Mundo carece do testemunho não-fragmentado da Igreja
Edelberto Behs, BLUMENAU, Brasil, Outubro 29, 2004
A Diocese católica de Blumenau, Santa Catarina, e o Sínodo Vale do Itajaí, da Igreja Taxi Heathrow Airport Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), preparam celebração para o domingo, 31 de outubro, Dia da Reforma protestante. A celebração reporta-se ao quinto aniversário da Declaração Conjunta católica-luterana sobre a Doutrina da Justificação pela Fé, assinada em Augusburgo, Alemanha, em 1999.
Depois de 30 anos de conversações bilaterais, católicos e luteranos afirmaram, na Declaração Conjunta, que a doutrina da justificação pela fé, um dos pilares da Reforma protestante e estopim para o cisma da Igreja ocidental no século XVI, não é mais motivo de divisão entre elas.
Segundo a concepção teológica de Martim Lutero, Deus concede a salvação, gratuitamente, pela fé, doutrina que foi condenada pela Igreja Católica no Concílio de Trento, pois entendia que ela rechaçava as boas obras.
Em 1999, o Vaticano e a Federação Luterana Mundial (FLM), que representa 95% dos luteranos no mundo, selaram a Declaração Conjunta em Augsburgo. Cinco anos depois dessa assinatura histórica, há motivos para comemorações, "mas apenas acompanhada de uma boa dose de sobriedade", entende o presidente da IECLB, Walter Altmann.
A própria Declaração apontava a existência de "questões de importância variada que necessitam maior esclarecimento". Altmann arrola assuntos relativos à eclesiologia, compreensão dos sacramentos, do ministério e a relação entre justificação e ética social como temas que pouco avançaram no período.
O bispo Aloísio Sinésio Bohn, da Diocese de Santa Cruz do Sul, definiu a Declaração Conjunta como um milagre, assinada num momento em que parecia que o ecumenismo estava estancado, andando de marcha a ré. "Ela é fruto de paciente, honesto e perseverante diálogo, guiado pelo Espírito Santo, que quer que o povo seja uno no Evangelho", disse.
Quanto ao ecumenismo nas bases da igreja, dom Sinésio afirmou que ele avança, mas "sem muita teologia. Elas avançam no instinto da vontade de Deus, que quer a unidade. O ideal no entanto, seria avançar com teologia, com estudo, com paciência. A pressa não ajuda a longo prazo", afirmou.
Pela primeira vez, lembrou o ex-presidente da Federação Luterana Mundial e ex-professor de Ecumenismo na Escola Superior de Teologia (EST), o pastor brasileiro Gottfried Brakemeier, resultados de diálogos bilaterais são oficializados. A Declaração Conjunta, agregou, abarca matéria de grande relevância. "É um acontecimento de primeira ordem e ela tem caráter modelar para acordos futuros", analisou.
Brakemeier lamenta, contudo, que a Declaração Conjunta tenha surtido efeitos estruturais modestos. "Continuamos separados na mesa do Senhor, não há reconhecimento mútuo de ministérios e a unidade visível continua distante", argumentou.
O presidente da IECLB, Walter Altmann, lembrou que, nesses cinco anos, documentos emanados do Vaticano, em especial da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, entre eles a "Dominus Iesu" e a encíclica "Ecclesia de Eucharistia", causaram decepção e perplexidade nas relações católico-luteranas.
"Esses documentos foram direcionados, é bem verdade, a questões internas da Igreja Católica Romana, mas em suas referências às demais igrejas não levaram em conta a sensibilidade destas. Esperava-se, por exemplo, que tivesse sido possível dar novos passos positivos de reconhecimento mútuo na adoção da hospitalidade eucarística", arrola Altmann.
A tradição apostólica, mas sem o ministério petrino, será assunto para o Seminário Católico-Luterano, que vai reunir dez teólogos de ambas as partes, nos dias 8 e 9 de novembro, na Casa Matriz de Diaconisas, em São Leopoldo. Brakemeier será um dos palestrantes do encontro, que terá a presença, do lado católico, do professor padre Jesus Hortal, dos bispos Ivo Lorscheiter, Frederico Heimler e de dom Sinésio.
Altmann admite que cinco anos é um período por demais exíguo e que as circunstâncias históricas em que se encontram as igrejas talvez sejam adversas a novos avanços no momento. Mas enfatizou que o mundo, que se apresenta cultural e religiosamente cada vez mais fragmentado, mesmo em tempos de globalização, precisa, mais do que nunca, "do testemunho não fragmentado das igrejas".
A Comunidade Evangélica de Boa Vista, Roraima, quer entrar nesse espírito. Ela prepara culto para o domingo, 31 de outubro, em conjunto com o padre católico e o pastor da Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB) local. No culto, comemorativo à Reforma protestante, serão lembrados os cinco anos da assinatura da Declaração Conjunta católico-luterana.

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