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Quinta-feira, 8 de Novembro de 2007

Luteranos assumem compromissos e pedem perdão a judeus, negros e índios

Edelberto Behs, SAO LEOPOLDO, Brasil, Outubro 18, 2004

Ao comemorarem 180 anos de presença no país, os vangélicos-luteranos comprometeram-se a se empenhar pela Taxi Heathrow Airport paz, justiça e integridade da criação, a exercer uma prática em favor da inclusão social, a conjugar o envolvimento ecumênico com a tarefa missionária, e a assumir com mais intensidade sua responsabilidade pública, contribuindo para fazer do Brasil um país mais justo e solidário, superando a pobreza e a miséria.

Os compromissos estão arrolados na declaração tirada do XXIV Concílio Geral da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), que esteve reunido de 13 a 17 de outubro em São Leopoldo, cidade que acolheu os primeiros imigrantes alemães chegados ao Sul do país, em 1824.

O Concílio teve como tema geral "Pelos caminhos da esperança", e reuniu 130 delegados dos 18 Sínodos da igreja, além de convidados ecumênicos do Brasil e do exterior.

A declaração agradece a herança eclesial e teológica trazida e desenvolvida pelos imigrantes e seus descendentes, que "valorizaram sobremaneira a família e o associativismo". A igreja agradece pelas relações de intercâmbio e de ajuda que se estabeleceram com igrejas e sociedades missionárias da Alemanha, e, mais recentemente, de outros países.

"A IECLB se desenvolve progressivamente como uma entidade multicultural e multi-étnica, engajada na promoção da cidadania e do espírito comunitário, embora num processo lento, tanto por nossa carga cultural quanto pelo fato de conscientemente renunciarmos a práticas proselitistas", afirma o documento dos 180 anos.

Mas o texto também manifesta culpa. Embora os humildes imigrantes não pudessem ter consciência daquela realidade, "o fato é que com sua chegada ao Brasil vieram a ocupar, em diversos sentidos, um lugar social que poderia e deveria ter sido próprio das comunidades indígenas, detentoras originárias destas terras, e das comunidades negras do Brasil", afirma o texto.

As comunidades que aqui se desenvolveram são, mesmo que de modo involuntário, "parte da história de injustiça e desequilíbrio social de nosso país. E, apesar das discriminações que elas próprias sofreram, as comunidades de imigrantes, comparadas com as indígenas e negras, obtiveram um lugar privilegiado na sociedade brasileira", reconhecem os evangélicos-luteranos.

A declaração admite que em muitos lugares surgiu e prosperou entre membros da igreja "um sentimento de superioridade cultural sobre outras etnias, em particular a indígena e a afro. "Somos ainda vítimas e artífices de preconceitos contra quem é diferente".

O documento lembra, em 2004, os 100 anos de imigração judaica ao Estado do Rio Grande do Sul e reconhece, com pesar, que no período em que imperou na Alemanha o nacionalsocialismo "não fomos totalmente imunes a influências da ideologia da superioridade racial ariana". Em tudo isso, identificam os evangélicos-luteranos, "carecemos do perdão de Deus e daquelas pessoas a quem temos ofendido".

A manifestação sobre os 180 anos de presença protestante em terras  brasileiras agradou delegados conciliares, pastores e direção. "O documento contempla uma análise histórica sóbria e realista, sem triunfalismos, de como vivemos a fé cristã dentro das contingências sociais, políticas e culturais de todos os tempos.

Ele nos ajuda a localizar no presente que temos uma fé marcada pelas contradições, o que, aliás, é próprio da fé luterana, uma vez que vivemos simultaneamente como justos e pecadores", analisou o pastor segundo vice-presidente da IECLB, Rolf Schünemann.

Para o pastor Mozart João de Noronha Melo, do Rio de Janeiro, esse foi o documento mais consistente que a IECLB lançou nos últimos concílios. "Ele espelha a formação de uma confessionalidade nesses 180 anos, e hoje formamos uma grande unidade, graças aos esforços de nossos líderes eclesiásticos do passado e do presente", opinou a pastora sinodal Mariane Beyer Ehrat, do Sínodo Vale do Itajaí, com sede em Blumenau.

A partir da própria realidade, o documento visualiza desafios importantes que existem no contexto da nossa confissão, destacou o pastor primeiro vice-presidente, Homero Severo Pinto. A confissão de culpa nele contido é pertinente, pois muitas vezes "a gente acha que os preconceitos são a verdade. Trilhar pelos caminhos da esperança, tema desse concílio, significa lutar pela melhoria da qualidade de vida de todas as pessoas", frisou o pastor Teobaldo Witter, de Cuiabá.

O texto é um espelho interessante do momento que se vive na IECLB, avaliou o catequista Nilo Bidone Kolling, de Pelotas. "Tomara que não seja mais um documento e que ele sirva de ferramenta de reflexão nas comunidades", acrescentou.