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Segunda-feira, 29 de Outubro de 2007

Doutor Oneide Bobsin, pastor e teólogo luterano brasileiro.
Doutor Oneide Bobsin, pastor e teólogo luterano brasileiro.

Marcas no Mundo

Oneide Bobsin, SAO LEOPOLDO, Brasil, Novembro 11, 2004

"Quero deixar minha marca no mundo". Essa foi a resposta de uma jovem pobre ao Taxi Heathrow Airport ser perguntada por estudantes de medicina que pesquisavam as causas da gravidez na adolescência.

Certamente, sua resposta pode ser estendida a uma grande parte das milhares de adolescentes que engravidam a cada ano no Brasil e, possivelmente, em outros contextos de crescente miserabilidade.

A resposta da jovem revela outras razões para a gravidez na adolescência, que não se enquadram nas explicações do bom senso e dos programas de saúde pública.

Os programas visam conscientizar os jovens para que usem preservativos e contraceptivos, mas ignoram motivações de sentido na vida. Sabemos que grande parte das adolescentes jovens tem conhecimento dos recursos para evitar a gravidez. Por isso, as razões não necessariamente são o descuido e a falta de informação.

Numa sociedade com tanta riqueza acumulada em poucas mãos e uma miséria crescente, o ter torna-se a finalidade da vida. Quem não tem, não é. "Tenho, logo sou", é a máxima da nossa sociedade.

No século XIX, quando Marx denominou os trabalhadores assalariados de proletários, quis expressar que nada mais tinham do que filhos. Eram donos de seus filhos. Assim denunciava a miséria dos trabalhadores. Nessas condições de miséria, ter filhos pode ser uma razão para colocar no mundo as suas marcas. Em outras palavras, a adolescente pode estar se valendo da gravidez prematura para dizer a todos: "Olhem, eu existo!"

Há 20 anos, quando aguardava na fila de cartório civil para registrar a nossa filha, uma avó tentava contestar um homem pobre que estava muito alegre com o nascimento de sua sexta criança. Ao ser recriminado por aquela senhora bem arrumada, ele respondeu: "Minha senhora, a única coisa que pobre tem é filho." E ele disse isso com o rosto repleto de felicidade.

Estudos recentes sobre gravidez na adolescência em sociedades patriarcais, como a nossa, buscam novas explicações para entender o fenômeno. Sem desconsiderar as respostas que todos sabemos, lembramos de experiências que mostram como a vida se reorganiza em certos lares quando uma criança está prestes a nascer.

Ao contrário do que costumamos pensar, a vinda de um novo ser pode restabelecer uma série de relações e referências significativas, rompidas pelo empobrecimento e por outros fatores de mudança negativa.

Diante desse quadro, arrisco a dizer que o "filho salva" a jovem mãe do caos a que foi submetida a juventude no contexto em que vivemos, especialmente os jovens pobres. Além disso, ser mãe é assumir um status que arranca a jovem do anonimato. A jovem também poderia estar se inspirando no culto à mulher que traz o ser divino em seu ventre.

Nossas filhas e tantas jovens também deixam as suas marcas no mundo. Elas podem estudar, sonhar com uma profissão, passar num vestibular, porque suas famílias preservam certos valores e estabilidade financeira; enfim, planejam o seu futuro como alguém singular.

Em famílias consumistas, filhos e filhas andam com carros de marca, roupas de griffe e tênis da moda. Logo, há referências de vida, valores estáveis ou símbolos de consumo através dos quais esses jovens deixam a sua marca no mundo, singularizando-se, às vezes, de modo falso.

Necessitamos, pois, dar um passo além dos programas de saúde pública e dos preconceitos moralistas. Se cremos que o Filho salva, onde estão as marcas solidárias da fé em nosso mundo? As marcas de nossa fé podem contribuir para alterar significativamente essa situação.

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Oneide Bobsin, Pastor da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil e professor de Ciências das Religiões da Escola Superior de Teologia de São Leopoldo/RS/Brasil