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Quinta-feira, 11 de Novembro de 2004

Projeto de educação sexual nas escolas divide evangélicos

BUENOS AIRES, Argentina, Novembro 3, 2004

 O debate sobre o projeto que estabelece curso de educação sexual nas escolas da cidade Taxi Heathrow Airport de Buenos Aires saiu do âmbito da legislatura municipal para dividir a opinião dos evangélicos.

A presidente da Comissão de Instituições Educativas Metodistas (Ciem), Claudia Lombardo, emitiu apoio à bispa metodista Nelly Ritchie, que se posicionou a favor da implantação das chamadas Diretrizes de Educação Sexual Integral como curso obrigatório em todas as escolas da capital.

Esse pronunciamento, disse Lombardo, é coerente com a prática cotidiana que as instituições metodistas desenvolvem, já que elas entendem o ser humano concebido como integridade em relação a seus semelhantes.

"A mirada que depositamos no desenvolvimento desses temas tenta ser a mais solidária e inclusiva possível, tomando todos os elementos da realidade para atender as necessidades e interesses de nossos alunos e alunas", declarou.

A Ciem agrupa todos os estabelecimentos educacionais que a Igreja Evangélica Metodista tem na Argentina, desde o fundamental ao universitário, e mantém estreitos vínculos com organizações afins latino-americanas e mundiais.

"Estamos cientes de que as responsabilidades que eram próprias (particulares ou compartilhadas) de alguns âmbitos sociais foram deslocando-se para a escola", afirma. Trata-se de trabalho que se deve fazer de forma conjunta com a participação comprometida das famílias.

A escola, define Lombardo, deve ser um espaço para a revalorização do ser humano, desde o desenvolvimento de um vínculo de respeito consigo mesmo e com os seus pares para o fortalecimento da auto-estima, das relações com os outros e outras, de conhecimento e cuidado do corpo, da sexualidade responsável, de resignificações de gênero e tudo o que implique uma perspectiva integral da pessoa.

Já o advogado, docente e pastor Ricardo M. Bedrossin, especialista em temas da sexualidade humana, compartilha da taxativa oposição da Federação Aliança Cristã de Igrejas Evangélicas da República Argentina (Faciera) ao projeto de lei.

Bedrossian foi um dos que expressou oposição ao projeto na audiência pública realizada no dia 22 de outubro na Câmara municipal de Buenos Aires.

Faciera sustenta que a educação sexual de meninos e meninas diz respeito ao âmbito familiar, de acordo com as convicções desta, e não pode ser suplantada pelo Estado. Estabelecer um curso obrigatório de sexualidade nas escolas permitiria apresentar a homossexualidade e o lesbianismo como opções válidas. As escolas cristãs teriam que aceitar tal ensino, pois ele teria força de lei, argumenta a Federação.

Para a entidade evangélica, por detrás do projeto há uma ideologia que trata de incorporar a perspectiva de gênero como princípio reitor de educação. Isso significa que por lei será ensinado à criança que ela escolha o seu gênero, independente de seu sexo biológico, já que a ideologia de "gênero" afirma que o comportamento feminino e masculino é uma imposição dos pais e da cultura.

Essa ideologia é contrária às doutrinas cristãs, alega. Embora cada pessoa numa sociedade democrática tenha liberdade de pensamento, a imposição de ideologias na educação é própria dos regimes totalitários, como o comunismo, o fascismo e o nazismo, argumenta Bedrossian.

No espírito dessa lei há uma clara intenção de relativizar o valor da família como célula básica da sociedade, sustenta o pastor e advogado. São os pais, e não a escola ou os meios de comunicação, os primeiros educadores dos filhos. A pátria potestade é o conjunto de direitos e obrigações que os pais têm sobre a pessoa de seus filhos menores de idade, de velar por eles, alimentá-los, educá-los, amá-los, corrigi-los. "Essa função é indelegável", argumenta.

O projeto de lei faz parte de campanha sistemática para destruir a família, para tirar a autoridade dos pais e exclui-los do processo educativo dos filhos, sustenta.

Bedrossian admite que a educação sexual é necessária, mas no marco adequado, principalmente na família. "Essa educação não deve ser utilizada para impor ideologias ou para minar o cimento da sociedade. É um absurdo reduzir a educação sexual ao uso de preservativo para não contrair aids ou para que as menores não fiquem grávidas", argumentou.

A experiência de países que emitiram leis como a que se pretende impor em Buenos Aires foi nefasta, contabiliza o advogado. Nos Estados Unidos, disse, os educadores da sexualidade meteram medo nos legisladores, com estatísticas aterradoras acerca do aumento de casos de gravidez de adolescentes.

Disseram que seriam fornecidas mais informações sobre anticoncepcionais e que esse problema seria solucionado. Fato é que através dessa limitada educação sexual, depois de vários anos, continua no país o crescimento dos casos de aids e os casos de gravidez indesejada.

"Não nos equivoquemos. A sexualidade não é sinônimo de genitalidade. Deve-se educar sobre valores. Deve-se ensinar que o amor e o respeito são a base para as relações humanas, que o sexo sem amor é um mero ato fisiológico e nada mais, que a família foi criada por Deus para dar a seus integrantes um âmbito de acolhida em que possa se desenvolver de forma saudável", destacou o pastor.


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