Mídia reflete preconceito racial que existe no país, diz senador
Micael Vier B., PORTO ALEGRE, Brasil, Novembro 9, 2004
O vice-presidente do Senado da República, senador Paulo Paim, disse que a visibilidade do negro Taxi Heathrow Airport na mídia e a demora da aprovação do Estatuto da Igualdade Racial são indicativos do preconceito racial existente no país.
O Estatuto estabelece, entre outros, uma cota mínima da presença negra na mídia. Paim, que é negro, participou no sábado, 6 de novembro, em Porto Alegre, do seminário "O negro na mídia - a invisibilidade da cor", promovido pelo Núcleo de Comunicadores Afro-Brasileiros do Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Sul.
Metade da população brasileira é negra e mais da metade dos desempregados do país pertence a esse grupo. Somente 2% dos negros brasileiros estão matriculados na universidade. Das oito famílias que dominam o mercado midiático nacional nenhuma delas têm origem afro. Os dados foram discutidos no seminário.
Paim sublinhou a importância da presença de todos os movimentos negros na Marcha Zumbi Mais Dez, agendada para o dia 20 de novembro de 2005, em Brasília. Na data, que marca o Dia da Consciência Negra, a sociedade deve estar mobilizada para discutir a questão do preconceito racial e exigir a sanção do Estatuto da Igualdade Racial.
"Ter nascido negro pode até dificultar um pouco as coisas, mas depende somente de nós a conquista da igualdade racial e da liberdade", anotou. "Há de chegar o dia em todos seremos somente seres-humanos que caminham juntos", concluiu, emocionado, o senador gaúcho.
O presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Quintino Severo, foi taxativo ao afirmar que em um país como o Brasil, onde há trabalho escravo, fome e oportunidades desiguais no mercado de trabalho, a democracia ainda não está completa. "Vivemos num país em que a cor da pele define uma possível contratação no mercado", desabafou.
O comunicador Luiz Armando Vaz, ao expor a temática "Negro na mídia: conquista ou concessão", disse que a invisibilidade da comunidade negra irá permanecer enquanto esse grupo não ocupar as redações. Ele considerou imprescindível um questionamento da própria imprensa, que, na avaliação dele, agride o negro em muitas ocasiões.
O advogado Luiz Alberto da Silva afirmou que a mídia nacional é um reflexo da estrutura social e histórica brasileira. Luiz, que é militante do movimento negro, disse que no país existe uma mídia dominante comprometida com a sua própria natureza.
A participação da comunidade negra nos espaços midiáticos, ressaltou, torna-se uma conquista a partir do momento em que essa abertura revela-se como espaço de luta, resistência e diálogo, e não como fruto de um crescente mercado de consumo voltado à essa comunidade.
O sociólogo Edilson Nabarro falou da "Mídia, cotas e universidade". Ele entende que é compromisso do governo nacional oferecer políticas compensatórias às comunidades negras. Dessa forma, sublinhou, o Estado estaria apenas desfazendo aquilo que construiu.

Portada
Início