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Quarta-feira, 22 de Dezembro de 2004

Ex-guerrilheira dirige refeitórios para crianças pobres

LIMA, Perú, Novembro 12, 2004

 Treinada em Cuba durante a década de 60 do século passado, companheira de Ernesto "Che" Taxi Heathrow Airport Guevara, e participante de tentativa de assassinato do pregador argentino Luis Palau em 1971, a ex-guerrilheira Rosario Rivera, hoje evangélica, dirige uma rede de refeitórios populares que alimentam centenas de crianças e adultos pobres na periferia de Lima.

Em matéria intitulada "Uma militante do evangelho", a história de Rosario Rivera apareceu em página inteira do jornal "El Comercio". A matéria nasceu de uma confissão de Palau, quando, no mês passado, revelou, em almoço com empresários, que em uma de suas visitas a Lima, uma "assessora de Che Guevara", tentou assassiná-lo, e que hoje essa mulher trabalha num refeitório popular.

Rivera estava presente no almoço, mas desapareceu rapidamente. O jornalista David Hidalgo Vega, conseguiu localizá-la no bairro de Comas, ao norte de Lima. Na casa dela, um grupo de mulheres preparava o almoço para 512 crianças da paupérrima região. Rivera também coordena o trabalho de outros sete refeitórios em bairros situados nas encostas de morros, onde os veículos não conseguem chegar, mas onde nunca falta um prato de comida.

Ela relatou que sua indignação diante da injustiça começou ao presenciar, num povoado andino, quatro trabalhadores acorrentados. Policias haviam colocado próximo a eles um prato de comida, porém quando tentavam alcançá-lo eram golpeados. Já em Lima, Rivera leu textos de José Carlos Mariátegui e José María Arguedas, e tornou-se militante da extrema esquerda.

Pouco depois do triunfo da revolução de Fidel Castro, Rivera viajou a Cuba e recebeu instruções para o manejo de armas, luta guerrilheira e sobrevivência.

Ali conheceu Guevara, com quem voltaria a colaborar quando, em 1967, passou pelo Peru para preparar a insurreição na Bolívia, que acabou lhe custando a vida.

Rivera contou que em Juliaca, Puno, ela disse a "Che" que aquele não era o momento para uma rebelião, e que este lhe ordenara que se separasse do restante do grupo. "Suponho que por isso continuo viva", comentou.

No dia 1 de dezembro de 1971, ela ia matar uma mulher que esteve a ponto de delatar sua intenção de assassinar Palau. Teve pesadelos. Dois meses antes, alguém havia lhe presenteado uma Bíblia, que não abriu. Até que decidiu lê-la. Nesse momento teve uma visão. "Uma luz baixou do céu até a minha choupana e um personagem com roupas brancas e feridas nas mãos e nos pés me falou. Não pude resistir", relatou.

Nos anos seguintes, trabalhou na igreja, nas províncias e em Lima. Em três ocasiões seus ex-companheiros tentaram matá-la, mas dois deles se converteram. Há 19 anos Rivera trabalha com as crianças de Comas. Além dos refeitórios, organiza oficinas de ofícios para desempregados. O jornalista anota que as mulheres com quem trabalha têm grande respeito por sua capacidade de organização e sua firme personalidade.


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