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Quarta-feira, 17 de Novembro de 2004

Samuel Escobar, teólogo batista peruano e ex-presidente das Sociedades Bíblicas Unidas [Foto www.Townbeacon]
Samuel Escobar, teólogo batista peruano e ex-presidente das Sociedades Bíblicas Unidas [Foto www.Townbeacon]

Teólogo destaca dinamismo missionário da igreja evangélica

SAN CRISTÓBAL DE LAS CASAS, México, Outubro 26, 2004

O dinamismo missionário do povo evangélico latino-americano converteu-o no instrumento mais adequado para o cumprimento Taxi Heathrow Airport da missão, afirmou o teólogo peruano Samuel Escobar no II Simpósio sobre Protestantismo Evangélico na América Latina, realizado nesta cidade do Estado de Chiapas, ao sul do México, de 19 a 22 de outubro.

Por um lado, anotou, o protestantismo evangélico sente-se permanentemente "em estado de missão", vendo o território latino-americano como campo que precisa ser evangelizado. Fechando os olhos à existência do catolicismo, considera o campo como se fosse totalmente pagão. Prevalece a visão simplista de que "aqui não havia nada autenticamente cristão até que nós chegamos".

Além disso, ao término do século XX se produziu o que o missiólogo Andrew Walls classifica de a grande virada do cristianismo para o sul. A prática e a vigência da fé cristã declinaram na Europa e está em crise na América do Norte, enquanto se assiste o crescimento do cristianismo de forma contextual na África, na Ásia, na América Latina e entre populações marginais e minorias étnicas da Europa, da América do Norte e em alguns casos na Europa Oriental.

No Simpósio, convocado pela Fraternidade Teológica Latino Americana (FTL), capítulo do México, pelo Centro de Estudos do Protestantismo Mexicano e por docentes da Universidade Nacional Autônoma do México, Escobar abordou em três conferências diversos aspectos atuais do protestantismo na América Latina.

Para a liderança católico, sublinhou, a expansão protestante põe em dúvida toda a prática missionária católica do século XVI e a prática pastoral do século XX. No passado, utilizaram a coerção social e política para deter "a avalanche" e forjaram a teoria da conspiração massônica, norte-americana e até comunista, arrolou o palestrante.

Em tempos mais recentes, alguns estudiosos católicos perceberam a significação missiológica do protestantismo latino-americano. Essas percepções têm interessantes pontos de contato com os mais recentes estudos sociológicos do protestantismo popular.

Entre outros, Escobar mencionou que o bispo católico brasileiro Boaventura Kloppenburg assinalou, há algum tempo, que a atual migração do catolicismo para movimentos protestantes na América Latina já é quantitativamente maior que o movimento de católicos ao protestantismo que se deu na Europa durante o século XVI.

O jesuíta espanhol Juan Díaz Vilar, que trabalha em Nova Iorque, ao considerar o dinamismo missionário dos evangélicos e o atrativo de suas comunidades para os imigrantes em transição, concluiu que as seitas "podem ser uma ajuda que alerta a Igreja Católica para a necessidade de ajustar uma Igreja que seja mais pessoal, mais comunitária, mais compassiva - uma Igreja na qual todos, qualquer que seja sua raça, pano de fundo étnico ou idioma, possam sentir-se queridos, necessários e 'em casa'".

Escobar enfatizou que a vocação missionária dos evangélicos latino-americanos vem do impulso missionário que herdaram do pietismo, dos moravos, de Wesley e de avivamentos no mundo de fala inglesa. A única forma pela qual os evangélicos não-pentecostais irão definir teologicamente sua relação com os pentecostais é explorando esse parentesco com aqueles que o historiador Scott Latourette chamava de "minorias vitais" protestantes dos séculos XXVIII e XIX, disse.

O teólogo católico Franz Damen chama a atenção ao vínculo latino-americano das igrejas (que ele chama de seitas). Reconhece, contudo, que as seitas são um fenômeno primariamente religioso, antes que político, e que um número crescente de seitas não é de origem norte-americana, mas sim latino-americana, e que muitas delas logo se nacionalizam e se tornam independentes.

Damen destaca a capacidade das igrejas populares em mobilizar seus membros na tarefa da evangelização. Monsenhor Roger Aubry reconhece que esse esforço evangelizador é "muito generoso", porém critica o fato de que às vezes "parece mais proselitista que evangelizador", ainda que admita "que entre nós (os católicos), apesar dos esforços realizados, são poucos os leigos envolvidos de forma ativa e criativa na atividade pastoral de sua paróquia ou de sua igreja."

Damen chama a atenção para os grupos pentecostais, que são os que demonstram um maior crescimento e também os que, em relação ao seu tamanho, contam com o menor número de missionários. Alguns desses estudiosos, indica Escobar, reconhecem que o esforço evangelizador das igrejas protestantes populares oferece a primeira experiência de fé cristã para muitas pessoas.

Documento de trabalho do Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam), de 1979, reconheceu que "as maiorias latino-americanas geralmente consideram-se 'católicas, apostólicas e romanas', ainda que a adesão eclesial delas freqüentemente se baseie mais numa pertença de costume à igreja do que a convicções profundas de fé".

