão se formar guetos. Perder-se-ia a oportunidade de aprofundar nesse elemento chave no desenvolvimento da sociedade espanhola atual, que é a multiculturalidade. Imigrantes e nacionais necessitam-se mutuamente. A partir das igrejas não podemos perder de vista que estrangeiros... somos todos neste mundo, enquanto vamos a caminho da Pátria celestial.