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Sábado, 6 de Novembro de 2004

Samuel Escobar, teólogo batista peruano e ex-presidente das Sociedades Bíblicas Unidas [Foto www.Townbeacon]
Samuel Escobar, teólogo batista peruano e ex-presidente das Sociedades Bíblicas Unidas [Foto www.Townbeacon]

Estudo do protestantismo aponta novos rumos

SAN CRISTÓBAL DE LAS CASAS, México, Outubro 25, 2004

Embora mantenha muitas das perspectivas e propostas que expressou em seus trabalhos de uma década Taxi Heathrow Airport atrás, o teólogo peruano Samuel Escobar admite que é necessária uma revisão das mesmas, porque aconteceu um salto qualitativo no estudo do protestantismo na América Latina.

Em conferência que proferiu no II Simpósio sobre Protestantismo Evangélico na América Latina, organizado de 19 a 22 de outubro, Escobar disse que esses avanços ocorreram graças ao trabalho de uma nova geração de historiadores profissionais dentro do campo protestante, unidos a historiadores que observam e interpretam a partir de fora a realidade protestante do continente.

O II Simpósio foi organizado pela Fraternidade Teológica Latino-Americana (FTL), filial do México, pelo Centro de Estudos do Protestantismo Mexicano e por docentes da Universidade Nacional Autônoma do México.

O livro do teólogo argentino José Míguez Bonino, "Rostros del protestantismo latinoamericano", arrolou Escobar, aborda o tema se existe um protestantismo com diferentes rostos, e trata de responder se são rostos distintos porque de sujeitos diferentes. Ou seriam máscaras de um sujeito único, e, nesse caso, qual é o rosto que se oculta por detrás dessas máscaras?

Escobar contou que pessoalmente situa-se no que chama "protestantismo evangélico", um dos rostos que Míguez descreve, o que significa que ele reconhece que dentro da América Latina há um fato histórico e atual denominado protestantismo, que é polifacetário e que "minha própria posição é uma dessas faces ou rostos".

Em seu livro, Míguez assinala com precisão que há áreas da história e da maneira de ser dos evangélicos latino-americanos que recém estão sendo analisadas, mas que são indispensáveis para a reflexão sobre a identidade. "Creio que esse simpósio se move nessa linha de trabalho, diálogo e reflexão", disse.

A Reforma do século XVI, prosseguiu, foi um movimento com grande variedade de expressões. A reconstrução histórica fala de grandes linhas do protestantismo: luteranos, anglicanos, reformados ou calvinistas, e radicais ou anabatistas.

O protestantismo foi um movimento confuso, rico em variantes, às vezes anárquico e marcado pelos efeitos das grandes transformações que caracterizavam o surgimento do mundo moderno: a ruptura da Cristandade latina, a quebra da ordem feudal, a afirmação dos nacionalismos europeus, a invenção da imprensa de tipos móveis.

No que se refere à compreensão do fato protestante na América Latina, os dados que antropólogos e sociólogos reuniram podem ser interpretados de diversas maneiras, "assim como esse conflito que assistimos. O crescimento protestante se converteu num campo privilegiado de observação para historiadores e cientistas sociais", afirmou.

Pode-se dizer, continuou, que as primeiras interpretações globais do protestantismo na América Latina, e que persistiram de modos diferentes, podem ser descritas como formas de uma "teoria da conspiração", indicou Escobar.

A versão contemporânea da teoria da conspiração refere-se a conexões estrangeiras do movimento protestante, vinculando-o aos planos imperialistas dentro da Pax Americana. Na etapa anterior, até meados do século XX, a ação e presença missionária protestante foi interpretada como parte de uma conspiração liberal-maçônica-comunista. Há 40 anos, dentro do marco da guerra fria, a teoria da conspiração vinculava a penetração protestante com o comunismo.

As interpretações recentes reconheciam que o movimento protestante se devia ao trabalho inicial de missionárias estrangeiros, mas sustentavam que "o protestantismo é na Ibero-América um movimento já bem arraigado, e que assume, com crescente vigor, um definido caráter próprio. Não depende mais exclusivamente das missões e missionários da América do Norte", anotou o conferencista.

Um esquema interpretativo moldado por teorias da conspiração (marxista ou católico) impede captar a significação de que o protestantismo latino-americano surge dos movimentos de renovação moravo, pietista e avivamentista, de modo especial dos países de fala inglesa, e que os projetos missionários se basearam num forte "voluntarismo" dos fiéis, mais do que num plano concertado de igrejas estatais.

A compreensão adequada desses fatores exógenos obriga a processar a informação que se tem a respeito de motivações, estratégias ou métodos dos movimentos missionários. A nova direção que a reflexão pode tomar sobre a identidade protestante deve seguir a proposta de Carlos Mondragón, que lembra a necessidade de prestar maior atenção aos fatores exógenos que contribuem para explicar a presença protestante na América Latina.

O crescimento numérico das igrejas populares e a participação política dos evangélicos nas recentes décadas chamaram a atenção de jornalistas e cientistas sociais. O resultado desse trabalho obriga a se dar conta de que a identidade protestante é definida não somente pela crença dos seus seguidores, mas também pela vivência desse segmento: "nossa situação e forma de participar na sociedade e de interpretar a realidade que nos rodeia", apontou o teólogo.

No caso do crescimento protestante entre as comunidades indígenas, enfatizou, há estudos sobre mudança cultural repletos de sugestões para os historiadores do futuro. As comunidades indígenas foram verdadeiros laboratórios, onde é possível advertir com maior claridade e medir o efeito da conversão ao protestantismo como fator de mudança social, e até que ponto os elementos de uma identidade protestante se conservam na vivência da fé dentro de outras culturas, assinalou.


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