Outras característica da missiologia evangélica que os estudiosos católicos assinalam é a origem popular de sua membresia e de sua liderança. O teólogo espanhol José Luis Idígoras, que foi por décadas missionário no Peru, contrasta esse caráter popular dos pastores pentecostais com o elitismo dos sacerdotes católicos e critica a formação secularizante que estes recebem.

Agrega que a origem dos pastores protestantes costuma ser tão popular como a dos católicos, porém eles vivem mais próximos do povo e sua formação costuma ser menos filosófica e mais teológica. Fundamentalmente, ela se baseia na leitura e na interpretação da Bíblia, sem muitos recursos a métodos exegéticos. Dessa maneira, eles conservam mais facilmente a mentalidade popular com que iniciaram sua formação.

Também ressaltam, prosseguiu, que as igrejas populares evangélicas criam um ambiente de comunidade e de fraternidade para os pobres no mundo urbano. O sacerdote equatoriano Angel Salvatierra assinala que, frente ao crescimento da população da América Latina, o catolicismo se confronta com a escassez de sacerdotes e a "excessiva concentração de responsabilidades nos sacerdotes".

O reconhecimento dessas qualidades do protestantismo popular não significa que esses autores católicos tenham deixado de lado as suas convicções particulares a respeito da Igreja de Roma, porém representam um passo na compreensão das diferenças e semelhanças entre evangélicos e católicos quando se pensa na missão cristã para o próximo século.

A questão fundamental seria se o catolicismo pode ver o protestantismo popular como obra de Deus no mundo. Essa mesma pergunta se coloca a muitos protestantes de denominações mais antigas, que se sentem desafiados, quando não ameaçados, pelo crescimento do protestantismo popular.

A aproximação missiológica tem efeitos nas transformações mais recentes ocorridas no interior da Igreja Católica. O documento "Ecclesia in América", que o papa apresentou no México, no dia 22 de janeiro de 1999, afirma: "A ação proselitista que as seitas e novos grupos religiosos desenvolvem em não poucas partes da América é um grave obstáculo para o esforço evangelizador." Ele não deixa dúvidas quanto ao exclusivismo católico.

Há, além disso, uma mudança quanto à ênfase do social ao espiritual. O Sínodo de Bispos da América anotou que é preciso perguntar "se uma pastoral orientada de modo quase exclusivo às necessidades materiais dos destinatários não terminou por defraudar a fome de Deus que esses povos têm, deixando-os assim numa situação vulnerável diante de qualquer oferta supostamente espiritual".

Escobar recordou que no início do século XX os precursores e fundadores do protestantismo latino-americano tinham a visão de que a Igreja Católica necessitava do movimento missionário protestante "a fim de que o bem nela triunfe sobre o mal".

As diversas formas de presença protestante na América Latina tiveram como um de seus efeitos a renovação do catolicismo, indicou Escobar. A partir dessa perspectiva, pode-se conceber que com o advento de sociedades mais plurais, e ante o crescimento de correntes e formas de vida totalmente contrários à visão do Reino de Deus, católicos e evangélicos poderiam encontrar-se juntos em novas avenidas de serviço e testemunho.

No entanto, sublinhou Escobar, a Igreja Católica segue igual e as transformações no catolicismo e a sua criatividade constituem um desafio à identidade dos evangélicos, para que revisem e definam quais são as marcas distintivas de sua fé.

De um outro ângulo, disse, "o crescimento das megaigrejas pára-evangélicas nos colocam perguntas similares que são uma chamada à análise. Em algumas dessas igrejas vemos a venda de objetos sagrados, tais como água e azeite abençoados, vemos a nomeação de 'apóstolos' com autoridade ilimitada e inquestionável, e métodos de coleta de fundos nos quais se promete aos ofertantes o retorno de suas ofertas multiplicadas por dez".

Por outro lado, ressaltou, o progresso da obra missionária a partir da América Latina tem sido notável. Estima-se que em 1982 havia cerca de 92 organizações evangélicas enviando um total de 1.120 latino-americanos como missionários a outras partes do mundo. Em 1988, existiam 150 organizações e 3.026 missionários. Os dados mais recentes indicam que existam 3.921 missionários latino-americanos em outras partes do mundo, enviados por 284 organizações.

A tarefa que agora cabe às novas gerações que pensam sua fé evangélica e refletem sobre sua experiência é a de levar o feito evangélico ao terreno do diálogo cultural de forma objetiva e não apologética. Isso significa aprender a dialogar, superando as atitudes sectárias derivadas do fato de ser minoria, afirmou o teólogo e professor peruano.

Ao mesmo tempo, concluiu, é necessário trabalhar criativa e criticamente no aprofundamento de uma cultura evangélica com suas peculiaridades frente aos desafios da pós-modernidade, quer dizer, frente a essas mudanças de paradigma que Arturo Piedra identificou com tanta precisão a partir de sua perspectiva de historiador evangélico.


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